Entrevista

A primeira CEO de uma mineradora no Brasil: da maternidade ao comando de equipes globais

Em entrevista ao Quem Lidera, Ana Cabral, CEO da Sigma Lithium, fala sobre o machismo na mineração, a maternidade e os desafios de comandar equipes globais

30/05/2026 às 06:00 · Atualizado há 4 meses
Ana Cabral, Ceo Sigma Lithium

CEO da Sigma Lithium, a economista Ana Cabral defende um modelo de liderança calcado na resiliência, no trabalho árduo, na adaptação e na construção de um legado socioeconômico. Em entrevista ao Quem Lidera, videocast do Amado Mundo sobre liderança, a executiva abriu os bastidores de sua carreira profissional. 

Durante a conversa, ela detalhou como superou os preconceitos do mercado para transformar a Sigma Lithium em uma companhia que se tornou referência global na produção sustentável de lítio e explicou por que considera essencial usar sua posição para deixar um legado socioeconômico profundo na região do Vale do Jequitinhonha.

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Ao longo da conversa com os jornalistas Guilherme Amado, publisher do Amado Mundo, e Renata Betti, da Talent Academy, a executiva detalhou os percalços de sua trajetória profissional. Ela relembrou o início de carreira sob forte pressão em bancos de investimentos internacionais na década de 1990 e abordou abertamente os imensos desafios de ascender em um ambiente corporativo hegemonicamente masculino, enquanto conciliava a maternidade com a criação de um filho primogênito com paralisia cerebral.

“NA resiliência, eu vou te falar, eu sou top of the class. Porque é isso, assim, eu tenho um filho deficiente, quadriplégico, sou mãe solteira, criei três filhos, criei quatro filhos do ex-marido. Dei conta de tudo”, afirmou. 

Liderar na mineração exige diplomacia e investimento social

À frente de uma operação com mais de mil funcionários diretos e turnos ininterruptos para atender a demandas globais da Ásia à Europa, a CEO ressaltou que o lucro da operação não pode estar descolado do desenvolvimento regional. A Sigma Lithium investiu ativamente no Vale do Jequitinhonha, garantindo água potável, construindo escolas de turno integral e fomentando o microcrédito voltado às “viúvas do vale”, mulheres que alcançaram independência financeira e passaram a ser conhecidas como “donas de mim”. 

O Quem Lidera foi pensado pelo Amado Mundo em parceria com a Talent Academy, consultoria de gestão e desenvolvimento de talentos, para discutir o papel das lideranças diante das transformações do mercado contemporâneo. Quinzenalmente, o programa recebe CEOs e executivos de grandes empresas brasileiras para conversar sobre tomada de decisão, cultura corporativa, inovação e os desafios de gerir equipes em cenários de pressão constante.

Leia a seguir os principais trechos da conversa. E confira a íntegra em vídeo ao final do texto.

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GUILHERME AMADO: Nesse tema de liderança, há um segredo central que é lidar com gente. Você se considera uma pessoa que sempre teve aptidão para lidar com pessoas ou desenvolveu esse talento ao longo da vida?

Você desenvolve. Eu acho que isso é interessante porque você se desenvolve à medida que você começa a liderar times maiores. Quando você entra numa firma, você está lidando com pessoas de habilidades distintas, de níveis distintos, de backgrounds distintos, de perfis educacionais distintos. Hoje eu tenho desde o cara que é o operador de máquinas da planta, que veio do Bananal e que a gente treinou, até a chefe do laboratório que é uma engenheira química de primeiríssima linha, que a gente tirou de Londres. Como é que você coloca todos eles para marcharem na mesma direção? É uma combinação de propósito, de todos virarem sócios, é uma combinação de vários elementos e você liderar pelo exemplo. 

RENATA BETTI: Com toda a sua experiência em várias regiões do mundo, em algum momento você sentiu que julgaram ou colocaram em xeque a sua capacidade no trabalho por ser mulher?

O grande elemento foi a mina, que a gente chama de a última catedral. Na planta, ficou muito claro que eu dava conta do recado, porque eu fiz engenharia da computação. Mas a mina, não. “O que essa mulher vai fazer nessa mina?”, pensavam. Lá de fora era descrédito total, ficavam questionando: “What is she doing here?”. Até que viram que a gente consegue dar conta do recado. Fomos reconhecidos como mineradora do ano pelo Canadá.

RENATA BETTI: Você teve que emular o jeito masculino de liderar para se sentir ouvida ou respeitada no ambiente corporativo?

No meu tempo de banco de investimento, na década de 90, não tinha solução. Eu usava umas roupas mais “senhora”, era metida a boss, porque era o único jeito de me respeitarem. Cheguei em Carajás com 26 anos de idade, vestida de tailleur de boss, porque eu não falava a minha idade. Mas, para você ser bem-sucedida como líder, você não pode ser o tipo A. Todos os homens líderes são alfa male, são os A-types. Se você for alfa male, você vai se dar mal, não é para bater de frente. O tipo correto é o tipo O. Os traços de personalidade são as personalidades diplomáticas. Você vai navegar na diplomacia, no ganha-ganha, que são características femininas. A gente não tem ego para falar “eu ganhei o jogo”, nós anunciamos: “nós ganhamos”. 

RENATA BETTI: O que você teve que abrir mão para de fato conseguir chegar onde chegou, considerando a exigência da maternidade e a sua carreira?

A vida tem que ter escolhas. Eu abro mão da minha vida social. Eu não tenho vida social, e meu grupo de amigas é muito fechado, porque eu tenho um tempo limitado. Eu escolhi cuidar da empresa, viajar, mas, quando saio do trabalho, janto com meus filhos e fico com eles nos fins de semana, que é a maneira de transmitir valores. Quando eu cheguei em Londres, a vida era caríssima, e uma pessoa sênior me ensinou: investimento em cuidar de criança é CAPEX, é investimento de capital na sua profissão, não é OPEX. O dinheiro gasto com babá ou enfermeira no início da carreira é a construção do seu caminho. No Brasil isso é ainda mais viável porque, por incrível que pareça, o nosso país tem uma rede de apoio e auxílio familiar incrível que não existe fora.

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