Entrevista

Auge da exploração amazônica foi durante regime militar, afirma escritor

Para amazonense Milton Hatoum, decadência e progresso são faces da mesma moeda quando se fala em industrialização no Amazonas. Veja episódio de 'Notas de Rodapé'

17/06/2026 às 16:59 · Atualizado há 2 meses
Milton Hatoum conta como Ditadura Militar marca auge da exploração da floresta amazônica. (Amado Mundo)

O projeto de exploração da floresta amazônica não é atual — atravessa parte da história brasileira e se sustenta, ainda hoje, em discursos que pautam avanço econômico acima da preservação ambiental e da vida das milhões de espécies que habitam o local. 

O escritor amazonense Milton Hatoum relembrou em entrevista ao programa Notas de Rodapé que, embora a Amazônia tenha passado por outros ciclos de exploração — como o da borracha, no fim do século 19, e o projeto da Fordlândia, nos anos 1930 —, a devastação em larga escala ganhou força mesmo durante a ditadura militar, instaurada em 1964.

O autor testemunhou parte do desmatamento enquanto viajava de carro de Curitiba até Manaus, em 1977.

“A entrada das primeiras fazendas de soja e gado data do auge da ditadura que é a década de 70, quando também houve também matança de indígenas que muitas vezes a gente esquece”, afirmou Hatoum.

Exploração e progresso

As transformações da Amazônia durante o regime militar aparecem como pano de fundo em parte da obra de Hatoum, especialmente nos romances “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte”. Neles, Manaus surge como retrato simultâneo de modernização e decadência.

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O autor relembrou que a Manaus de 1960 era uma cidade estagnada economicamente, pequena em termos populacionais, e com bairros pobres, mas longe de serem miseráveis. Contudo, segundo o escritor, foi a Zona Franca de Manaus, implementada por Castelo Branco em 1967, que revelou que “progresso e decadência são faces da mesma moeda”.

A chegada das indústrias transformaram a capital amazonense em um polo econômico, mas também aprofundaram desigualdades sociais e urbanas.

“Nesse sistema que a gente vive, de um capitalismo sem nenhum controle ambiental e nenhum investimento para diminuir a desigualdade, o progresso de Manaus é uma modernidade para poucos”, disse ao programa do Amado Mundo.

A seguir, alguns trechos da entrevista:

Você se vê criando uma ficção com esse cenário aterrador que a gente vê hoje?

O romance trata de dramas humanos, tragédias, conflitos, às vezes só conflitos internos, mas acho que o que tem acontecido na Amazônia, se a gente considerar essas últimas décadas, não houve um recuo, vamos dizer assim, efetivo. Isso não parou, mesmo nos governos democráticos anteriores. Houve um pouco de contenção dessa invasão da floresta, mas não houve um recuo efetivo.

Então eu acho que é preciso mesmo uma vontade política extraordinária de fiscalização e punição desses grileiros, dessas pessoas que estão devastando, desmatando, queimando. Dos mandantes, porque as pessoas são pobres, as pessoas que vão lá queimar são pessoas pobres, estão ganhando um dinheirinho para fazer esse trabalho. Quem está por trás disso? Essa é a questão.

Quando você conhece os meandros, uma hora você pensa: “esse barco já partiu”?

A gente não pode desistir. A gente não pode cair numa frustração total ou no imobilismo, porque é isso que o fascismo quer. O fascismo trabalha muito com a anulação do desejo, com a nossa pulsão, inclusive erótica, com a nossa alegria de viver. Eles querem acabar com isso. Eles pensam na morte, na destruição o tempo todo. Isso está acontecendo nos Estados Unidos, nos governos de extrema direita dos Estados Unidos e Israel.

Assista à entrevista completa:

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