‘A esquerda radical defende uma modificação estrutural da sociedade’
Deputados Sâmia Bomfim e Glauber Braga comentam a reorganização da esquerda, o apoio a Lula e a atuação da oposição no Congresso

A reorganização da esquerda para as eleições de 2026 ganhou um novo capítulo em julho, com o lançamento da Bancada da Esquerda Radical, articulação que reúne parlamentares do PSOL e do PT em defesa de uma agenda socialista e de enfrentamento à extrema direita. O movimento foi anunciado semanas depois da volta de Glauber Braga (PSOL-RJ) à Câmara dos Deputados, em junho, após cumprir seis meses de suspensão, e meses depois de o PSOL confirmar apoio à candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Liderada pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), a nova articulação reúne parlamentares e lideranças de diferentes estados, entre eles Glauber Braga, Fernanda Melchionna (PSOL-RS), Fábio Félix (PSOL-DF), Renato Freitas (PT-PR), Vivi Reis (PSOL-PA) e Jones Manoel (PSOL-PE). O grupo pretende atuar de forma coordenada no Congresso e em outras Casas Legislativas para fortalecer um campo político mais à esquerda dentro da base de apoio ao governo. No manifesto de lançamento, os integrantes defendem que o enfrentamento à extrema direita ultrapasse as disputas eleitorais, com organização dos movimentos populares, atuação no campo das ideias e defesa de um projeto político de orientação socialista.
Leia também: Estudo revela forças e fraquezas de direita e esquerda no campo de batalha digital
Quando participaram do Papo Amado, em dezembro de 2025, a Bancada da Esquerda Radical ainda não existia e a Câmara dos Deputados ainda não havia decidido substituir o pedido de cassação de Glauber Braga por uma suspensão temporária do mandato. Companheiros de vida e de militância política, Sâmia Bomfim e Glauber Braga já defendiam, porém, a necessidade de fortalecer um campo político mais à esquerda sem abrir mão da unidade para derrotar a extrema direita nas eleições de 2026.
Na entrevista, Glauber também reconstitui os bastidores do episódio que deu origem ao processo disciplinar contra ele. O deputado relata a sequência de provocações que, segundo afirma, antecedeu a agressão a um integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), explica por que decidiu fazer greve de fome durante a tramitação do caso e sustenta que a tentativa de cassação tinha motivações políticas. Em dezembro de 2025, a Câmara rejeitou a perda do mandato e aprovou, em seu lugar, a suspensão por seis meses. Glauber reassumiu a cadeira em junho deste ano.
Entrevista: Às vésperas do começo oficial da campanha, Heloísa Helena não poupa nem Lula nem Marina
Sâmia e Glauber também refletem sobre a violência política dentro e fora do Congresso, discutem como os ataques assumem características distintas quando dirigidos a mulheres, analisam a polarização no Parlamento e compartilham como suas trajetórias, iniciadas em momentos diferentes da Câmara dos Deputados, moldaram a atuação política do casal.
A seguir, os principais trechos da entrevista. Assista à íntegra em vídeo ao final do texto.
Como é ser parlamentar em plenários de lacração como esses em que vocês estão?
Glauber: A esquerda tem que utilizar esse instrumento como ferramenta de luta política. Tem que diferenciar o que é de fato uma lacração no sentido de um ataque vazio para ofender o outro e aquilo que tem uma questão política relevante e que precisa ter maior repercussão na sociedade, inclusive nas redes.
Polarização afetiva é ruim, é você querer o extermínio do outro.
Sâmia: Vendo tanta gente ruim que fala barbaridades não sei se me sinto moralmente superior, mas não acho que faço parte do mesmo universo. Não tenho os mesmos valores e tenho dificuldade de imaginar uma solução entre visões de mundo tão antagônicas. O Congresso Nacional tem uma concentração de pessoas ruins acima da média do que em outros lugares da sociedade.
Adjetivação. Qual o limite?
Glauber: Fui orientado a dar uma diminuída. Do tipo “Arthur Lira, você é um bandido”… Ao invés disso, posso dizer: “isso que está se fazendo aqui é uma bandidagem”. Uma diferença sutil, mas que talvez faça com que a discussão vá em um patamar menos pessoal. Mas quando você adjetiva a pessoa, consegue amplificar a mensagem.
