Talita Fernandes

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

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Análise

Ano Novo chinês: entre a mitologia milenar e a engenharia política da China

Entre lanternas vermelhas e o zodíaco, a tradição se une ao 'soft power' chinês em uma celebração que movimenta bilhões de pessoas e define a identidade de uma nação

Publicado em 17/02/2026 às 06:00
Mulheres caminham por uma rua de Pequim em frente a decorações com cavalos, em 12 de fevereiro de 2026, véspera do Ano Novo Lunar do Cavalo. Crédito: Pedro Pardo / AFP

O Ano Novo chinês, formalmente conhecido como Festival da Primavera, é o evento mais importante do calendário tradicional do país, mobilizando bilhões de pessoas ao redor do globo. Embora a celebração ocorra agora, em meados de fevereiro, sob frio rigoroso e neve em cidades como Pequim, para os chineses ela simboliza o renascimento.

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A data é regida por um calendário solilunar, que muda a cada ano — em 2026, está prevista para esta terça, dia 17 de fevereiro. De acordo com a cronologia tradicional chinesa, o mundo ingressará no ano 4724. O fundamento se dá pela observação meticulosa do sol e das fases da lua, ocorrendo especificamente na segunda lua cheia após o solstício de inverno.

A psicologia das cores e a mitologia de Nian

Diferentemente da percepção ocidental imediata, a onipresença da cor vermelha não possui origem no Partido Comunista. Ela antecede a existência da agremiação política em mais de mil anos, remontando aos tempos imperiais. O uso do vermelho está ancorado na mitologia de Nian — palavra que também designa “ano” — um monstro que, segundo a tradição, assolava comunidades rurais, roubando colheitas e amedrontando famílias.

A lenda sustenta que essa criatura possui aversão à cor vermelha. Por essa razão, os chineses adotaram o hábito de decorar suas residências com lanternas e trajes rubros, transformando a cor em um símbolo universal de sorte e prosperidade que é reverenciado durante todo o ano, mas que atinge seu ápice nesta celebração.

O zodíaco como organizador social e matemático

O horóscopo chinês é composto por 12 animais (rato, boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco) que se alternam anualmente, e não mensalmente. Esses signos são combinados a cinco elementos fundamentais (madeira, água, fogo, terra e metal), criando um ciclo complexo que se completa a cada 60 anos.

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Essa estrutura astrológica não é mera superstição; ela permeia a vida prática. A escolha de nomes para recém-nascidos ou estrangeiros, por exemplo, muitas vezes busca neutralizar características fortes do signo e do elemento de nascimento através da sonoridade e dos caracteres utilizados. Além disso, o zodíaco funciona como uma ferramenta matemática de identificação social: ao saber o signo de alguém, é possível deduzir sua idade com precisão, uma vez que os ciclos se repetem rigorosamente a cada doze anos.

A celebração sob a ótica política e social

Para além da cultura, o Ano Novo Lunar é um instrumento de narrativa estatal. O governo chinês utiliza a data para reforçar a imagem de estabilidade e prosperidade do país. No cenário internacional, o folclore do zodíaco atua como uma forma de soft power, gerando uma curiosidade benevolente que muitas vezes desvia o foco de questões políticas controversas e do centralismo do Partido Comunista.

Socialmente, o período revela as tensões do mercado de trabalho chinês. Em um país onde muitos operam sob regimes exaustivos, o feriado representa a única oportunidade anual para que milhões de trabalhadores migrantes cruzem o país para reencontrar suas famílias. A escala desse deslocamento é colossal: as estimativas oficiais apontam para cerca de 9,5 bilhões de viagens durante o período festivo.

Rituais de fortuna e trocadilhos linguísticos

A celebração é pontuada por rituais de atração de riqueza. As famílias se reúnem para preparar o jiaozi (guioza), cujo formato é propositalmente semelhante a antigas barrinhas de ouro. Há, inclusive, o costume de esconder moedas higienizadas dentro de alguns bolinhos; encontrar uma delas durante a ceia é um prenúncio de um ano financeiramente próspero.

Até a decoração das portas carrega um jogo de palavras sofisticado. O caractere Fu (fortuna) é frequentemente colado de cabeça para baixo porque o termo para “invertido” em chinês possui a mesma sonoridade que a palavra “chegar”. Assim, ao ver a fortuna invertida na porta, a leitura simbólica imediata para um chinês é direta: “a fortuna chegou”.

Assista ao comentário de Talita Fernandes no Matinal desta quinta-feira:

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