Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

As contradições na política antidrogas dos EUA e o espetáculo público contra a Venezuela

Letícia Duarte avalia que deslocamento entre ameaça e negociação é o contraste entre uma retórica belicosa e diplomacia silenciosa.

01/12/2025 às 19:16 · Atualizado há 9 meses

A escalada da tensão entre Estados Unidos e Venezuela ganhou novos contornos no fim de semana. No sábado (29), Donald Trump anunciou que o espaço aéreo da Venezuela deveria ser “fechado em sua totalidade”, em um recado dirigido a companhias aéreas e “traficantes de drogas”, segundo ele.

Na foto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a bordo do Air Force na noite de domingo. Foto: Pete Marovich/Getty Images/AFP

A fala foi interpretada imediatamente como preparação para um ataque aéreo iminente, num momento em que forças americanas intensificam manobras militares no Caribe.

A resposta de Caracas veio no mesmo dia: o governo venezuelano classificou a medida como “uma ameaça colonialista” e acusou os EUA de violarem a soberania nacional. Na manhã deste domingo (30), dados de monitoramento civil mostravam a quase ausência de voos sobre a Venezuela, reforçando a sensação de isolamento e alimentando o clima de incerteza.

Mas a retórica de confronto não durou sozinha. Na noite do próprio domingo, Trump confirmou ter conversado por telefone com Nicolás Maduro, segundo informações do “New York Times”. Não houve detalhes sobre o teor do diálogo. O presidente americano desconversou ao ser questionado sobre a gravidade da crise e pediu para “não lerem nas entrelinhas”.

Esse deslocamento entre ameaça e negociação é o contraste entre uma retórica belicosa, operações militares e uma diplomacia silenciosa. O movimento sugere que Washington mantém dois trilhos simultâneos: um espetáculo público de pressão e uma cadeia discreta de contatos políticos.

O discurso antidrogas serve, nesse cenário, como justificativa para endurecer o tom com Maduro e vender a ideia de uma “guerra implacável” contra o narcotráfico. O problema é que os gestos do próprio governo Trump minam essa narrativa.

Perdão a ex-presidente de Honduras sela contradição americana

Menos de 24 horas antes do anúncio do fechamento do espaço aéreo, o presidente americano declarou a intenção de perdoar o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado em 2024 nos Estados Unidos a 45 anos de prisão por comandar um esquema que enviou mais de 500 toneladas de cocaína ao território americano.

Segundo testemunhas citadas pela Justiça, Hernández chegou a declarar que mandaria drogas “no nariz dos gringos, e eles nem vão perceber”. Ele também foi acusado de receber subornos de cartéis e de governar Honduras como um “narco-Estado”.

O anúncio do perdão provocou críticas dentro e fora dos EUA e acentuou a “política seletiva, incoerente e com objetivos geopolíticos”. Ao mesmo tempo em que acena com incursão militar contra Maduro em nome do combate ao narcotráfico, Washington sinaliza indulgência com um aliado político condenado por crimes de tráfico em larga escala.

A imprensa americana também destacou o pano de fundo energético dessa crise: fontes no governo admitem que o principal interesse estratégico dos EUA é o petróleo venezuelano, especialmente diante da reconfiguração global dos fluxos de combustível.

Por ora, apesar do clima de guerra, a avaliação é que um ataque imediato não está definido. As ações americanas funcionam mais como instrumento de pressão, testando limites de Maduro e avaliando ganhos diplomáticos e econômicos possíveis.

A ligação entre Trump e o presidente venezuelano reforça que Washington mantém abertos canais de negociação enquanto eleva a temperatura militar, um jogo duplo que marca a política externa dos EUA nesta crise.

A tensão continua alta, mas o fim de semana deixou claro que a disputa entre Caracas e Washington não se desenrola apenas no ar ou no mar, mas na incoerência do discurso, em decisões contraditórias e numa geopolítica onde petróleo, influência regional e cálculo eleitoral pesam tanto quanto a narrativa oficial da “guerra às drogas”.

Assista à análise completa de Letícia Duarte no “Matinal” desta segunda-feira (1°):

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