Entrevista

Maria João Costa: ‘É como se os portugueses tivessem se esquecido da própria história’

Vencedora do Emmy Internacional, Maria João Costa fala sobre 'Terra Forte', critica a xenofobia contra brasileiros e comenta sua relação com a dramaturgia do Brasil

Publicado em 28/06/2026 às 05:59
Maria João Costa
Maria João Costa em entrevista ao Lisboa Connection (Foto: Amado Mundo)

Em meio ao aumento dos episódios de xenofobia contra brasileiros em Portugal, a roteirista portuguesa Maria João Costa decidiu transformar essa tensão em um dos temas centrais de “Terra forte”. A autora afirma que a nova novela nasceu também como um lembrete da ligação histórica entre os dois países. “É um pouco bizarro que haja esse movimento contra brasileiros. É como se os portugueses tivessem esquecido da sua própria história”, disse em entrevista ao Lisboa Connection, videocast do Amado Mundo

Com a proposta de ser uma narrativa que cruza o Atlântico, “Terra forte” estreou na TVI, um dos principais canais portugueses, em 2025. A novela acompanha uma comunidade de descendentes de açorianos radicada em Florianópolis e mistura a história da imigração portuguesa com uma trama envolvendo uma poderosa indústria pesqueira. A produção foi gravada entre os Açores e o litoral catarinense, teve em seu elenco 68 atores brasileiros e direção do brasileiro Edgard Miranda. 

Vencedora do Emmy Internacional por “Ouro verde”, sua primeira novela, Maria João Costa passou pelo jornalismo e pelo mercado editorial antes de se dedicar integralmente à dramaturgia. A autora, que tem como trama brasileira favorita a novela “Avenida Brasil”, contou na entrevista como a temporada vivida no país influenciou sua escrita e refletiu sobre diferenças culturais e a intensidade dramática de brasileiros e portugueses.

“O drama existe e é transversal. [Mas] o brasileiro por natureza tem uma alegria que o português não tem e isso é curioso”, verbo melhor que afirmou, disse contou

A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo no fim do texto. Na versão completa, Maria João Costa fala ainda sobre como português do Brasil está “fazendo o caminho inverso” e influenciando cada vez mais vocabulário em Portugal. 

Qual a conexão da novela “Terra forte” com o Brasil?

Quase todas as minhas novelas têm conexão com o Brasil. Esta é a quinta. “Terra forte” tem uma particularidade em relação às anteriores. Queria fazer uma história que retratasse a ligação dos Açores com Florianópolis. Há uma forte comunidade açoriana no Brasil e a cidade, aliás, foi fundada por eles.

E os atores eram todos portugueses?

Não. Tivemos 68 atores brasileiros. 

A sua vivência no Brasil é o Rio de Janeiro?

Vivi lá pela primeira vez em 2004. A minha base no Brasil sempre foi o Rio de Janeiro. Voltei em 2011, nessa época eu era editora de livros, para abrir os escritórios da Leya no Rio. Nós já tínhamos uma filial em São Paulo. O meu trabalho não era só no Rio, eu estava sempre circulando, tinha autores em todos os cantos do Brasil.

A maior comunidade de estrangeiros em Portugal é brasileira. Temos visto o aumento de atitudes xenófobas e você vem com “Terra forte”, que traz essa mistura Brasil-Portugal.

Queria lembrar aos portugueses que nós somos um país de tradição imigrante, justamente quando o país atravessa esse momento de tanta xenofobia, sobretudo com brasileiros. Nós somos povos irmãos. [Nós, portugueses, fomos] para lá tão cedo e, ainda por cima, cometemos tantas atrocidades. [É] um pouco bizarro que haja este movimento contra brasileiros. É como se os portugueses [tivessem] esquecido da sua própria história.

Qual a diferença entre escrever personagens brasileiros e portugueses?

Acho que somos parecidos, mas somos diferentes. Para mim, a maior dificuldade é sempre a gíria. Vocês têm umas expressões super engraçadas. Tenho um diretor brasileiro nessa novela, o Edgar Miranda, que teve muitos anos de Record e TV Globo. Ele é o rei das gírias brasileiras.

Autores e novelas brasileiras te influenciaram?

Quando não havia nada em Portugal, só havia novelas brasileiras. A primeira é Gabriela. Gosto muito do João Emanuel Carneiro e da Rosane Svartman. Me identifico com o que o João faz e também com o Gilberto Braga. A Rosane tem uma sensibilidade muito particular na escrita de novela. 

Como ganhar o Emmy Internacional por “Ouro verde” impactou a sua carreira?

Para mim foi um impacto grande. A minha primeira novela saiu com um Emmy, a chamada sorte de principiante. [Foi impactante] porque nunca tinha feito isso na vida. Tinha sido jornalista, depois editora e aí comecei a escrever. Já como titular. Não tinha trabalhado na equipe de ninguém. Havia quem achasse o canal louco por me contratar. 

Qual foi o estalo que te levou a escrever? 

[Quando era editora], muitas vezes os autores encravavam na história, paravam. Eu chegava: “ah, por que você não faz isso ou aquilo?”. Mas, nunca tinha pensado. Uma amiga, ela sim via muitas novelas e queria escrever, um dia chegou no meu gabinete e disse: “por que não fazemos uma novela?”. Começou como uma brincadeira. Claro, percebi que precisava estudar. Mesmo assim, foi rápido. Entre ter decidido que queria escrever e ter começado a ganhar dinheiro e a viver disso, demorei quatro anos. Aproveitei muito a minha temporada no Brasil, de 2012 a 2016, para me aprofundar nos estudos. 

Como é o seu processo de escrita?

Fico enclausurada mesmo. Em “Terra forte”, foi pior ainda, porque o meu grupo me pediu para fazer uma minissérie para o streaming. Fiquei um pouco atrasada na novela. Entre setembro e fevereiro, estive basicamente fechada em casa. A novela é um formato difícil, longo, e nenhuma história precisa de tantos episódios para ser contada, mas você tenta sempre trazer algo novo. É o grande desafio da novela. A diferença de um autor de literatura para um autor de TV são os prazos de entrega. Você é muito mais pressionado para escrever.

Gravações de “Terra forte” em Florianópolis (SC) (Foto: Reprodução)

O que um brasileiro em Portugal aprenderia das características do português vendo uma novela portuguesa?

Nós somos dramáticos. Temos a herança do Fado. Por acaso, as novelas brasileiras ultimamente estão bem dramáticas. O drama existe e é transversal. [Mas,] o brasileiro por natureza tem uma alegria que o português não tem e isso é curioso.

E o cinema brasileiro?

Recentemente, vi um da Fernanda Montenegro que adorei, “Vitória”. Muito fofo, achei uma delicadeza essa história. Gostei muito de “Ainda estou aqui”, até vi no Brasil e percebo a razão de existir do filme, que traz uma história que precisa ser lembrada, mas, pessoalmente gostei mais daquela loucura de “O agente secreto”.

A inteligência artificial é um recurso?

A inteligência artificial não está tão desenvolvida. Ela não consegue processar aquela informação toda da novela. Uso mais para ver a semelhança em situações como: [o personagem] vai fazer uma operação ao coração. Como é que seria isso na sala de cirurgia? Procuro ajuda em coisas mais específicas. Para pesquisa é mais rápido.

Qual a sua novela brasileira preferida?

“Avenida Brasil”, sempre. “Vale tudo”, a original. e “Beleza fatal”, do Raphael Montes. 

Assista à entrevista completa com Maria João Costa:

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