CEO da TotalPass diz que repara no caráter do candidato em entrevistas de emprego
Felipe Calbucci, CEO da Totalpass, aborda desafios de gerenciar a média liderança e enfrentar a lógica que costuma punir mulheres por circunstâncias familiares

Nascida a partir do grupo Smart Fit, a TotalPass consolidou-se como uma das maiores plataformas de bem-estar corporativo do Brasil, ao juntar tecnologia ao incentivo à atividade física e à saúde integral de milhares de trabalhadores. Nos últimos anos, a marca obteve a prestigiada conquista do selo Top of Mind, uma certificação de marketing concedida a marcas que ocupam a primeira posição na lembrança espontânea do consumidor dentro de um setor específico.
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Totalpass é a primeira experiência de CEO de Calbucci
No programa Quem Lidera, Felipe Calbucci, CEO da TotalPass, discute o papel fundamental da alta liderança em desmistificar barreiras invisíveis de gênero, o estresse acumulado na média gerência e a importância de promover um ambiente genuinamente voltado para a saúde e bem-estar dos executivos. Calbucci também conta que repara nas atitudes que podem entregar o caráter do entrevistado, como educação com um garçom, por exemplo, em uma entrevista de emprego.
O programa Quem Lidera, do Amado Mundo em parceria com a Talent Academy — consultoria de gestão e desenvolvimento de talentos —, debate quinzenalmente o papel de lideranças em cenários de pressão e transformações aceleradas. O videocast recebe CEOs e executivos das maiores empresas brasileiras para debater cultura, tomada de decisão e bem-estar corporativo.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista e assista à conversa completa ao final.
Como você identifica as pessoas no seu time, ainda mais numa empresa grande que tem sei lá quantos colaboradores?
Então, a primeira coisa é, eu foco muito no que eu acho que eu sou bom: eu sou bom em identificar a índole da pessoa. Eu sou bom em identificar uma coisa que eu deixo meio intangível, que é se ela tem bom coração. Eu gosto de fazer entrevista e sair andando com a pessoa na Avenida Paulista, que é onde é o nosso escritório, e ir almoçar. No almoço, eu reparo como é que a pessoa interagiu com o garçom, como é que a pessoa interagiu com todo mundo no caminho, se atravessou a faixa ou não atravessou. Eu tento reparar: “Cara, essa é uma pessoa do bem, que é muito bem intencionada”.
Como foi a trajetória de crescimento da TotalPass e como a marca se consolidou no mercado?
Há cerca de três anos e meio, a TotalPass era uma marca pouco conhecida pelo grande público. Quem estava conosco naquele início precisava explicar, em encontros casuais ou churrascos de fim de semana, o que de fato fazíamos e nossa relação com a rede Smart Fit. Hoje, o cenário mudou completamente: crescemos de forma exponencial, conquistamos o prêmio Top of Mind e o público passou a reconhecer e desejar a nossa marca. Esse crescimento é reflexo do esforço de profissionais brilhantes que estruturam a nossa operação e consolidam o nosso propósito de levar saúde e qualidade de vida para dentro das empresas.
Você mencionou a história de Renata, que recentemente foi promovida a diretora de marketing. Como foi esse processo de desenvolvimento dela na empresa?
A Renata é um caso fantástico e que me dá muito orgulho. Ela está conosco há três anos e meio e foi a responsável por toda essa consolidação de marca que mencionei. Em um intervalo de dois anos e meio, ela recebeu duas promoções. A primeira ocorreu justamente na mesma semana em que ela estava passando por um divórcio. Quando a chamei para anunciar a promoção, ela ficou surpresa e me questionou: “Mas eu acabei de me separar”. Ela confessou que esperava o oposto de uma promoção; acreditava que eu veria sua situação pessoal como um empecilho, assumindo que, com dois filhos e um divórcio recente, seria difícil demais conciliar e organizar a sua vida para assumir uma nova responsabilidade.
Minha resposta foi direta: “E daí? Você faz um trabalho extraordinário e eu preciso do seu talento para liderar nossos novos desafios, inclusive assumindo a operação no México”. Brinquei com ela dizendo que, sem o marido, ela nem precisaria convencer ninguém a se mudar para o México e poderia tomar suas decisões de forma 100% autônoma. Um ano e meio após esse episódio, ela entregou resultados tão excepcionais que foi promovida novamente, tornando-se nossa diretora de Marketing. É a prova empírica de que apoiar as pessoas em momentos de transição pessoal traz retornos extraordinários para o negócio.
Infelizmente, gestos como esse ainda são raros no ambiente corporativo. Você se considera uma exceção nesse sentido?
Eu fui aprendendo com o tempo. Não quer dizer que eu seja melhor do que ninguém, mas é um processo contínuo de aprendizado. Minha esposa, inclusive, desempenha um papel fundamental em me orientar nessas questões — embora ela brinque que eu ainda esteja a anos-luz de aprender tudo o que preciso, e ela tem toda razão. Mas sim, infelizmente, creio que ainda sou uma exceção ao promover mulheres que estão grávidas, passando por um divórcio ou enfrentando momentos de forte impacto pessoal.
O mercado de forma geral costuma ver essas transições de forma preconceituosa, assumindo que a performance da profissional irá cair, quando o que ela mais precisa naquele momento é de estabilidade, confiança e reconhecimento.
A saúde mental é um dos temas mais urgentes no ecossistema corporativo atualmente. Uma pesquisa recente citada no programa revela que apenas 23% dos executivos de alta gestão se consideram saudáveis, e quase 70% das mulheres em cargos de liderança já sofreram de burnout. Como você analisa esse cenário?
É um problema real e profundo, que exige ações concretas. No caso específico das mulheres, há uma sobrecarga histórica. Mesmo quando tentamos equilibrar e dividir as tarefas domésticas e familiares, sabemos que, na prática, a responsabilidade e o peso mental sobre as mulheres continuam sendo muito maiores dentro e fora do escritório. Elas acumulam a carreira, a gestão do lar e o cuidado com os filhos, o que explica essa taxa alarmante de quase 70% de esgotamento.
Além disso, temos a questão da média gerência, que frequentemente se vê achatada. Ela fica sob pressão constante: precisa traduzir as metas e diretrizes do C-level para motivar as equipes na linha de frente, mas raramente recebe direcionamentos claros ou o suporte necessário de cima. Essa falta de clareza e o estresse contínuo elevam as taxas de esgotamento de forma absurda.
O que a alta liderança e empresas especializadas em bem-estar, como a TotalPass, podem fazer para mitigar esse estresse corporativo?
Em primeiro lugar, a alta liderança precisa se comunicar melhor com a média liderança: ouvir de verdade o que esses gerentes têm a dizer, fornecer clareza estratégica e retroalimentar o sistema para aliviar a pressão operacional. Conforme se sobe na hierarquia, fica um pouco mais fácil estruturar a vida pessoal por conta de remunerações maiores, mas a média gerência ainda não possui esse poder aquisitivo para delegar tarefas em casa e acaba tentando abraçar o mundo.
Em segundo lugar, as empresas precisam incentivar a saúde no dia a dia. Na TotalPass, fazemos disso o nosso propósito e a nossa rotina. Nós incentivamos, por exemplo, que os gestores levem suas equipes para treinar juntas durante o expediente. Não é algo que deve paralisar o trabalho todos os dias, mas sim um hábito planejado. Queremos ressignificar os momentos de integração de equipe (os chamados offsites): em vez de encontros focados exclusivamente em churrasco e consumo excessivo de álcool — que podem sim existir, não há problema nisso —, passamos a inserir o esporte, a atividade física e momentos de genuíno bem-estar no centro da integração.
Praticar esporte em equipe cria vínculos mais fortes, reduz o estresse e melhora o clima organizacional de forma impressionante.