José Múcio: “Forças Armadas pertencem à Constituição, ao Estado”
Em entrevista ao Lisboa Connection, o ministro da Defesa defende que integrantes das Forças Armadas deixem a vida na caserna caso decidam se candidatar

Em entrevista ao Lisboa Connection, o ministro da Defesa, José Múcio, sustentou, ao falar do período logo após o insucesso da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, que os militares se convenceram de que precisavam zelar pela própria história. Ele afirmou esperar que a caserna não volte a se dividir com a polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Defendeu veto à permanência de integrantes das Forças Armadas nos quartéis em caso de candidaturas. E ressaltou que agora os condenados pelo 8/1 estão sob a égide do STM (Superior Tribunal Militar) para decisão sobre o futuro de suas patentes.
Leia mais: Naufraga no STF tentativa de ex-assessor de Bolsonaro de reverter condenação por golpe
Múcio reconheceu, na conversa com o jornalista Guilherme Amado e o economista Paulo Dalla Nora Macedo, que ficaram marcas e ressentimentos. Lembrou não ter tido sucesso quando mandou a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos Militares, que vetava volta à caserna de integrantes das Forças que decidam se candidatar a mandatos políticos. O ministro segue defendendo que “quem mexe com segurança não pode ser candidato”.
Mistura de política e Forças Armadas é problema
“Porque, quando ele perde a eleição, ele volta para o quartel com todas aquelas coisas do candidato, os proselitismos, os grupos de WhatsApp, as reuniões de sábado… e aí começa a macular a disciplina, a hierarquia, a defender os seus liderados junto aos comandantes para não serem transferidos, para não serem punidos”, analisou.
Ao falar sobre orçamento, o ministro avaliou em 12% da receita corrente líquida da União o índice que permitiria a execução de um bom programa de defesa nacional. Para o pernambucano Múcio, que foi eleito deputado federal por cinco mandatos, ano eleitoral é o pior período para tratar dessa questão, pois os políticos estão mais preocupados com a própria eleição.
Leia abaixo alguns trechos da entrevista:
Na sua visão, há uma chance de que a polarização entre lulismo e bolsonarismo volte a contaminar a caserna neste ano eleitoral?
Que cada um guarde o seu voto para si e torça isoladamente pelo que quer, mas a gente sempre tem que analisar o conjunto, principalmente as forças que têm que trabalhar por um objetivo comum. Se nós não somos fortes como merecíamos ou precisamos ser, nós não podemos, em momento nenhum, nos dispersarmos. A gente tem que eleger a nossa união para estabelecer o melhor resultado para as lutas que nós desejamos.
Leia mais: Datafolha: Lula abre vantagem após mensagens, mas Flávio Bolsonaro não implode
O Brasil deu uma lição ao mundo sobre como lidar com ameaças à democracia vindas da caserna?
Há uma diferença muito grande entre o sentimento do militar e o sentimento do político. O político vive de mandatos, quatro anos, às vezes oito, às vezes 12, são raros que vão para 16, não é assim? Pois bem, os militares, eles vivem juntos 50, 55 anos. Eles viram uma grande família e, quando há uma acusação a qualquer um deles, o primeiro sentimento é de constrangimento. É como se eu tivesse um irmão que fosse suspeito de cometer um crime. Mas depois vem o sentimento da indignação, quando verdadeiramente há a comprovação de que houve o delito, que houve a verdadeira ameaça.
Todos que foram condenados estão cumprindo pena, agora estão sob a égide do STM (Superior Tribunal Militar) para ver o que vai acontecer com suas patentes. Mas, graças a Deus, as coisas foram calmas e a gente conseguiu conversar e dizer que eles precisavam zelar pela história deles. Nós precisamos acabar com essa mácula que tem na América do Sul de que, a qualquer problema político, os militares são protagonistas. A gente tem que entender que as Forças Armadas de qualquer país pertencem à Constituição, ao Estado. Por isso que eu defendo que o militar não pode participar da política. É o militar que defende o Estado brasileiro. Seja lá quem esteja na Presidência da República
Do lado da caserna, o senhor acha que essas condenações fizeram com que essa lição fosse definitivamente apreendida?
