Israel e EUA perdem soft power com crimes de agressão e uso exacerbado da força
Analista João Paulo Charleaux avalia que punições para Trump e Netanyahu no tribunal da opinião pública fazem com que tanto EUA quanto Israel sofram com isso

A guerra entre Estados Unidos e Irã está em um limbo: sem ataques, mas sem sinais claros sobre se avançará para uma retomada das batalhas ou se para a paz. E aí entra algo muito paradoxal: a pacificação desejada carrega a ambição de retorno a um ponto anterior ao início do conflito. Em entrevista ao Matinal, o analista político João Paulo Charleaux falou sobre essa encruzilhada geopolítica e ressaltou as contradições que essa situação carrega.
Para ele, antes de os ataques de EUA e Israel contra o país persa serem deflagrados, havia a possibilidade de negociar com o regime iraniano sobre materiais atômicos, o Estreito de Ormuz estava liberado e o comércio mundial fluía bem pela região. Aí, tomou-se o caminho da guerra. Segundo Charleaux, Trump perdeu o que já tinha e não conseguiu o que pretendia.
“Tudo saiu pela culatra. É um pouco como aquele apostador que tem pouco dinheiro e vai para as bets, vai para a roleta, achando que vai triplicar seus ganhos, e acaba perdendo até o pouco que tinha”, comparou o especialista.
O jornalista argumenta que a guerra de Trump deixou “o mundo inteiro em uma situação muito pior do que quando começou”, ao ponto de o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, falar abertamente sobre o desejo de retornar a um ponto anterior a essa guerra.
O insucesso do conflito pode até não acarretar punições para o presidente norte-americano na esfera penal, mas levanta outro ponto relevante dentro do cenário internacional: a perda do “soft power” do país — a capacidade de influenciar decisões e comportamentos de outros atores internacionais utilizando a disseminação de valores ideológicos e culturais para cativar corações e mentes no mundo.
“O Trump evidentemente não teme ser capturado pelo Tribunal Penal Internacional, mas os atos dele, justamente os atos que têm a ver com essa exacerbação do direito do uso da força, com agressões gratuitas, crimes de agressão contra o Irã, destruição de escola, esses bombardeios, tudo isso causa uma repulsa muito grande a ponto de não só ele perder força ou ser criticado por seus adversários, mas também perder o apoio daqueles que são seus aliados”, avaliou Charleaux.
Assim em Israel como nos EUA
A exemplo de Trump, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, está sendo punido no “tribunal da opinião pública” desde a devastação na Faixa de Gaza após os ataques terroristas do Hamas, antes mesmo de uma possível responsabilização penal.
“Acho que Israel e Estados Unidos são exemplos de como você pode corroer o seu soft power cometendo esses crimes, embora a responsabilização penal ainda seja incerta.”
O peso para o presidente americano pode ser ainda maior, considerando que 2026 é ano eleitoral nos Estados Unidos. O país terá em novembro as tradicionais “midterms”, eleições de meio de mandato presidencial, nas quais se renovam partes do Senado e da Câmara, hoje controladas pelos republicanos trumpistas. A popularidade de Trump despencou a um dos patamares mais baixos dentro dos dois mandatos dele, analisou Charleaux: “Uma perda muito grande de capital político, num momento muito crucial para ele”.

“As regras da guerra”
As razões pelas quais Trump optou por partir para uma guerra com o Irã não se diferenciam do motivo pelo qual o homem pré-histórico entrava em conflito— ambos buscam condições mais confortáveis de existência para si. Essa é parte da premissa do livro de JP Charleaux.
“Se há 13 milhões de mil anos atrás se falava de disputa por recursos naturais, por água, por melhores lugares para pastagem de animais, caça e coisas do tipo, hoje em dia a confusão se dá por acesso ao petróleo, que também é um recurso natural”, discorre o autor.
Lançado neste ano pela editora Zahar, “As regras da guerra”, de Charleaux, analisa a “mania humana” de entrar em conflitos, que vai desde o período paleolítico até os dias atuais.
“Então, desde as antigas crenças, as religiões monoteístas e tudo isso, eu vou mostrando ao longo do livro, existem certos parâmetros do que seria uma guerra justa, do que seria uma guerra legal, em que circunstâncias nós, seres humanos, consideramos que esse recurso à força é legítimo e de que forma ele pode ser usado”, diz Charleaux.
Veja a entrevista completa do Matinal: