Crítica a Israel não pode ser confundida com antissemitismo, alerta professor
Para Bruno Huberman, confundir judaísmo, sionismo e políticas de Israel empobrece o debate público e acaba alimentando a violência que se diz combater.

(Foto Mike Ortiz / UGC / AFP)
Ataques violentos contra a comunidade judaica, como o ocorrido no fim de semana em Sydney, na Austrália, onde pelo menos 16 pessoas foram assassinadas na praia de Bondi em pleno feriado judaico de Hanukkah, reacendem o debate sobre o antissemitismo.
O professor de professor de Relações Internacionais da PUC-SP Bruno Huberman alerta, no entanto, para um uso político do termo, muitas vezes evocado para enquadrar críticas ao Estado de Israel e às suas políticas militares como se fossem ataques à população judaica como um todo. Em entrevista ao Matinal desta quarta-feira (17), ele fez a diferenciação entre os dois movimentos.
“Antissemitismo é racismo contra judeus enquanto grupo religioso ou étnico. Criticar Israel como Estado, chamá-lo de colonial, racista ou de apartheid, é uma crítica política.”
Segundo ele, essa confusão entre judaísmo, sionismo e Estado israelense não apenas empobrece o debate, como também acaba alimentando o próprio antissemitismo que se quer combater.

Huberman explicou, apesar de o antissemitismo ser uma forma histórica de racismo contra judeus e estar profundamente enraizado na Europa, ele não se manifesta da mesma maneira em todos os países.
Em sociedades como Brasil e Austrália, citou, ele não é estrutural como no continente europeu, o que torna ainda mais importante compreender por que ataques e eventos recentes têm reativado discursos e violências que antes não ocupavam o centro do debate.
E alertou ainda que a instrumentalização da identidade religiosa para justificar ações de Estado contribui para um ambiente de radicalização e desinformação, no qual críticas políticas legítimas se misturam a discursos de ódio, criando um cenário perigoso.
“Todos nós vamos pagar o preço dessa confusão”, diz, ao defender que o combate ao antissemitismo passa também por separar religião, identidade e política de Estado.

Leia a íntegra da entrevista de Bruno Huberman ao Matinal:
Bruno, para começar, o que é o antissemitismo?
O antissemitismo é uma forma de racismo contra os judeus, um preconceito racial ao qual os judeus estão submetidos há séculos, especialmente desde a Europa dos séculos XV e XVI. Ele tem raízes religiosas, políticas e econômicas e resultou em perseguições, assassinatos, expulsões e, no caso mais extremo, no Holocausto, que matou cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
“O que aconteceu na Austrália é grave e deve ser condenado sem relativizações. Mas é importante entender que a Austrália não tem um histórico estrutural de antissemitismo. O que vemos agora é um fenômeno recente, intensificado após o início da ofensiva israelense em Gaza. Isso não justifica a violência, mas ajuda a explicar”
Esse fenômeno se manifesta da mesma forma em todos os países?
Não. O racismo é sempre relacional. Ele depende do contexto histórico e social. Na Europa, o antissemitismo foi, e em alguma medida ainda é, estrutural. No Brasil ou na Austrália, por exemplo, ele não ocupa o mesmo lugar. Aqui, os judeus foram majoritariamente integrados à branquitude. Eu mesmo, no Brasil, sou lido socialmente como branco e me beneficio disso. Isso não significa que o antissemitismo não exista, mas ele opera de outra forma.
O ataque na Austrália reacendeu o debate sobre o crescimento do antissemitismo. Como você analisa esse episódio?
O que aconteceu na Austrália é grave e deve ser condenado sem relativizações. Mas é importante entender que a Austrália não tem um histórico estrutural de antissemitismo. O que vemos agora é um fenômeno recente, intensificado após o início da ofensiva israelense em Gaza. Isso não justifica a violência, mas ajuda a explicar por que esse tipo de ataque começa a surgir em contextos onde antes não era comum.
Você tem falado muito sobre o uso político do termo antissemitismo. O que isso significa?
Significa que críticas ao Estado de Israel, às suas políticas militares ou à sua estrutura como Estado estão sendo enquadradas automaticamente como antissemitismo. Isso se intensificou muito após o ataque de 7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza. Há uma tentativa clara de silenciar críticas legítimas por meio dessa acusação, que é extremamente grave e pesada do ponto de vista moral e político.
Onde está a linha entre antissemitismo e crítica a Israel?
Antissemitismo é racismo contra judeus enquanto grupo religioso ou étnico. Criticar Israel como Estado, chamá-lo de colonial, racista ou de apartheid, é uma crítica política. Alguém pode se sentir ofendido por essa crítica, mas isso não a transforma automaticamente em racismo. Existe uma diferença fundamental entre ofensa política e ameaça à integridade física ou à existência de um grupo.
“Os autores do ataque aparentemente se inspiraram no Estado Islâmico, que, ironicamente, nunca teve Israel como principal inimigo. Mas, no imaginário radicalizado, tudo vira uma guerra religiosa entre judeus e muçulmanos, o que é falso. O conflito é político, territorial e colonial — não religioso”
Essa confusão tem sido institucionalizada?
Sim. Isso passa, por exemplo, pela definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, que vem sendo usada para classificar críticas a Israel como antissemitas. Essa definição foi instrumentalizada politicamente e adotada por diversas organizações e governos. No Brasil, houve inclusive tentativas de incorporá-la formalmente à legislação.
Essa estratégia pode acabar alimentando o próprio antissemitismo?
Exatamente. Ao excepcionalizar o Holocausto, Israel e os judeus como algo acima de qualquer crítica, você acaba reforçando estereótipos antigos, como a ideia de um poder judeu global. Isso é perigosíssimo e historicamente associado ao próprio antissemitismo europeu. É um tiro no pé.
No caso da Austrália, há relação direta com o conflito no Oriente Médio?
Há uma relação indireta, mediada pela confusão. Os autores do ataque aparentemente se inspiraram no Estado Islâmico, que, ironicamente, nunca teve Israel como principal inimigo. Mas, no imaginário radicalizado, tudo vira uma guerra religiosa entre judeus e muçulmanos, o que é falso. O conflito é político, territorial e colonial — não religioso.
Israel se coloca como representante de todos os judeus?
O sionismo tenta se apresentar como sinônimo de nacionalismo judaico, mas isso é falso historicamente. Sempre existiram outras formas de organização política judaica, muitas delas antissionistas. Identificar automaticamente ser judeu com ser israelense é uma construção política recente e profundamente problemática.
Qual o risco desse cenário para comunidades judaicas fora de Israel?
O risco é que judeus no mundo inteiro passem a pagar o preço pelas ações do Estado de Israel, mesmo sem concordar com elas. Isso já está acontecendo. E todos nós, judeus sionistas ou não, temos a responsabilidade de combater o antissemitismo, inclusive denunciando o uso político e irresponsável desse termo.
Assista à entrevista de Bruno Huberman ao Matinal desta quarta-feira (17):