Encontro de Trump e Zelensky mostra que americano vive da ‘economia de atenção’
Reunião neste domingo, na Flórida, foi convocada para discutir propostas de pôr fim à guerra; no entanto, o ponto mais sensível das tratativas, o controle de território de Donbass, ainda está longe de ser resolvido

O presidente americano Donald Trump é um personagem que vive da economia da atenção. Neste domingo (28), ele convocou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para uma reunião sobre o acordo de paz na Ucrânia. O encontro aconteceu no clube de Trump em Mar-a-Lago, na Flórida, e, diante da imprensa, anunciaram que faltariam apenas 10% para a conclusão de um plano de paz para o conflito na região, que começou em 2022, após a invasão russa.
No entanto, quando entramos nos detalhes dessas tratativas, fica claro que ainda há ao menos um grande impasse, que é o controle dos territórios de Donbass, o ponto mais importante deste processo. Atualmente, cerca de 75% de Donbass estão sob controle da Rússia, mas Putin quer a totalidade da região.
Ao mesmo tempo, no mesmo encontro em Mar-a-Lago, Trump disse que “talvez não tenha acordo, ainda vai ter muito tempo de briga”. De certa forma, as tratativas para pôr fim à guerra se encontram no mesmo ponto em que estavam há um mês, ou mesmo seis meses atrás.
É evidente que, com Trump no poder, Putin tem um incentivo enorme para ficar guerreando. O presidente russo não tem nenhum interesse em parar essa guerra, a menos que consiga todo os seus objetivos.
A reunião deste domingo evidenciou, portanto, a mentalidade personalista de Trump, que acha que precisa estar na notícia o tempo todo.
Visão imediatista é aplicada na política externa de Trump
Outro detalhe que chamou a atenção após esse encontro com Zelensky –e que é muito sintomático sobre como pensa Trump– é a visão de curto prazo do americano. Trump é um empresário dos setores de construção e imobiliário que se tornou presidente. Dessa forma, ele acha prudente fazer uma oferta de 15 anos de garantias à Ucrânia contra futuras invasões russas.
Em relações internacionais, uma garantia de 15 anos é o equivalente a uma garantia de uma semana, tal a irrelevância do prazo. Do ponto de vista de reconstrução de um país, 15 anos estão longe de serem suficientes para poder respirar.
Um exemplo próximo é a Alemanha. Mesmo sem estar em guerra e não ter sido invadida, a potência alemã vai demorar 15 anos para começar a ter um exército razoavelmente operacional, sem nem ainda contar com grandes aparatos, como porta-aviões, por exemplo. Historicamente desmilitarizada desde o fim da Segunda Guerra e desde a adesão à Otan (principal aliança político-militar ocidental), a Alemanha tem feito anúncios e mudanças concretas em termos militares recentemente, principalmente no contexto da guerra na Ucrânia e da sua postura de defesa na Europa.
Imagina, então, para um país que de fato está em guerra? O que são 15 anos? É uma verdadeira piada a mentalidade que Trump traz para a política externa.
Uma garantia mínima dessas seria de 50 anos. O próprio artigo 5º da Otan concedeu aos países europeus reconstruídos no Pós-Guerra proteção e garantias indefinidas enquanto durasse a aliança.
Ou seja, em relações internacionais, é em séculos –e não em décadas– que se pensa.
Assista abaixo à análise de Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta segunda (29):