Entrevista

Racismo continua, mesmo com o sucesso profissional, diz advogado Irapuã Santana

Um dos principais profissionais de sua geração e voz ativa no combate ao racismo, Irapuã Santana analisa o apagamento histórico de juristas negros no Brasil e os desafios de ocupar espaços na elite do Judiciário

Publicado em 14/06/2026 às 06:00
Racismo
O advogado Irapuã Santana (Foto: Divulgação)

Advogado, escritor, colunista e ex-assessor de ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Irapuã Santana ocupa lugares que, no Brasil, ainda são raros para pessoas negras. Em entrevista ao Papo Amado, programa de entrevistas do canal Amado Mundo, Santana detalhou sua trajetória desde o subúrbio carioca até as mais altas cortes do Judiciário brasileiro, refletindo sobre como o racismo se manifesta mesmo quando o sucesso profissional é alcançado. 

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Episódios de racismo em ambientes de elite

Ele, que faz parte da primeira turma de cotistas da história da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), discutiu temas que vão da espiritualidade de matriz africana à solidão do homem negro na sociedade.

“A nossa cor chega primeiro do que a roupa”, afirmou ao narrar episódios em que foi confundido com segurança ou entregador em ambientes de elite. 

A seguir, os principais trechos da entrevista: 

Você classifica o 13 de maio como uma das maiores “fake news” da história. Por quê?

Quando aprendemos na escola, parece uma escadinha feliz: leis do Ventre Livre, dos Sexagenários e a Áurea. Mas a realidade legislativa mostra que o Estado criava mecanismos para indenizar senhores e manter o controle sobre os negros. Na Lei do Ventre Livre, a criança tinha um valor agregado e o senhor decidia se ficava com ela ou a entregava ao Estado mediante indenização. Na dos Sexagenários, a expectativa de vida era de 32 anos; quem chegava aos 60? O 13 de maio foi uma conquista de um movimento social negro imenso, mas a narrativa da “heroína redentora” apaga essa luta. 

Quem foi Luiz Gama e por que ele é central na sua visão de mundo?

Para mim, Luiz Gama é o maior brasileiro de todos os tempos. Ele foi vendido pelo próprio pai aos 10 anos, conseguiu a alforria aos 18 e, mesmo sem formação formal por ser negro, libertou mais de 500 pessoas judicialmente. Ele tinha uma noção de liberdade e autorresponsabilidade impressionantes; dizia que um negro tinha “o direito de ser infeliz onde quer que queira”. Se fosse nos EUA, ele teria séries e filmes épicos. Aqui, ele foi apagado por muito tempo. 

Você fala muito sobre o “teste do pescoço”. Como ele funciona no seu dia a dia?

Diferente da solidão da mulher negra, que é muito pautada pelo afeto, a nossa é ligada à impossibilidade de ser vulnerável. Somos lidos como violentos ou puramente atléticos; não nos é permitido falhar. Existe uma pressão constante para provar capacidade intelectual e policiar gestos — falar baixo, não usar gírias em certos contextos, estar sempre alinhado. O medo de escorregar e voltar à estaca zero é constante. 

Assista à entrevista na íntegra:

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