Sueli, Lélia e Abdias: três visões para um Brasil antirracista se unem em evento literário
O Flipetrópolis não apenas reúne grandes nomes da literatura brasileira, mas também se estabelece como um palco para o diálogo de ideias fundamentais sobre a identidade nacional.
Por Luiza Barufi
Três pilares do pensamento negro e antirracista brasileiro estão reunidos na 2ª edição do Flipetrópolis: Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento. O encontro entre essas visões de Brasil converge ainda na metáfora central do festival literário, que é a encruzilhada para propor novos caminhos.

Escritora, filósofa e um dos nomes mais importantes no pensamento negro feminista, Sueli Carneiro será premiada nesta sexta-feria (28) com o troféu Juca Pato de intelectual do ano, em meio à programação do festival. Sua trajetória de contribuições para a filosofia e para a luta por direitos humanos remonta a um ativismo contundente desde a década de 1980, culminando na fundação do Geledés, Instituto da Mulher Negra, em 1988.

O trabalho político da filósofa e escritora Sueli Carneiro foi determinante para a criação de alguns conceitos muito explorados na luta por direitos humanos, como a ideia de “enegrecer o feminismo”, uma virada de chave no movimento ao exigir que a pauta racial e de classe ocupasse a centralidade nas discussões de gênero no país. Tal entendimento pavimentou o caminho para outro conceito muito utilizado atualmente, que é o da interseccionalidade.
A obra de Carneiro também é marcada pelo resgate e reconhecimento fundamental da obra de uma das pioneiras no pensamento do feminismo negro com o livro “Lélia Gonzalez: Um Retrato”, lançado pela editora Zahar no ano passado.
Lélia González foi percursora na desconstrução do mito da “democracia racial”, na cunhagem do conceito de “Amefricanidade” e na afirmação do lugar da mulher negra no pensamento social.
As duas pensadoras brasileiras fornecem, portanto, muitas ferramentas analíticas essenciais para a atuação do movimento antirracista no país e para a compreensão da literatura afro-brasileira.
Por esse histórico de contribuições, Sueli Carneiro recebe o Juca Pato, troféu concedido anualmente pela UBE (União Brasileira de Escritores) desde os anos 1960 para destacar personalidades que contribuíram significativamente para o desenvolvimento intelectual do Brasil. A premiação contará ainda com a presença de Conceição Evaristo (vencedora de 2023) e de Míriam Leitão (vencedora de 2024), que farão a entrega conjunta do prêmio.
A encruzilhada dos três pensadores
O encontro das duas vozes negras femininas dialoga diretamente com a terceira grande figura inspiradora do festival literário: Abdias do Nascimento (1914–2011). Dramaturgo, artista plástico e pensador central da estética e da filosofia afrodiaspórica, ele inspira a identidade visual do evento – e, na programação, também é tema da mesa “Arte, liberdade e vozes negras – O legado de Abdias do Nascimento”, que conta com a presença de Elisa Larkin Nascimento, pesquisadora, escritora e guardiã da obra e da trajetória do artista.
O festival literário proporciona o diálogo entre esses três nomes que, através da arte, da política e da escrita, consolidaram as bases do pensamento antirracista, da negritude no Brasil. Abdias lançou as bases da estética afrodiaspórica com o Quilombismo e o Teatro Experimental do Negro. Lélia Gonzalez, na geração seguinte, aprofundou essa denúncia ao introduzir a lente de gênero e a Amefricanidade. E Sueli Carneiro se coloca na encruzilhada atual, assegurando que essa tradição, que utiliza a literatura como o fio da resistência, permaneça ativa e adaptada às demandas da interseccionalidade.
O festival se torna, assim, a encruzilhada física em que essas três visões de Brasil, marcadas pela resistência, pela intelectualidade negra e pela pluralidade, se encontram e se projetam para o futuro.
A programação completa das mesas e atividades está no site do Flipetrópolis, que acontece até domingo (30) na cidade serrana.