Eleições 2026: o futuro da relação entre Lula e Trump e o fator Darren Beattie
Episódio da tentativa de vinda ao Brasil de assessor trumpista que pediu visita a Bolsonaro na prisão não é um bom sinal para as instituições democráticas brasileiras

Um novo capítulo dos recentes sinais de tentativas de interferência de Trump na política brasileira ganhou forma com o episódio da vinda ao país do conselheiro do Departamento de Estado americano para os assuntos do Brasil, Darren Beattie. O alegado objetivo da visita, que aconteceria nesta semana, era entender melhor o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro.
Quando a viagem foi anunciada, os advogados de Jair Bolsonaro pediram ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma autorização para que Beattie pudesse visitar o ex-presidente, preso na cadeia da Papudinha, em Brasília. O ministro Alexandre de Moraes autorizou, mas depois voltou atrás, questionando se o representante do governo americano estaria de fato em uma agenda diplomática oficial no Brasil ou se teria uma agenda secreta, com outros objetivos que não os anunciados na documentação submetida ao STF para pedir autorização à visitar ao Bolsonaro.
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Uma reportagem da Folha de S.Paulo revelou que o pedido da agenda diplomática só foi feito depois que a visita ao Bolsonaro já tinha sido solicitada. Até então, portanto, o conselheiro não havia pedido reunião com o Planalto, com o Itamaraty nem com o Tribunal Superior Eleitoral, o que aumentou as suspeitas sobre o objetivo real da viagem.
Diante disso, o chanceler Mauro Vieira declarou que a visita de funcionário de um governo estrangeiro a um ex-presidente preso, em ano eleitoral, poderia ser interpretada como uma interferência nos assuntos internos do Brasil.
Lula também informou, na sexta-feira, que Beattie só poderá vir ao Brasil quando os Estados Unidos liberarem o visto americano do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um dos ministros sancionados no ano passado por Trump, no contexto da pressão exercida ao governo brasileiro durante o julgamento do Bolsonaro.
O episódio acendeu alertas em Brasília não apenas pelo conteúdo e pelos interlocutores da visita, mas também pelo seu potencial de tensionar o possível encontro entre Lula e Trump, em abril.
Quem é Darren Beattie?
Beattie é um dos nomes da ala mais ideológica e mais agressiva do trumpismo. A história dele resume não apenas a tentativa de uma potencial interferência do governo Trump nas eleições brasileiras, mas também a guinada mais radical da gestão Trump 2.0.
Em 2018, Beattie foi demitido da Casa Branca e logo depois descobriu-se que ele tinha participado de um encontro com nacionalistas brancos dois anos antes. Na época, ele atuava como redator de discursos da Casa Branca, e a polêmica foi suficiente para a sua demissão.

Beattie também tem histórico de posts racistas em suas redes sociais. Em 2024, por exemplo, postou que “homens brancos competentes precisam estar no comando para que as coisas funcionem”. E também já defendeu abertamente replicar práticas de países autoritários — incluindo as do Partido Comunista Chinês — como ferramentas de controle da criminalidade, a exemplo de políticas de campos de prisão e trabalho forçado.
Mas essas polêmicas não impediram que ele voltasse mais “empoderado” para o segundo mandato de Trump, que tem sido marcado justamente por abraçar de forma mais explícita as visões extremistas, flertando com simbologia nazifascista até em posts dos canais oficiais da Casa Branca. No início da nova gestão de Trump, Beattie foi nomeado subsecretário interino da Diplomacia Pública e Assuntos Públicos dos Estados Unidos, área que justamente molda a mensagem dos Estados Unidos para o mundo. Depois, foi escolhido para comandar interinamente o Instituto da Paz dos EUA.
A percepção é que ele saiu das margens e, apesar de tudo, voltou para o centro da máquina. A tentativa da visita dele ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão, vem acompanhada de muitos significados, sobretudo se levarmos em conta o que ele defende. E terem destacado ele para conduzir essa função de relações com o Brasil não é um bom sinal para as instituições democráticas brasileiras.
Escalada de tensões
Ainda não dá para dizer que o episódio marca uma escalada aberta de retaliação, mas ele pode ser lido como sinal de uma relação em uma fase mais sensível — já naturalmente instável pelas diferenças ideológicas entre os governos Lula e Trump.
Nas últimas semanas, a tensão se expressou em movimentos como a possibilidade de os EUA classificarem o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas — o que pode abrir espaço para sanções e outras retaliações —, além da abertura de novas investigações comerciais e divergências em temas internacionais, como a guerra no Irã e ocupação americana na Venezuela. Tudo isso se soma como mais uma gota em um copo que já dá sinais de transbordamento.
Alguns analistas fazem uma ponderação de que esse movimento do Darren Beattie pode não representar necessariamente uma virada de 180 graus na relação entre Trump e Lula. É possível que, com o presidente americano ocupado com a guerra no Irã, seu núcleo mais ideológico esteja aproveitando a brecha para atuar com mais independência e tentar minar de vez essa tentativa de aproximação Brasil e EUA.
O que se sabe é que, com o governo Trump, tudo é sempre muito imprevisível. Não sabemos até que ponto isso é uma política de governo ou um núcleo tentando fazer um jogo político. É possível que ainda haja espaço para mais diálogo entre os presidentes para calibrar essa relação, mas, no momento, Trump está bem ocupado.
Parece uma guerra de poder interna, afinal um governo é feito de muitas alas, com interesses diferentes, e não é exatamente sempre um grupo coeso atuando em bloco.
Encontrar Trump neste momento é vantajoso para Lula?
Já vimos nas eleições de 2018 como alguns atores americanos tentaram trabalhar em sintonia com a família de Bolsonaro: o estrategista Steve Bannon foi uma figura central, tentando turbinar a extrema-direita no Brasil, diante da percepção de que o país é uma peça relevante para fortalecer a extrema-direita no continente. O histórico mostra que é possível que aconteça uma interferência mais direta. Os Estados Unidos, especialmente Trump, agem em defesa daquilo que acreditam ser melhor para eles, sem respeito algum pela democracia, inclusive dentro dos Estados Unidos.
E, de maneira geral, os EUA se comportam como uma potência com um histórico de interferir em eleições pelo mundo e pela América Latina.
No caso da reunião específica de Trump e Lula — com encontro previsto para abril —, o encontro só irá acontecer se a diplomacia conseguir garantir alguns pontos básicos de entendimento e um mínimo denominador comum, embora as distâncias estejam crescendo.
A decisão da Suprema Corte americana de declarar as tarifas ilegais deu até um respiro a Lula. Mas paira no ar uma questão: até que ponto é vantajoso para Lula encontrar Trump neste momento?
Lula pode correr riscos de encarar mais pressões dos EUA, como a imposição de mais condições para essa amizade, e uma possível designação do PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
Por outro lado, há outras questões a serem tratadas, como a Venezuela, o Irã e o Conselho de Paz, que agora é usado como instrumento belicoso.
Os dois acabam tentando jogar esse jogo e vendo até onde os interesses se encontram. Não é uma relação de confiança, mas de convivência — sob vigilância e desconfiança mútua.
No momento, o termômetro está mais para atrito do que aproximação, ainda que os dois presidentes tenham um canal aberto para diálogo. É preciso analisar o interesse dos dois neste contexto eleitoral e se será equilibrado, considerando que, para Lula, também há questionamentos sobre a mensagem que quer passar para os eleitores brasileiros.
Assista à íntegra do comentário de Letícia Duarte ao Matinal desta terça (17):