Entrevista

Crise na Venezuela não deve impactar eleições nos EUA e nem no Brasil, diz analista

Para Clifford Young, presidente da Ipsos, economia segue como principal fator de decisão nas urnas

07/01/2026 às 13:08 · Atualizado há 9 meses
Ativistas protestam em Pasadena, na Califórnia, contra ação de Trump na Venezuela (Foto de Frederic J. BROWN / AFP)

A crise na Venezuela e a ação dos Estados Unidos no país não devem ter impacto relevante sobre os resultados eleitorais, nem entre os eleitores americanos nem entre os brasileiros. A avaliação é de Clifford Young, presidente da Ipsos, nos EUA, que falou ao Matinal nesta quarta-feira (7).

Young comentou que as pesquisas recentes sobre a ação militar mostram que a opinião pública americana segue dividida e ainda pouco consolidada, e que o tema tende a perder força à medida que os eleitores voltem a priorizar questões domésticas.

“No longo prazo, o que vai importar é economia, custo de vida e a capacidade de pagar as contas no fim do mês”, afirmou.

Os americanos vão às urnas em novembro deste ano para as midterm elections, que ocorrem no meio do mandato presidencial, a cada quatro anos, para que os eleitores escolham deputados, parte dos senadores e, em muitos casos, governadores e outros cargos estaduais.

O analista explica que, embora a ofensiva na Venezuela possa ajudar o presidente Donald Trump a controlar a agenda no curto prazo, especialmente em meio à queda de popularidade e ao desgaste causado pelo caso Epstein, intervenções externas historicamente têm baixo retorno eleitoral nos Estados Unidos. A memória de conflitos prolongados, como no Afeganistão e no Iraque, também segue como referência negativa para o eleitorado.

Na avaliação de Young, o mesmo raciocínio vale para o Brasil. Apesar de a Venezuela mobilizar o debate político e ser frequentemente usada como símbolo ideológico, especialmente pela direita, o tema não aparece entre as principais preocupações do brasileiro médio. Segurança pública, corrupção e desigualdade social seguem no topo da agenda e tendem a pesar muito mais na decisão do voto.

O analista também comenta as dificuldades de medir a opinião pública em regimes autoritários, como o venezuelano, e afirma que indicadores indiretos, como confiança do consumidor, apontam para uma insatisfação generalizada da população com o governo de Nicolás Maduro. Ainda assim, esse cenário, segundo ele, tem pouco potencial de transbordar para disputas eleitorais fora do país.

Clifford Young, presidente da Ipsos

Leia abaixo trechos da entrevista de Young ao Matinal desta quarta-feira (7):

As pesquisas mostram os eleitores americanos divididos sobre a ação dos EUA na Venezuela. Para onde devemos olhar agora?

É muito cedo. Estamos falando de poucos dias depois do evento. A opinião pública ainda não está consolidada. O que vemos é um país dividido: um terço apoia, um terço é contra e um terço ainda está indeciso.

Há algum padrão mais claro nesses dados iniciais?

Sim. Todas as pesquisas mostram que o americano não gosta de intervenção militar neste momento. A memória das forever wars [eternas], como Afeganistão e Iraque, pesa muito negativamente.

Parte dos americanos acredita que a ação tem motivação econômica, ligada ao petróleo. Esse argumento pode ajudar Trump domesticamente?

Acho que essa foi uma das razões da ação. Trump vinha enfraquecido antes do Natal, com aprovação entre 41% e 43%, e enfrentava o escândalo Epstein dominando a agenda. A Venezuela ajudou a mudar o assunto no curto prazo.

Isso pode reverter a queda de popularidade?

No curto prazo, ajuda a controlar a agenda. No longo prazo, terá pouco impacto. As grandes ansiedades dos americanos são economia, custo de vida e saúde.

Outras possíveis ações externas podem ajudar Trump a manter essa agenda?

Não há grande apoio para aventuras como [controle da] Groenlândia, por exemplo. Isso pode ajudar a controlar a conversa na mídia por pouco tempo, mas não gera impacto eleitoral real.

E no Brasil, a crise venezuelana pode influenciar a opinião pública?

Muito pouco. A Venezuela pesa mais no discurso da elite política. Para o brasileiro médio, as prioridades são segurança pública, corrupção e desigualdade social.

É possível medir a opinião dos venezuelanos hoje?

Pesquisas políticas ficaram inviáveis por questões de segurança. Nesses casos, usamos indicadores indiretos, como confiança do consumidor, que está em níveis muito baixos, entre 20% e 30%. Isso indica forte insatisfação com o status quo.

O que isso revela sobre o governo Maduro?

Que, em condições normais, teria grande dificuldade de se manter no poder. A população está claramente disposta a mudança.

Assista à entrevista completa com o presidente da Ipsos no Matinal desta quarta-feira (7):

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