Entrevista

Pix: Brasil provavelmente não vai ceder à pressão dos EUA, diz Welber Barral

Ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil afirma que a política de Trump é imprevisível e que nunca viu nada igual em 35 anos no mercado de negociações internacionais

Publicado em 04/06/2026 às 06:00
Trump e Lula na Casa Branca, em 7 de maio de 2026 (Foto Ricardo Stuckert/PR)

A investigação comercial dos Estados Unidos que ameaça taxar exportações brasileiras em 25% tem um alvo: o Pix. No entanto, o ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil Welber Barral afirma que o método de pagamentos instantâneos — mencionado 20 vezes no documento que justifica o possível tarifaço — se tornou um patrimônio tão central para o país que recuar para agradar aos americanos soa pouco provável.

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“É muito improvável que o Brasil vá sequer admitir, colocar esse tema [Pix] em negociação”, destacou em entrevista ao Matinal desta quarta-feira (3), no canal Amado Mundo.

Barral também explica que o cenário da política externa do presidente dos EUA, Donald Trump, é imprevisível e mistura ameaças comerciais a interesses eleitorais, além de tentativas de pressionar o governo brasileiro para conseguir concessões a favor do sistema americano na América Latina , situação que já ocorreu com países, como Equador e com a Argentina, mas não aconteceu com o governo brasileiro.

O ex-secretário alerta, porém, que o Brasil não é o alvo principal de Trump e não foi o único a sofrer as propostas das tarifas.

Confira os principais trechos da entrevista:

Com relação à tarifa sobre a qual soubemos ontem mais cedo, qual é o tamanho do impacto disso? Poderia ter sido pior? Dá para reverter?

O que foi anunciado ontem não foi especificamente em relação ao Brasil. É uma investigação baseada na Seção 301 que começou no ano passado. Então, na realidade, não tem relação com o presidente Lula ou com o senador Flávio Bolsonaro. Essa investigação está em curso há um ano, e nós estamos defendendo vários setores. Ela trata de reclamações sobre uma suposta discriminação brasileira contra empresas americanas em várias áreas, como patentes, marcas, Pix, desmatamento e etanol. O relatório preliminar do USTR [Escritório de Comércio dos EUA] propõe a aplicação de uma tarifa de 25% sobre as exportações do Brasil.

Essa ainda não é a decisão final. Haverá audiências, petições e, eventualmente, o aumento da lista de exceções. Em meados de julho, o USTR fará um relatório final que será submetido ao presidente Trump, o qual tomará a decisão definitiva sobre aplicar ou não a sanção. Até lá, ocorrerão várias negociações, pois essa ameaça também funciona como uma forma de pressionar o Brasil. Já existe uma negociação conduzida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para tentar solucionar as reclamações americanas e, claro, o Brasil também coloca as suas próprias demandas sobre a mesa.

Especificamente sobre o Pix: você acha que essas medidas representam uma ameaça real? O que pode ser feito e qual é o espaço que o governo brasileiro tem neste período para negociar e tentar convencer o governo americano a abrandar ou não submeter essas tarifas?

O Pix já estava sendo investigado no âmbito da Seção 301 desde o ano passado. Há reclamação por parte de empresas de meios de pagamento norte-americanas, que alegam sofrer uma concorrência desleal porque o Pix é operado e fiscalizado, ao mesmo tempo, pelo Banco Central do Brasil. Isso geraria uma chamada ‘dissonância competitiva’, e este é o argumento central deles. Fica claro que quem faz essa reclamação não percebe o quanto o Pix é importante para a economia e para a sociedade brasileira. Portanto, é muito improvável que o Brasil vá sequer admitir colocar esse tema em negociação.

Como o país navega nesse momento, considerando as interferências políticas de diversas esferas? O que é possível o MDIC fazer agora, basicamente, para convencer os Estados Unidos a voltar atrás? Com a sua experiência de negociador, qual é a expectativa real de resultado para o governo?

Trabalho com negociações internacionais há 35 anos e nunca vivi uma situação como a que os Estados Unidos passam hoje. O grau de imprevisibilidade e a política errática da atual gestão são inéditos. Temos alguns fenômenos novos: o primeiro é o próprio estilo de governo do Trump; o segundo é a forte concorrência interna entre as agências americanas; e o terceiro é a imensa pressão política que o governo sofre por conta das eleições legislativas de novembro.

A verdade é que, até hoje, os Estados Unidos não conseguiram extrair concessões do Brasil. Eles já fecharam acordos com a Argentina, o Equador e com outros países latino-americanos e asiáticos, mas do Brasil não obtiveram vantagens. Por isso, há uma pressão interna para que o governo americano mostre alguma vitória comercial à sua base eleitoral.

Do lado brasileiro, a conjuntura também é difícil por estarmos em um ano de eleições gerais, o que faz com que os temas acabem sendo discutidos de forma muito superficial e sob a ótica eleitoral. A falta de coordenação e as posições divergentes entre os próprios negociadores brasileiros acabam atrapalhando e fragilizando o país na mesa de negociações.

Assista à entrevista completa:

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