Como narrar crises? Brasil de Histórias debate cobertura da pandemia e do governo Bolsonaro
No programa Brasil de Histórias, trio debate sobre as recentes crises que afetaram o país e a importância dos registros para o futuro

Como transformar acontecimentos traumáticos para o país em narrativas capazes de produzir compreensão, memória e reflexão? A documentarista Dandara Ferreira, o jornalista Guilherme Amado e o ensaísta João Cezar de Castro Rocha debateram o tema no programa Brasil de Histórias, produzido pelo Amado Mundo em parceria com a Janela Livraria e a mapa lab. Sob a mediação da jornalista Beatriz Bulla, a conversa, gravada durante a Flip, discutiu crises que eclodiram em decorrência da pandemia da Covid-19 e das ações do governo liderado por Jair Bolsonaro.
Dandara é diretora do documentário “Anatomia do Caos”, que foi exibido ao público durante a Flip. A documentarista comentou sobre os desafios de se construir uma obra complexa, que retratou detalhes do que acontecia no país no momento em que a pandemia fazia milhares de vítimas diariamente — foram 716 mil mortes causadas pelo vírus, segundo dados do Ministério da Saúde.
“O documentário não é para rememorar as dores. É muito mais sobre memória e justiça, não é só sobre a pandemia. A memória é uma das coisas mais importantes para que possamos cuidar da nossa democracia. Nós, como sociedade, se não cuidamos da nossa memória, teremos uma grande possibilidade de repetir os erros do passado”.
A autora também falou sobre o sentimento de revolta ao acompanhar a movimentação política no Senado Federal no período de crise. Questionada sobre possíveis referências ao filme “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha, Dandara afirmou que não usou o longa-metragem como inspiração, e nem sentiu o desejo de narrar o filme. “Cheguei a fazer esse teste, mas isso sempre me incomodou”.
“O documentário não é somente pensado para o presente. É um documento histórico também para quem quiser entender essa história. São muitos personagens, temas e fatos que ocorreram. A gente precisava de ter mais clareza de algumas informações para que a história seja compreendida. […] Eu fui para o lado da imprensa. Quem narra o meu filme não é uma voz, mas sim várias. É a imprensa que narra, pois teve um papel muito importante durante a pandemia, de informar os dados sobre as mortes”.
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‘Democracia estava em risco’
A narração da crise também é feita pelo jornalista Guilherme Amado no livro “Sem máscara – o governo Bolsonaro e a aposta pelo caos”, lançado pela Companhia das Letras em 2022. “O Bolsonaro sempre precisou da crise para crescer. Ele viu na pandemia uma oportunidade de acelerar o golpe que ele sempre quis dar”, afirmou o fundador e publisher do Amado Mundo.
“A primeira coisa a se fazer para narrar uma crise é usar as palavras certas. […] Em março de 2019, eu recebi um puxão de orelhas de uma pessoa do Grupo Globo. ‘Guilherme, você é colunista do grupo, você não pode falar que o presidente quer dar um golpe’, foi o que me disseram. Eu respondi: ‘Estou escrevendo que ele quer dar um golpe para tentar avisar as pessoas, e eu conseguir continuar escrevendo em 2022. Porque se ele conseguir dar o golpe, em 2022 eu não vou ter emprego. Vou estar fora do país, ou sei lá, vou estar morto’.”
Guilherme Amado também exaltou o trabalho de Dandara Ferreira, afirmando que “Anatomia do Caos” mostra muitas atitudes negadas atualmente pelo candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL). “Mostra o Flávio fazendo muita coisa que o pai faz e ele finge que não faz, como humilhar o repórter que está trabalhando e debochar dos mais de 700 mil mortos. Porque quando imita a gargalhada do pai, ele está debochando e fazendo a mesma coisa que o pai faz”.
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“O meu livro é dedicado aos jornalistas brasileiros. Ele organiza um esforço hercúleo que tivemos botando nossas vidas em risco para contar à sociedade o que estava acontecendo. A nossa democracia estava em risco. Era uma overdose de informações, de notícias, e o livro tenta dar uma organizada neste cenário. Ele foi lançado em maio de 2022, cinco meses antes das eleições”, concluiu Amado.
‘Não fizemos o trabalho de luto’
João Cezar de Castro Rocha também comentou sobre a força das crises que impactaram o país durante o governo de Jair Bolsonaro. Para o escritor do livro “Na era de Ricardo III”, lançado em julho deste ano pela Autêntica Editora, o documentário produzido por Dandara Ferreira deve circular o país para estimular o diálogo.
“A Covid-19 ainda não foi assimilada no Brasil. Não fizemos o trabalho do luto. Há pessoas que morreram um ano depois com uma dor que não conseguiram lidar. […] Para Manuel Bandeira, quando a ‘indesejada das gentes’, a morte, chegar, tudo estará resolvido, os livros terão sido escritos. Os poemas imortais serão sempre recordados, todas as memórias foram dispostas, o campo está lavrado, a casa está limpa, a mesa está posta com cada coisa em seu lugar. Quem de nós consegue isso?”.
A crise enfrentada pelo Brasil durante a pandemia merece reflexão profunda, segundo João Cezar de Castro Rocha, principalmente no que diz respeito aos erros cometidos. “É que nós somos, ainda hoje, reféns do caos cognitivo bolsonarista”.
“Mas e se o Bolsonaro tivesse respondido ao e-mail da Pfizer? O Brasil é o único país do mundo que tem capacidade, amanhã, se for o caso, de vacinar e imunizar milhões de pessoas ao dia. Na Inglaterra, como não existe nada semelhante ao SUS, eles precisaram mobilizar as forças armadas. Nos Estados Unidos era impossível. O que a Pfizer desejava era que o Brasil fosse uma vitrine mundial para a sua vacina. A empresa estava disposta a dar prioridade total e absoluta para que a vacina chegasse no Brasil. Nós teríamos tido, então, provavelmente algo em torno de 250, 300 mil mortos”, apontou o escritor.
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João Cezar de Castro Rocha analisou as eleições presidenciais de 2026 e diz acreditar em uma vitória de Lula (PT) no primeiro turno. “Flávio Bolsonaro é como a primeira palavra de Grande Sertão Veredas, obra que completa 70 anos: ‘Nonada’. Menos que nada, e que jamais será coisa alguma”, concluiu o ensaísta.