Não vou dizer a você que não ficaram marcas, ressentimentos, evidentemente cada um tem o seu livre pensar. Uma coisa que eu não tive sucesso foi quando nós mandamos aquela PEC que militar não poderia ser candidato. Porque, quando ele perde a eleição, ele volta para o quartel com todas aquelas coisas do candidato, os proselitismos do político, os grupos de WhatsApp, as reuniões de sábado… e aí começa a macular a disciplina, a hierarquia, a defender os seus liderados junto aos comandantes para não serem transferidos, para não serem punidos. Mas isso não prosperou. Eu continuo insistindo: quem mexe com segurança não pode fazer política.
Considerando a realidade brasileira, qual o valor percentual do PIB que o senhor considera adequado para investimento em defesa?
Sempre faltará dinheiro para investir em projetos sociais. A gente precisa ter consciência que, para cuidar da saúde, não se pode cuidar só de dois ou três órgãos, pois você pode morrer de outro. Cuidar do coração, do fígado, do estômago, aí morre de uma fratura porque os seus ossos estavam fracos. É como um organismo, você tem que cuidar das várias partes. Eu acho que se nós tivéssemos aqui 12% da receita corrente líquida, nós teríamos um bom programa de defesa. O que nos falta é saber quanto temos para poder assumirmos compromisso de defesa de equipamento. Não adianta eu comprar e não pagar. Eu preciso saber, mesmo tendo pouco, que vou dispor para ter responsabilidade em adquirir.
Como o mandato do presidente está terminando, eu estou no meu último período aqui. Eu posso comprar tudo, porque quem vai pagar é o próximo. Mas ele, quando vier, vai encontrar o mesmo problema que eu encontrei, então a gente tem que ter responsabilidade como se fôssemos ficar aqui a vida toda, mas com a consciência tranquila de que podemos sair todo dia com o dever cumprido.
O ano eleitoral tem atuado como aliado dessa sua bandeira de previsibilidade orçamentária?
Esse é o pior ano para discutir isso. Está todo mundo discutindo seus mandatos, sua eleição. Nós conseguimos, graças ao presidente Lula, um dinheiro extra para botar nossas contas em dia, que estavam bem desmanteladas, e, para fazer novos investimentos, conseguimos aprovar R$ 30 bilhões fora do arcabouço fiscal. Isso foi um dinheiro na veia das Forças Armadas, de maneira que, pelo menos nesses próximos cinco anos, a gente está com uma posição melhor do que estávamos, melhor do que como eu encontrei.
Não seria possível pensar que, por ser um tema que requer compromisso de Estado, as eleições impulsionariam as candidaturas a se comprometer com ele?
Isso nós devemos ao Trump. Trump mexeu com a área que não devia, invadiu o terreno do outro. Então, está todo mundo começando a pensar em si, na dissuasão, que é não permitir que me invadam. Eu vou me armar, não é para invadir o Paraguai, é para permitir que o Paraguai não mexa com a minha integridade territorial, com a nossa hegemonia política, com o Uruguai, com a Argentina, com os nossos países. Então, já se fala em defesa. Agora, nesse último congresso do PT, já se falou em investir em defesa, mas sempre mexendo nos princípios da formação do soldado. Tem sempre um ‘viészinho’ ideológico que as forças às vezes não gostam.
Desde 2024, começamos todos os anos com a notícia de que o senhor vai deixar o ministério, mas acaba ficando por pedidos do presidente. Em caso de uma reeleição, o senhor pretende continuar chefiando a pasta?
Primeiro, eu vim sem querer vir. Eu vim porque sou amigo do presidente Lula. Devo a ele as oportunidades que tive em política, como líder de governo, como as muitas vezes que fui ministro, tudo pela mão dele. Pois bem, eu estou aqui até hoje. Fico sempre dizendo que vou sair. Se o presidente for reeleito, aí eu não tenho mais idade, não tem chance de eu aceitar mais um aninho. Mas estou satisfeito, ele me deu a oportunidade de trabalhar com as Forças Armadas e de conhecer o que a sociedade e a classe política não conhecem: o trabalho que as Forças Armadas prestam por esse país.
Assista à íntegra da entrevista do ministro da Defesa, José Múcio, ao Lisboa Connection: