Nos 40 anos do ‘Sempre um Papo’, Afonso Borges relembra encontros que marcaram o projeto
Afonso Borges fala ao Papo Amado sobre bastidores de encontros históricos, a renovação da literatura brasileira e os desafios da ABL

Quando Afonso Borges criou o “Sempre um Papo”, em 1986, em Belo Horizonte, a proposta era simples: aproximar escritores e leitores por meio da conversa. Quatro décadas depois, o projeto se transformou em uma das mais longevas iniciativas de incentivo à leitura do país. Já promoveu mais de 9 mil encontros gratuitos em diferentes cidades brasileiras, recebeu milhares de autores, artistas, cientistas e pensadores e deu origem a festivais como a Fliparacatu, a FliAraxá, a Flitabira e a Flipetrópolis, além de ciclos permanentes em Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
A marca de 40 anos chega em um momento de expansão. Em 2025, o “Sempre um Papo” reuniu cerca de 100 mil pessoas em quatro estados, lançou projetos como o Palavra Justa, voltado às bibliotecas do sistema prisional, o Muros Invisíveis, dedicado ao afroempreendedorismo, e o Clube do Livro – Letramento Racial. Ao longo do ano, também consolidou iniciativas como o Sempre Um Papo — TCE Cultural, que aproximou literatura, pensamento crítico e temas da administração pública em encontros com nomes como Mia Couto, Ailton Krenak, Itamar Vieira Junior e Ana Maria Gonçalves.
Em 2026, as comemorações começaram com a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, que abriu a programação especial dos 40 anos lançando a edição ampliada de “Lugar de fala” (ed. Rosa dos Tempos) em um encontro gratuito no Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), em Belo Horizonte. O evento teve também a participação da escritora Conceição Evaristo.
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Nesta sexta-feira, em 31 de julho, será a vez da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia participar da programação para lançar os livros “Pela mão do povo: voto e democracia no Brasil” e “Princípio constitucional da solidariedade”. As celebrações seguem nos próximos meses com encontros que também receberão Bruna Lombardi, Rita Von Hunty e Cristovão Tezza.
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De Saramago a Vargas Llosa, as histórias do ‘Sempre um Papo’

Em entrevista ao Papo Amado, em setembro do ano passado, Afonso Borges revisitou alguns dos episódios mais emblemáticos vividos à frente do Sempre um Papo, como os encontros com José Saramago e Mario Vargas Llosa, e compartilhou a visão que orienta o projeto há quase quatro décadas. Ao longo da conversa, o jornalista e gestor cultural também comentou o momento da literatura brasileira, o papel dos festivais literários na formação de leitores e as transformações da Academia Brasileira de Letras.
Leia os principais trechos. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto.
São 40 anos de conversas históricas no Sempre um Papo. Se pudesse escolher a de que mais tem orgulho, qual seria?
É uma pergunta difícil, mas posso elencar alguns. O dia que tentaram derrubar o vidro do Grande Teatro Palácio das Artes. Tinha 2.500 pessoas querendo assistir ao José Saramago. Ele veio antes do Prêmio Nobel e ia lançar um livro. O vidro batia por conta das pessoas tentando entrar. Cheguei para ele e falei: “José, é o seguinte: vamos ter que fazer que nem cinema. Uma sessão às 19h e outra às 21h”. Ele falou: “Não vou fazer”. Aí falei: “Então, vai lá fora avisar”. Na hora, ele respondeu: “Vou fazer”.
Quando o Mario Vargas Llosa perdeu as eleições no Peru, em 1988, lançou “Peixe na água” aqui comigo. Foi uma coisa completamente inusitada porque, depois do evento, ele avisou que não gostava de dar autógrafos. Quando terminou, falei: “A fila começa pela direita”. Ele queria me matar. Quando pegamos o táxi, estava emburrado. Perguntei: “Você gosta de Guimarães Rosa?” O olho dele brilhou. Conversamos sobre Guimarães Rosa até as 5h da manhã.
Qual é o segredo para conseguir reunir tantos autores e criar esse ambiente tão acolhedor nos festivais?
O festival é apenas um encontro de amizades que eu construí ao longo de 40 anos. As pessoas perguntam como é que você consegue fazer. É fácil, é só trabalhar 40 anos diariamente com isso. Quando convido uma pessoa, quero saber desde o momento que ela sai da casa dela até onde chega no evento. O que ela vai fazer no evento, como vai se alimentar, como vai ser tratada, até o momento que chega em casa.
As pessoas às vezes esquecem que um autor é um cara solitário. Ele faz tudo dentro da casa dele. A saída do autor da sua casa para os eventos, que é um fator de sobrevivência, é muito complicada. É toda uma mecânica muito específica do modo de fazer literário.
Um festival literário não é apenas um evento. [Não é só organizar] as mesas de forma equilibrada entre gênero, raça e sexo, mas é também entender que o festival literário tem uma capacidade de transformação inacreditável dentro de uma cidade.
Como você vê a literatura brasileira hoje?
A grande novidade na literatura brasileira é que nós, brancos, e a população brasileira que lê livros, está lendo mais os negros. Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Lélia Gonzalez, Eliane Marques, Andressa Marques… É uma geração que está aparecendo, mas que sempre esteve lá. E é a grande novidade por que? Primeiro, porque é bom. É literatura de altíssima qualidade. Segundo, porque é uma visão que nós não estamos acostumados.
Nos últimos anos temos visto transformações da Academia Brasileira de Letras. Na posse, a jornalista Miriam Leitão fez questão de frisar que a Academia ainda é um lugar de homens brancos. Como enxerga esse momento?
A ABL tem uma excelente oportunidade de fazer a eleição de mulheres e negros, mas eu não coloco a Academia Brasileira de Letras no centro das questões nacionais como uma certa mídia vem colocando. A mídia e a sociedade brasileira supervalorizam a academia, porque ela não é uma instituição pública. A academia é uma instituição privada, onde os seus sócios, os seus proprietários, a sua elite, decidem quem entra e quem não entra.
Aí vem a sociedade brasileira e exerce uma pressão para que haja uma maior diversidade lá dentro. Ótimo. Tomara que aconteça. E está acontecendo. A derrota da Conceição Evaristo fez uma revolução. Foi o acontecimento mais importante dos últimos 30 anos da Academia Brasileira de Letras, porque mexeu com aquelas estruturas. Qual a importância política da Academia Brasileira de Letras? Nenhuma. A importância dela é toda simbólica. Quanto mais a ABL se assemelhar à população brasileira, melhor.