Defesa da democracia virou refúgio de canalhas, diz senador Alessandro Vieira sobre Moraes
Vieira comenta a recente revelação da PF sobre a troca de mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, do STF, no dia da primeira prisão do banqueiro

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) comentou a gravidade das mensagens interceptadas pela Polícia Federal nos últimos desdobramentos do caso do Master, incluindo a troca de mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes. Vorcaro teria procurado o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) no mesmo dia em que foi preso pela primeira vez. Parte da resposta do ministro, segundo a PF, teria sido enviada em mensagens de visualização única, que desaparecem após a leitura, de modo que a troca não foi inteiramente exposta.
Em entrevista ao Matinal desta sexta-feira (6), Vieira criticou o uso de discursos institucionais para blindagem política. Para ele, a defesa da democracia virou o “último refúgio dos canalhas”.
“Um humorista americano dizia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. No Brasil, a defesa da democracia virou o último refúgio dos canalhas. Quando você não consegue explicar, alega que está sofrendo um ataque antidemocrático”, disse o senador.
Vieira, que é relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, que investiga, entra coisas, as fraudes financeiras do escândalo do Banco Master, espera uma “punição dura e transparente” no caso.
“O histórico do Brasil mostra que, quando há gente poderosa envolvida, é mais difícil e rara uma punição. É uma vergonha constatar que pessoas cedem à tentação do dinheiro em diversas esferas nos três poderes”, afirmou o parlamentar.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista ao Matinal ou veja em vídeo ao final do texto.
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Matinal: O senhor afirmou nas redes sociais que o caso escancara uma infiltração criminosa nas mais altas esferas. Causa surpresa saber que o banqueiro Daniel Vorcaro trocou mensagens com o ministro Alexandre de Moraes, contrariando o que o próprio ministro havia afirmado?
Alessandro Vieira: Não é surpresa, infelizmente. Existe uma relação lastreada num contrato de valor total de R$ 129 milhões, que seriam pagos ao escritório da família do ministro Alexandre. Não conseguimos identificar nenhuma contraprestação de serviço jurídico relevante pelo qual se pagava de R$ 3,6 a R$ 3,9 milhões por mês. Em contrapartida, agora há confirmações mais consistentes de que o ministro interagiu com diversas autoridades em benefício do Banco Master. São fatos gravíssimos que exigem uma atuação muito firme dos órgãos de controle, como o Senado.
Após a revelação dessas mensagens, o caminho é investigar também o ministro Alexandre de Moraes?
Estamos fazendo o levantamento desses dados e ainda hoje manifestaremos uma posição. O natural é avançar de forma organizada, passo a passo. Os fatos que estão surgindo ocorrem em um volume muito grande e são muito graves. O histórico do Brasil mostra que, quando há gente poderosa envolvida, é mais difícil e rara uma punição. É uma vergonha constatar que pessoas cedem à tentação do dinheiro em diversas esferas nos três poderes. Uma apuração dura e transparente se faz absolutamente necessária.
O ministro André Mendonça assumiu a relatoria após a saída de Dias Toffoli, que deixou o caso sob fortes críticas. Como o senhor avalia a condução de Mendonça e a notícia de que a Polícia Federal está preocupada com a segurança dele?
Qualquer pessoa que se dispõe a fazer um trabalho sério de combate ao crime no Brasil corre riscos. O ministro André Mendonça retomou um ritmo normal de trabalho, permitindo que a polícia atue e que as medidas sejam decididas pela Justiça com brevidade. A Polícia Federal está muito pressionada, pois alguns ministros do Supremo não têm pudor em pressionar autoridades para evitar que as apurações avancem. Acompanhamos a atuação de Dias Toffoli tomando decisões atípicas para dificultar a investigação, o que foi suspenso após a PF mandar um relatório detalhando o relacionamento dele com investigados.
Como o senhor enxerga a justificativa de alguns ministros que, ao serem cobrados pela imprensa sobre a relação com o Banco Master, alegam ser vítimas de ataques ao STF?
Um humorista americano dizia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. No Brasil, a defesa da democracia virou o último refúgio dos canalhas. Quando você não consegue explicar, alega que está sofrendo um ataque antidemocrático. Ninguém está atacando o Supremo. Quem ataca o Supremo são integrantes da Corte que não guardam o decoro da magistratura e não respeitam a legislação. Pode-se criar a narrativa defensiva que quiser, mas agora a perícia começa a trazer dados, e nada supera a realidade de transferências milionárias de investigados para ministros e suas famílias.

Existem dois caminhos para investigar um ministro: via PGR e STF ou via Senado. Como o senhor avalia esses cenários para a abertura de um inquérito?
Existem caminhos e estratégias viáveis, mas não vou antecipar, pois é uma batalha complexa. Acabamos de impetrar recurso contra a decisão do ministro Gilmar Mendes, que sequestrou a relatoria do caso Master para barrar investigações, especificamente a quebra de sigilo da empresa de familiares do ministro Dias Toffoli. O que posso antecipar é que todas as ferramentas legítimas, democráticas e constitucionais serão utilizadas. Vamos até o fim forçando essa linha de impunidade que protege uma elite há décadas.
Assista à íntegra da entrevista de Alessandro Vieira ao Matinal: