Pilar del Río: ‘Trump, Salazar e Franco são unidos por postura patética’
Em entrevista ao Lisboa Connection, a escritora e presidente da Fundação José Saramago analisa o extremismo, o feminismo e o futuro

“Todos os três, Salazar, Franco e Trump, são patéticos”. É com essa afirmação que a jornalista, escritora espanhola e presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río, define o atual momento político global e suas raízes autoritárias.
Entrevistada no programa Lisboa Connection, do canal Amado Mundo, ela analisou a ascensão da ultradireita e as peculiaridades de seus líderes. Enquanto, para ela, o ditador português António de Oliveira Salazar era um homem sério e consciente de sua suposta sabedoria, e o espanhol Francisco Franco agia movido por insegurança e vingança pessoal, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é visto por ela apenas como um “apresentador muito ruim de televisão”.
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“Absolutamente patéticos os três, nisso se parecem. Mas Franco e Salazar nunca se pentearam de cenoura”, ironizou.
Confira os trechos mais importantes da entrevista:
Qual a similaridade que eventualmente teria Trump com esses dois personagens, Salazar e Franco?
Todos os três, Salazar, Franco e Trump, são patéticos, mas são diferentes. Salazar era um homem sério, era professor, tinha consciência da sua suposta sabedoria. Franco era um homem baixinho, muito inseguro. Ele governava e tinha uma ambição desmedida porque tinha sido ignorado. O caso de Trump é o de um apresentador muito ruim de televisão. Não tem dignidade. Absolutamente patéticos os três, nisso se parecem, mas Franco e Salazar nunca se pentearam de cenoura.
Muitos dos direitos conquistados voltam a estar postos em causa no mundo. Como a senhora olha para este caminho que foi feito?
É uma inoculação. Em vez de dizer que alegria pelas mulheres terem saído do estado de escravidão, ou semiescravidão, induziram em parte da sociedade, especialmente nos jovens, o medo. Induziram o pensamento de “cuidado que elas estão vindo tirar vocês do poder”. Neste momento, o feminismo é a maior corrente de progresso que há no mundo. E imediatamente é preciso ir contra o feminismo com argumentos que são banais, que idiotizam, mas que são usados porque funcionam para assustar as pessoas, para que haja um movimento de homens contra as mulheres.
A senhora trouxe o livro “Ensaio sobre a cegueira” com um significado especial. Por que o escolheu para definir o momento atual?
Penso que neste momento que estamos vivendo, a nível mundial, somos cegos que, vendo, não vemos como é que isto é possível. Como é possível que, perante os nossos olhos, se esteja desenhando o abismo. Como é possível que, em países que precisam de dinheiro para a educação e a saúde, se aprovem somas extraordinárias para comprar armas? Para todos nós, estou propondo uma revolução e uma resposta cidadã da risada, da alegria. Cada vez que eles digam absurdos, que milhões de cidadãos gargalhem. Eles estão profundamente incomodados com a alegria, e nós precisamos ser alegres para poder derrotá-los.
Assista à entrevista na íntegra: