A dança das pontinhas dos dedos: o que o Centrão quer ao se reaproximar de Lula
Aproximação de Hugo Motta e Davi Alcolumbre com o Planalto expõe um cálculo de sobrevivência política do Centrão

O encontro entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, na casa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes não pode ser lido isoladamente. O jantar foi articulado por Xandão justamente para promover uma reaproximação logo após o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, declarar apoio público à reeleição do petista. No centro dessa movimentação do Centrão está a lógica da expectativa de poder. Hoje, é Lula quem a detém.
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O favoritismo nas pesquisas, somado às fragilidades do próprio Flávio Bolsonaro — dos pedidos de dinheiro a Daniel Vorcaro, ao imóvel comprado em dinheiro vivo e à rachadinha —, torna a candidatura atrativa para as grandes lideranças do Centrão, mesmo que parlamentares de base sigam sem apoiar o candidato. É nesse contexto que ganha força a imagem das “pontinhas dos dedos” dadas a Lula, e não a mão inteira. Uma dança de salão, em que a leveza do contato permite a Congresso e Planalto se desprenderem quando a conjuntura exige e se reconectarem quando é conveniente. Um movimento repetido ao longo de todo o governo Lula na relação com Alcolumbre e Hugo Motta.
A reação da oposição ao jantar, em especial a crítica do senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, de que acordos políticos não deveriam ser fechados na “sala de jantar de um ministro do STF”, carrega mais incômodo político do que princípio. A régua de indignação não seria a mesma se o encontro fosse promovido por um ministro alinhado ao outro lado do espectro.
E há razões concretas para Alcolumbre calcular esse movimento com cuidado. O próprio bloqueio de pautas do governo já vinha desgastando sua relação com aliados dentro do Senado, reduzindo seu espaço de influência na Casa. Soma-se a isso a disputa pela reeleição à presidência do Senado em 2027, que também dependerá do apoio do Planalto (fator que ajuda a explicar por que esticar a corda com o governo além do episódio Messias deixou de fazer sentido estratégico).
Essa aproximação ganha outra camada de leitura à luz da convenção de Lula e do duro discurso do presidente em relação ao Congresso. No evento que oficializou sua candidatura ao lado do vice Geraldo Alckmin, o petista projetou um “quarto mandato porreta”, fez críticas ao uso de emendas parlamentares e à ingerência do Legislativo em nomeações para o Cade e o STF. O tensionamento anunciado por Lula às vésperas da eleição convive, paradoxalmente, com essa nova fase de composição com as lideranças do Congresso.
Não sobra Centrão para Flávio?
O impacto mais concreto da debandada do Centrão está na capacidade de mobilização de Flávio Bolsonaro. A ausência de partidos aliados robustos significa, na prática, menos prefeitos, deputados estaduais e lideranças locais fazendo o trabalho de formiguinha — comícios, eventos, divulgação de obras e conquistas nos municípios. Isso é especialmente sensível em um cenário eleitoral que tende a ser disputado voto a voto, com bolsonaristas e lulistas já bem definidos e a disputa concentrada sobre o eleitorado indeciso.
Há sinais de que o apoio a Lula no Nordeste pode não ser tão avassalador quanto em eleições anteriores, o que reforça a necessidade de compensação em estados do Sudeste, como São Paulo. E a tese de que menos tempo de TV seria irrelevante hoje não se sustenta sozinha. Mesmo reconhecendo que as redes sociais mudaram o jogo, é a ausência desse trabalho de formiguinha local que realmente vai fazer falta a Flávio.
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Ainda há um segundo público afetado pela debandada, o eleitorado preocupado com governabilidade, ligado à elite econômica de São Paulo, que preferiria uma candidatura de direita, mas enxerga em Flávio uma série de riscos somados à dúvida sobre sua capacidade de governar sem uma base parlamentar própria. Não conseguiu atrair nenhum partido para sua própria chapa. Até quem está com ele tem meio vergonha de estar.
Essa fragilidade se conecta diretamente à postura cautelosa de Lula em relação a sabatinas e debates. Num cenário de favoritismo, o presidente só tem a perder ao se expor a situações que possam gerar uma gafe capaz de tirar votos. Até o momento, a campanha teria sinalizado positivamente apenas para a sabatina da Record, sem confirmação para G1, GloboNews ou outras emissoras. Um silêncio estratégico que é parte do mesmo cálculo que orienta toda a movimentação recente do Planalto em direção ao Centrão.
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