Geopolítica e bloqueio à China pesaram mais que petróleo, diz ex-presidente da Petrobras
Para Jean Paul Prates, Brasil não corre risco de sofrer intervenção semelhante por ter estabilidade institucional: 'Isso muda o jogo'

O ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates afirmou que a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos não teria como objetivo central ampliar a exploração e produção de petróleo dos EUA na Venezuela, mas, sim, reorganizar o jogo geopolítico da energia ao bloquear o acesso da China ao petróleo e aos minerais críticos.
“O petróleo da Venezuela não é essencial para os Estados Unidos hoje. O jogo não é produzir mais petróleo, é impedir que esse petróleo e esses minerais financiem a China”, disse em entrevista ao Matinal.
Segundo Prates, a Venezuela responde por menos de 1% da produção mundial de petróleo, e suas maiores reservas estão concentradas na Faixa do Orinoco, onde o óleo depende de altos investimentos e diluentes para ser explorado.
“Abaixo de US$ 60 o barril, a viabilidade econômica dessas reservas é extremamente questionável”, afirmou. Para ele, a operação americana é sobretudo uma demonstração de poder e um recado direto a Pequim, em meio às disputas por minerais estratégicos para a transição energética.

Prates disse que o Brasil não corre risco de sofrer intervenção semelhante, mas ponderou que pode se tornar um “backup seguro” de petróleo para a China.
“O Brasil tem óleo de boa qualidade, não é sancionado e tem estabilidade institucional. Isso muda o jogo”, afirmou.
Leia abaixo trechos da entrevista com Jean Paul Prates ao Matinal desta terça-feira (6):
Para começar, por que os Estados Unidos querem ou precisariam do petróleo da Venezuela?
Eu vou inverter completamente essa lógica. Não é o petróleo da Venezuela. Os Estados Unidos hoje são o maior produtor de petróleo do mundo, têm produção abundante de shale oil e uma rede de aliados muito bem posicionada para garantir suprimento. Essa ideia de que eles precisam do óleo pesado venezuelano para misturar com o petróleo americano simplesmente não se sustenta tecnicamente.
Então qual é o objetivo?
É uma demonstração de poder e um movimento geopolítico. Existe um componente político muito forte, ligado ao entorno do Donald Trump, especialmente à ala cubano-americana e venezuelano-americana da Flórida. E existe um componente estratégico maior: energia voltou a ser poder geopolítico, não só petróleo, mas também minerais críticos.
Você mencionou os minerais. Qual o peso disso nessa equação?
Enorme. A China domina cadeias de minerais críticos essenciais para digitalização e eletrificação. A Venezuela tem reservas importantes de coltan, bauxita, cassiterita, entre outros. Quando a China sinaliza que pode restringir o fornecimento de terras raras, os Estados Unidos respondem tentando controlar fontes alternativas e rotas de abastecimento. O jogo não é produzir mais petróleo, é impedir que esse petróleo e esses minerais financiem a China.
E por que o mercado de petróleo praticamente não reagiu?
Porque a Venezuela é irrelevante do ponto de vista da produção atual. Produz menos de 1% do petróleo mundial. As grandes reservas estão na Faixa do Orinoco, com óleo ultrapesado, que precisa de diluente, consome muita energia e só é viável com preços altos. Não é o petróleo que entra rápido no mercado.
A promessa de Trump de ressarcir empresas americanas por estatizações feitas no passado é realista?
Não diria que é uma balela, mas é um argumento frágil. As nacionalizações ocorreram em vários países nos anos 1960 e 1970, inclusive aliados históricos dos Estados Unidos. Os ativos expropriados naquela época não são comparáveis aos ativos atuais, que foram modernizados ao longo de décadas. Do ponto de vista jurídico e financeiro, é um caso difícil de sustentar.
O que os Estados Unidos devem fazer na Venezuela a partir de agora?
Eles vão tentar transformar a Venezuela num showcase, numa vitrine. Mostrar que essa intervenção “funcionou”, evitar caos social, estimular investimentos, recuperar parcialmente a indústria de petróleo e, principalmente, avançar na mineração crítica. Mas isso é um processo de um, dois anos. Não é imediato.
O Brasil corre algum risco nesse contexto?
Não. O Brasil é completamente diferente da Venezuela, do Iraque ou da Líbia. É um país estável, com instituições consolidadas, independência energética e respeito internacional. Não há nada a ganhar com uma ação contra o Brasil.
E qual deve ser a postura brasileira?
Condenar a ação pelo direito internacional, sem dúvida, mas exigir estar à mesa. A Venezuela faz fronteira com o Brasil. O Brasil precisa dizer: “não concordo com o que você fez, mas quero participar da discussão sobre o futuro da Venezuela”. Isso é firmeza, não agressividade.
A crise na Venezuela muda algo para a margem equatorial?
Ao contrário do que se diz, ela aumenta a relevância da margem equatorial. Se houver descoberta, é petróleo de boa qualidade, mais fácil de produzir do que o óleo pesado venezuelano. Atrai investimento americano, chinês e de outros países. E isso, inclusive, blinda o processo.
E para a Petrobras, há impacto?
Não vejo impacto negativo. A Petrobras pode até se beneficiar, sobretudo como parceira estratégica da China, que vai buscar fornecedores seguros. O Brasil tem petróleo de qualidade, novas reservas e não é sancionado. Isso nos coloca numa posição muito forte.
Assista à entrevista do ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates ao Matinal desta terça-feira (6):