Sâmia: Eu teria dificuldade se alguém fizesse um pedido semelhante, porque tem a ver com um estilo de retórica, até porque somos adjetivadas o tempo todo. “Canalha”, “machista”, “corrupto”, termos assim uso em temas como na discussão do PDL do estupro, aquele que vulnerabiliza ainda mais as vítimas de violência sexual.
Os ataques à mulheres são de outra natureza. Contra a Sâmia, eles adotam uma postura gordofóbica.
Sâmia: Lido desde a infância com bullying. E, na vida pública, desde que me tornei parlamentar, em 2017, sempre foi um tema para me atacar. ”Gorda”, “feia”… e outros atributos que são imputados a mulheres: “barraqueira”, “escandalosa”, “abortista”. Isto não me abala. Sei que eles utilizam elementos violentos para tentar descredibilizar.
Como foi o episódio que levou ao processo de cassação?
Glauber: Faço uma roda de conversa toda segunda-feira, meio-dia, no centro do Rio de Janeiro, microfone aberto, quem quiser chega e faz perguntas. Um sujeito [Gabriel Costenaro] que não conhecia chega, faz perguntas, respondo e vejo que ele ficou agressivo. Aí descubro, nas redes sociais, que ele era do MBL. Ele voltou mais três vezes, mais agressivo ao ponto de dizer para um coordenador do nosso mandato “eu sei onde sua mãe mora”, isso gerou um boletim de ocorrência contra ele. Na quinta vez, foi o episódio dentro da Câmara. A gente bateu boca e terminou com aquelas imagens onde o empurro e dou um chute na bunda dele, depois dele falar que minha mãe é uma bandida. E ele fez isso porque já sabia que iria me ferir.
Quando você decidiu pela greve de fome?
Glauber: Tinha a sensação de estar por um fio e a convicção que a única maneira de vencer era chamar atenção para o grande escândalo que eram as denúncias ao orçamento secreto.
Estão com Lula ou defendem uma candidatura do PSOL?
Glauber: Ele é o único que tem condições de derrotar o candidato da extrema direita. Mas vejo com respeito todas as articulações de quem acha importante ter candidaturas da esquerda radical para fazer o debate no primeiro turno, enquadrar a extrema direita e dizer aquilo que não é dito numa campanha eleitoral.
Sâmia: Outras candidaturas do campo da esquerda radical são legítimas e não vejo hoje espaço no PSOL para que tenha uma outra candidatura. Mas não vejo a possibilidade de um grande giro à esquerda ou de um programa econômico com uma rota diferente do que vem acontecendo.
O que é esquerda radical e o que é extrema esquerda?
Glauber: Prefiro diferenciar esquerda radical e esquerda sectária. O sectário é o que acha que qualquer visão diferente da sua é uma visão equivocada. Já a esquerda com radicalidade é a que defende uma modificação estrutural da sociedade capitalista com a superação desse sistema a partir de uma sociedade socialista, onde você democratiza as relações políticas e sociais, mas que consiga ter compartilhamento do material.
E quem são seus pais?
Sâmia Bomfim: Antônia e Domingos Bonfim. A minha mãe nasceu no interior de São Paulo, em Mirante do Paranapanema, e meu pai em Alfredo Marcondes, na região de Presidente Prudente, onde eu nasci. Eles são servidores públicos estaduais, filhos de retirantes nordestinos. Meus avós paternos vieram da Bahia, e os maternos, do Ceará, para tentar uma vida melhor no interior de São Paulo.
Glauber Braga: A minha mãe, Saudade, nordestina de Natal, no Rio Grande do Norte, médica, brizolista, chegou em Nova Friburgo [RJ] sem conhecer ninguém. Depois, se casou com meu pai e tiveram eu e minha irmã, Ivana. A cidade se revezava entre dois grupos políticos, e ela rompeu esse bloqueio, sendo chamada a ser candidata pelo PDT, pelo trabalho que fazia na zona rural, mas não foi eleita. Depois, foi a primeira prefeita que rompeu com os grupos que se revezavam. Meu pai é Roberto, médico e também brizolista. Alguém que sempre encontro para refletir sobre as coisas mais complexas da vida.
O que é ser brizolista?
Glauber: É tomar a decisão de ficar do lado do oprimido, da classe trabalhadora. Brizola é uma figura do trabalhismo e foi o governador do Rio de Janeiro que inaugurou um projeto popular, os 500 CIEPs [Centro Integrado de Educação Pública] junto com o Darcy Ribeiro.