‘IA trouxe camada complexa no combate à desinformação nas redes’, diz fundadora do Aos Fatos
Em entrevista ao Matinal, Tai Nalon analisou o trabalho do Laboratório de Investigação Eleitoral (LIE)

O Laboratório de Investigação Eleitoral (LIE), coalizão colaborativa de jornalismo da qual o Amado Mundo faz parte, foi criado para investigar e monitorar campanhas de desinformação nas eleições brasileiras de 2026. E a cobertura enfrenta novos desafios com o crescimento do uso da IA nas redes sociais. Tai Nalon, fundadora e diretora executiva do Aos Fatos, comentou sobre a questão em entrevista ao programa Matinal nesta sexta-feira (4/9).
“A inteligência artificial trouxe uma camada mais complexa para o combate à desinformação nas plataformas, principalmente no caso do TikTok. É uma plataforma muito fechada, hermética, e a gente não tem acesso em larga escala ao monitoramento e distribuição de conteúdo. Começamos a encontrar coisas dentro de recomendações em contas ainda zeradas, que não estão viciadas no algoritmo”, destacou a jornalista.
“São eleições quase incomparáveis no sentido da tração que a desinformação pode ter. Não só porque a gente tem a IA; a IA é uma tecnologia que traz ferramentas que aceleram a produção de qualquer tipo de informação, seja ela verdadeira, acurada, verificada, mas também aquela que é forjada, falsa, com a intenção de enganar explicitamente pessoas”, completou.
Alexandre Orrico, diretor do Núcleo Jornalismo, também participou da conversa com os jornalistas Guilherme Amado, Beatriz Bulla e Muka. “As plataformas estão menos transparentes e está muito difícil pescar conteúdo. A gente não consegue mais procurar por uma via automatizada, como a gente procurava antes. A gente precisa unir forças e olhares, porque, mais do que nunca, esta é uma coisa que a gente precisa filtrar pelo olhar humano”.
“As plataformas estão cada vez menos colaborativas com o trabalho jornalístico, dificultando a coleta de dados. É o que estou sentindo nesse começo de campanha antes das eleições. A gente volta para análise manual mesmo, com o olhar do jornalista. Tem sido importante, mas é um trabalho difícil”, comentou Orrico.
Receba no WhatsApp as melhores reportagens, programas e documentários do canal Amado Mundo. Inscreva-se!
Falsos criadores de conteúdo
Em reportagem divulgada em julho deste ano, o Aos Fatos confirmou a existência de mais de 100 perfis criando conteúdos falsos no TikTok. As publicações envolviam falsos eleitores, gerados por IA, prestando depoimento para falsos jornalistas em falsos programas de jornalismo dentro da plataforma.
“Eram recomendados conteúdos gerados por IA que não tinham uma identificação clara. Contas com conteúdo político gerado por inteligência artificial, que depois descobriríamos serem contas que criavam eleitores, apoiadores, em vários lados do espectro político”, detalhou Nalon.
Leia mais: Mendonça usou ‘método lavajatista’ ao expor mensagens de Moraes e Vorcaro, diz ministro do STF
“Os depoimentos dos eleitores gerados por IA diziam que eles votariam em candidatos X ou Y por causa de uma política X ou Y, seja política econômica do atual governo, ou o combate à suposta corrupção de determinado outro candidato. Isso adiciona várias camadas no desafio de combate à desinformação. Além de tratar da desinformação em si, existe a desinformação sobre como aquele conteúdo foi gerado. Não existiam avisos automatizados sobre o uso da IA, embora seja obrigatório em conteúdo eleitoral segundo as normas do TSE.”
Em resposta à reportagem, o TikTok removeu boa parte dos conteúdos gerados pelos perfis falsos. “As plataformas deixam rolar, e é preciso vir o jornalismo, bem-intencionado, tentando demonstrar para a população que isso é uma ameaça. Só assim as plataformas reagem. Estamos falando de uma centena de conteúdos em face à escala de milhões de conteúdos que são produzidos diariamente dentro dessas plataformas”, complementou a fundadora da plataforma de checagem.
Como combater a desinformação?
Existe um incentivo tecnológico à proliferação de desinformação, segundo a diretora executiva do Aos Fatos. “Não é que não existisse em 2022 ou 2018, mas essas ferramentas ficaram mais acessíveis nos últimos quatro anos. São tecnologias que se aperfeiçoaram e tornaram mais fácil a confecção dos conteúdos falsos”.
“Temos cada vez mais plataformas e mais formas de engajar com conteúdo nas redes sociais. Se a gente tinha em 2018 uma prevalência e uma capilaridade maior de Facebook e do Instagram, podemos afirmar que não era do tamanho do cenário que existe hoje. A gente tinha o Twitter operando de outra maneira, mas com timelines que eram muito mais cronológicas e menos algorítmicas. Agora, não se sabe muito bem como os algoritmos funcionam de plataforma para plataforma, e isso as torna menos previsíveis.”
Leia mais: Lula e vale-tudo entre Moraes e Mendonça ampliam pressão sobre Fachin
Para combater o problema, existem apenas iniciativas individuais de empresas de tecnologia, apontou Nalon. “As empresas criaram ferramentas, mas não com o objetivo de acabar com a desinformação. Elas apenas querem comprovar que não foram elas que desenvolveram as notícias falsas. Existem protocolos que indicam se um conteúdo foi gerado pelo ChatGPT, pelo Gemini ou pelo Claude. Porém, se a procedência for diferente, não é possível identificar como foi feito, por quem e com qual intenção”.