Marcos Piangers: ‘Quem perde é o pai que abandona’
Em entrevista ao Papo Amado, autor de 'O papai é pop' fala sobre masculinidade, divisão do cuidado, trabalho, paternidade e a educação de meninos na era das redes sociais

Durante boa parte da infância, Marcos Piangers imaginou que o pai ausente pudesse ser qualquer coisa. Um super-herói ou jogador de futebol bem-sucedido que preferia permanecer anônimo. Um vilão que sua mãe tentava esconder. Aos 36 anos, porém, quando finalmente encontrou o homem que o abandonou antes mesmo de ele nascer, a conversa tomou outro rumo.
“Quem perde, de verdade, é o pai que abandona.” A afirmação foi feita por Piangers em entrevista ao Papo Amado, ao relembrar o encontro com o pai biológico durante o lançamento da sequência do best-seller “O papai é pop”, em 2016, na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro. Para ele, a experiência o ajudou a compreender que o abandono paterno não era uma questão individual, mas um fenômeno cultural que ainda marca milhões de famílias brasileiras.
Jornalista e escritor, ele transformou a própria experiência como pai em uma plataforma para discutir paternidade, masculinidade e divisão do cuidado. Já são mais de 6 milhões de seguidores nas redes sociais e mais de 1 milhão de livros vendidos. Ao longo da conversa, Piangers questionou a ideia de masculinidade baseada apenas no papel de provedor, falou sobre o arrependimento de ter passado pouco tempo com a filha mais velha nos primeiros anos de vida e defendeu que o cuidado precisa ser entendido como uma responsabilidade compartilhada, não como uma tarefa exclusivamente feminina.
“Casamento não é 50% eu e 50% você. Casamento deveria ser 100% eu e 100% você. [Se] é natural que a mãe saia correndo para a creche se a filha está com febre, é natural que o pai saia correndo para a creche se o filho está com febre”, disse.
A conversa passou ainda pela educação de meninos e meninas, pela influência das redes sociais na formação dos jovens e pelos desafios de construir referências masculinas em um ambiente digital marcado pela disseminação de conteúdos misóginos.
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A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo no final do texto.
“Será que eu devo ser pai?” é um questionamento que fazem muito para você?
Tem uma autora que diz que, se os homens engravidassem, a paternidade seria o grande tema da filosofia. Como os homens dominaram por séculos todas as discussões fora de casa, a questão da maternidade ficou restrita para dentro, escondida no corpo da mulher e nas discussões femininas. O homem se vê como um reprodutor, não como um cuidador. Se pegar a etimologia da palavra “família”, vem de famulus, que significa “escravo doméstico”. Muitas vezes, vai ser a família em que a mulher e os filhos estão dentro de casa, todos servindo este homem. São propriedades dele. É chocante e está no inconsciente masculino, mesmo que o homem diga que não. Em algum lugar, há a ideia de que ele é dono da esposa, que as crianças são propriedades do “chefe de família”. Entender essa carga cultural [é importante] para sabermos se é isso que queremos. Será que não tem como transformar a vida familiar em um ambiente de harmonia, sem que ninguém fique sobrecarregado?
Quem são seus pais?
A minha mãe, dona Heloísa, uma das 11 milhões de mães solo do Brasil. O meu pai biológico abandonou ela grávida. Ela conta uma história que, quando criança, encontrei com ele na praia. E, mais tarde, aqui no Rio de Janeiro, lançando meu segundo livro, o meu pai biológico apareceu. Foi quando, pela primeira vez, aos 36 anos, tive a chance de apertar a mão dele, abraçar e dizer para ele que deu tudo certo, apesar do abandono dele. Fiz questão de dizer para ele: “Se puder ser pai de alguém, seja”. Quem perde de verdade é o pai que abandona. Teve também um papel de esclarecimento, porque percebi que não era uma questão pessoal. Ser abandonada grávida é muito comum no Brasil. Foi uma questão cultural, de ele se sentir despreparado e não incentivado a cuidar. O meu papel como comunicador é inspirar o melhor homem cuidador dentro dos outros.
Como foi esse encontro?
Foi na Livraria da Travessa, no Leblon. Estava lançando “Papai é pop 2”, e a minha esposa, “Mamãe é rock”. As minhas filhas estavam correndo pela livraria, escolhendo livros. Tinha uma fila, muitos amigos. Tirava foto e autografava. Olhei para a minha esposa, e ela estava um pouco nervosa quando uma pessoa específica estava chegando. Naquele momento, falei: “É meu pai biológico”. Depois, ela me contou que tinha feito uma investigação na internet e conversado com a minha mãe. De fato, era ele. Fui tendo que pensar, em alguns minutos, o que ia dizer para aquele cara. Quando ele chegou, apertei a mão dele e puxei para um abraço. Falei: “Não foi sua culpa, não tenho mágoa. Tenho absoluta certeza que aquela atitude foi muito comum, condizente e coerente com todos os homens de 1980”. Ele tinha uma amiga do lado e, quando eu falei isso, ela arregalou os olhos, e ele arregalou os olhos. Fiquei confortável, porque, no fundo, acho que, por 36 anos, me preparei para encontrar aquele cara.
Você nunca tinha ido atrás dele?
Nunca. Em 2010, a minha mãe teve câncer pela primeira vez. Naquela situação toda de ter que fazer uma série de procedimentos, a gente conversou pela primeira vez sobre quem era o meu pai. Ela me dizer que o meu pai foi só um acontecimento, um caso, também foi aliviador para mim. Quando se é criança e não tem pai, você passa o tempo todo imaginando.
E você não perguntava?
