Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

Política imprevisível de Trump tensiona relação Brasil-EUA e mira eleições

Ao usar tarifas, sanções e pressão política como instrumentos diplomáticos, o governo Trump eleva os riscos para a relação bilateral e para o debate eleitoral brasileiro

09/07/2026 às 12:05 · Atualizado há 3 meses
Flávio Bolsonaro e Donald Trump
O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Divulgação)

Para entendermos a delicada e confusa situação atual entre Brasil e Estados Unidos, precisamos analisar o recente modus operandi da diplomacia americana atual sob o comando de Donald Trump. A imprevisibilidade dita as regras: na Copa do Mundo, vimos o presidente exigir a anulação de um cartão vermelho de um jogador americano, um escândalo de proporções que não se via desde Mussolini. Dias atrás, na cúpula da Otan ( Organização do Tratado do Atlântico Norte), sobraram farpas para todo lado, críticas à União Europeia, ataques à Espanha (dizendo que lá havia “pessoas ruins”) e até a retomada do desejo de controlar a Groenlândia.

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É esse mesmo governo que agora volta suas atenções para a América Latina e para o Brasil. A resposta de Washington negando o risco de uma ação militar no Brasil após a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pode até ser protocolar, mas a preocupação brasileira não surge do vácuo. O uso da força voltou a fazer parte do repertório da Casa Branca na região, impulsionado por uma roupagem moderna da Doutrina Monroe.

Guerra de narrativas eleitorais no Brasil

Enquanto isso, nos bastidores políticos de um ano eleitoral, a tensão vira munição. A viagem do pré-candidato à Presidência e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos EUA teve o objetivo claro de vender a ideia de que ele seria capaz de reconstruir a relação com Washington e tentar se desvincular da culpa pelo tarifaço. Do outro lado, o governo Lula martela a narrativa de que as retaliações são fruto do bolsonarismo, e a opinião pública tem comprado mais a versão petista. Segundo a pesquisa Quaest divulgada no mês passado, 47% dos brasileiros acreditam que Flávio pediu a Trump o tarifaço, contra apenas 35% que concordam com a versão do senador.

A reeleição de Lula, definitivamente, não seria o cenário preferencial para Washington. O atual presidente representa uma política externa muito mais autônoma, voltada aos Brics e à China, e favorável à ideia de um mundo multipolar. Não seria nenhuma surpresa se o governo Trump decidisse interferir de maneira mais contundente e aberta nas nossas eleições, promovendo, por exemplo, declarações falsas sobre fraude eleitoral — o exato modus operandi que ele insiste em manter sobre a sua própria derrota nas eleições americanas de 2020.

Contudo, o grande paradoxo da política externa de Trump atende pelo nome de China. Ao usar as tarifas e as sanções como principal instrumento de barganha política, os EUA correm o risco de produzir o efeito oposto ao desejado e empurrar o Brasil de vez para o colo de Pequim.

Trump e as sanções americanas ao Brasil

A decisão de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas muda profundamente o patamar jurídico desta relação Brasil-EUA. É uma medida controversa, visto que essas facções não possuem uma ideologia clara; a motivação delas é estritamente econômica, ligada ao lucro e ao controle de mercados ilícitos, o que exigiria instrumentos de combate ao crime comum, e não leis antiterrorismo. Na prática, isso abre caminho para sanções e amplia os riscos para cidadãos e empresas brasileiras.

O Itamaraty, diante de um governo que rompeu os padrões tradicionais e diplomáticos, tem acertado ao tratar a nossa soberania nacional como uma linha vermelha inegociável, puxando o debate para a esfera estritamente técnica. E a prova de que a técnica tem seu peso se deu na audiência recente sobre o fantasma de um novo tarifaço americano. Longe do espetáculo político, empresas como Tesla, Coca-Cola e Nestlé se uniram a setores brasileiros, como o do etanol, para alertar que punir o Brasil com tarifas também afetará consumidores americanos, reduzindo investimentos e empregos nos próprios Estados Unidos.

Assista ao Matinal desta quinta-feira (9/7) na íntegra:

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