Perguntava. Ela dizia: “Eu sou seu pai” ou “você não tem pai”. Eu ficava imaginando: será que meu pai é um super-herói, um jogador de futebol que ganha muito dinheiro e paga as nossas contas, mas quer manter anonimato? A imaginação te leva também para outros extremos, que é: será que o meu pai é um grande vilão? É imaginar que você é fruto de uma violência, e sua mãe está te protegendo em não dizer quem é o seu pai. Ora meu pai era super-herói, ora supervilão. É um processo muito natural de uma criança que está tentando se entender, porque, no fundo, nosso pai e nossa mãe nos sinalizam quem a gente é.
Você e seu pai biológico não quiseram levar a relação adiante?
O cálculo que faço é: tenho muita gente que amo e quero passar tempo junto. Um pai que contribuiu apenas com uma célula não é um pai. É um estranho. Pai de verdade é quem cuida, abraça, conhece, brinca, conversa, sabe o nome do seu melhor amigo e sabe te fazer uma surpresa no aniversário. É com essas pessoas que quero passar o pouco tempo que me resta. Porque, senão, a gente fica num esforço de se relacionar com um estranho só pelo acaso de ele ser um progenitor.
Você já disse que se arrepende de ter trabalhado demais quando a sua primeira filha nasceu. Hoje, como é a sua equação entre trabalho e presença?
Em geral, o filho vai chegar no momento de ascensão profissional, dos 25 aos 35 anos. Especialmente para o homem, e aqui podemos falar de masculinidade, existe um medo gigantesco de não ser suficiente, o provedor, o pagador de contas, alguém que vai dar conforto para a família. [Há] o peso feminino, mas existe [também] um peso masculino. Estamos o tempo todo apavorados com a ideia de não conseguir ganhar dinheiro. Não sou exceção, sou regra. Fiquei apavorado com a possibilidade de não ter dinheiro para comprar fralda, leite. E aí trabalhei mesmo. É um trabalho mental constante em como eu posso crescer profissionalmente e conseguir pagar todas as contas. E, de fato, a Anita teve um pai muito mais distante do que a Aurora, minha segunda filha. Um dos presentes que a vida te dá é segundas chances. Fui percebendo e mudando.
O que você tem a dizer para um homem imaturo?
Os nossos símbolos de masculinidade mudaram. No passado, eram caciques, guerreiros, homens considerados honrados, protetores e corajosos. Hoje, celebramos homens diferentes. Elon Musk teve filhos com várias mulheres, não fala com muitos deles e até faz piada com uma das filhas. Steve Jobs abandonou a filha, Lisa. Homens ligados à tecnologia, empreendedorismo e que são inovadores. Existe toda uma estética que desenha essa masculinidade na internet, como uma admiração aspiracional para o jovem moderno. Um homem que não é gentil nem moderado, e não é cuidador.
Precisamos voltar a uma masculinidade que seja funcional. O homem imaturo joga uma sobrecarga muito grande nas mulheres. E essas mulheres estão dizendo: “A gente não quer engravidar mais”, “não queremos homens assim”. Aí surgem os movimentos dizendo: “Ah, então nós, homens, também não queremos saber de mulheres, seguimos nosso próprio caminho”. É o fim, que é a guerra de gêneros. Não é um mundo que quero nem para mim nem para as minhas filhas. É muito revolucionário a gente ter homens sensíveis, cuidadores, participativos, presentes, e que muitas vezes cuidam das crianças para a mulher se realizar profissionalmente.
Gravidez e puerpério. Quais cuidados um homem deve ter nesses momentos?
O homem e a mulher precisam conversar. A linguagem do homem é diferente da linguagem da mulher. É como se nos casamentos a mulher falasse japonês e o homem falasse alemão, ficam os dois gritando. Não funciona. A gravidez é uma espécie de crise biológica, profissional e social para os dois. A coisa mais importante é: “Do que você precisa?”. Tudo fica mais fácil [quando se] estabelece essa comunicação clara.
Casamento não é 50% eu e 50% você. Casamento deveria ser 100% eu e 100% você. [Se] é natural que a mãe saia correndo para a creche se a filha está com febre, é natural que o pai saia correndo para a creche se o filho está com febre. [Se] é natural que a mãe lave a louça suja, é natural que o pai lave a louça que está suja. É 100%.
O que você sugere para os pais conversarem sobre machismo com meninos?
Nenhum menino vem machista para o mundo. Em algum momento, dizemos para esse garoto ser violento, agressivo, competitivo; que não pode ter alegria, porque ela vai colocar a masculinidade dele em xeque; que não pode ter nojo de nada nem medo; não pode ter tristeza e tem que engolir o choro. Não deixa o garoto sentir emoções básicas — medo, tristeza, alegria, nojo. Se assistiu “Divertidamente”, só sobrou uma emoção: a raiva. Esse é o nosso idioma.
Para os pais de meninos, nos primeiros 10 anos, você é o herói do seu filho. Seja o homem que você quer que ele seja: correto, gentil, humano, honesto, valente, cuidador, sensível. Cuide das redes sociais. Na hora que um menino abre uma conta no TikTok, demora cerca de três minutos para ele começar a ver conteúdos que transformam esse menino num cara machista e misógino, que odeia mulheres. [É importante ter exemplos] de masculinidade saudável para esse jovem adolescente.
Como você fala com as suas filhas sobre isso?
Me interesso em contar para as minhas filhas tudo o que elas podem realizar. Em não limitá-las por causa do gênero delas. Quero ser o pai que diz para as meninas: “Voem!”.Vou dizer, claro: “Cuidado, se respeita, fica atenta, no mundo acontece tudo isso, mas dá seu show, viva, brilha e voa”.