Talita Fernandes

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

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Análise

Como morar em Jerusalém me fez redescobrir o Natal

Viver entre Jerusalém e Belém desloca o Natal do campo do símbolo para o da experiência, marcada por conflitos, calendários distintos e ritos compartilhados.

Publicado em 25/12/2025 às 06:00

Passei a entender o Natal de outro jeito depois que comecei a viver na Terra Santa. Ainda que eu tenha crescido numa família católica e morado a maior parte da minha vida no Brasil, onde o Natal é uma celebração importante, eu nunca me comovi muito com a data.

Estar em Jerusalém mudou um pouco isso. Não tive uma conversão sentimental nem uma revelação súbita. Se você já ouviu falar da síndrome de Jerusalém, nome de um fenômeno psicológico que acomete pessoas que visitam lugares de grande importância espiritual ou religiosa, pode estar pensando que eu sou mais uma vítima desse fenômeno. Mas, não. A verdade é que meu olhar de repórter tentou logo dar conta de explicar a complexidade do que é celebrar o Natal por aqui.

Na foto, a apresentadora do Matinal Talita Fernandes em Belém, na Cisjordânia. Foto: Reprodução/YouTube

Eu vou a Belém pelo menos uma vez por semana. Minha casa está a apenas 10 quilômetros da Igreja da Natividade, construída no local onde a tradição indica ter sido o nascimento de Jesus. Mesmo em tempos modernos, com transporte muito mais rápido do que há 2025 anos, eu às vezes levo mais de uma hora, isso porque Jerusalém é controlada pelo estado de Israel desde 1967.

Chegar a Belém, oficialmente na Cisjordânia/Palestina, parte do Território Palestino Ocupado, requer a cruzada de checkpoints, o que sempre implica imprevistos, filas, fiscalizações e, muitas vezes, quase uma caça ao tesouro, caso um dos checkpoints que você escolheu cruzar naquele dia esteja fechado.

Oficialmente, são três os principais pontos de cruzamento e, embora haja uma estimativa de horário de funcionamento, a realidade de viver em território militarmente ocupado é aprender a lidar sempre com imprevistos.

Chegar a Belém não é um amor à primeira vista

Existem placas dizendo que você está cruzando um território perigoso. Nas vezes em que a navegação do GPS funciona, essa mensagem é reforçada por voz. Dá uma sensação de que há algo errado. Mas mesmo assim eu insisti e é por isso que eu estou escrevendo aqui esse relato. Por favor, insista.

Independentemente de seu interesse em visitar Belém, tenha fundo cultural, religioso, político ou de turista curioso mesmo. Das primeiras vezes que estive por lá, eu não vi sinais muito claros de que ali fosse um lugar tão importante para cristãos. Mas talvez meu estranhamento tenha um fator recente que ajude a explicar: me mudei para Jerusalém no fim de maio de 2025, poucas semanas antes da guerra de 12 dias, como ficou conhecido o recente conflito entre Israel e Irã.

Os dois últimos anos foram marcados por Natais esvaziados devido ao mais recente conflito entre Hamas e Israel. Em outubro de 2023, quando teve início o mais recente capítulo dessa guerra que se estende há mais de um século, o comércio de Belém ainda tentava se recuperar do baque da pandemia. Um novo e duro golpe se impôs e as ruas permanecem ainda muito mais vazias do que costumavam ser anos atrás.

Fazendo um rápido salto para setembro, foi quando um sinal de esperança começou a surgir por lá. Ainda que o conflito não tenha chegado ao fim, a assinatura de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas trazia a esperança de que o Natal de 2025 poderia ser diferente.

Pouco a pouco eu vi pipocar em meus grupos de amigos, de locais e estrangeiros, pessoas anunciando feiras de Natal e cerimônias quase que diárias de luzes natalinas sendo acesas. Em 6 de dezembro de 2025, a árvore de Natal da Praça da Manjedoura foi iluminada. Milhares de pessoas — não apenas cristãos — lotaram a praça.

Tinha gente de vários lugares do mundo, mas a maioria delas ainda era residente em territórios palestinos. Eu senti o clima mudar e, ainda que como um sinal forçado de esperança, a ideia de as luzes se reacenderem depois de dois anos sem celebração trazia algum sinal de normalidade. Mas vale dizer que não dá para se falar em normalidade.

Pessoas tiram fotos enquanto a árvore de Natal é acesa na Praça da Manjedoura em Belém, na Cisjordânia ocupada por Israel. Foto: John Wessels/AFP

Um calendário cristão que se estende até janeiro

Agora em dezembro, eu tive outra descoberta: este não é um mês-fim, mas apenas o começo de uma celebração natalina que se estende até 19 de janeiro. Isso não tem a ver com “espírito natalino”, mas com a coexistência concreta de diferentes denominações cristãs, cada uma com sua data, seu rito e seu ritmo.

Entrar na Igreja da Natividade exige um gesto físico específico: abaixar o corpo. A porta é baixa, resultado de uma decisão prática tomada séculos atrás, durante o período otomano, para impedir a entrada de pessoas montadas a cavalo. O nome que ficou — Porta da Humildade — veio depois. Hoje, o efeito é mais literal do que simbólico: ninguém entra ali sem se curvar.

O interior da igreja é um espaço compartilhado e regulado com precisão. Ortodoxos, apostólicos armênios e católicos ocupam áreas distintas de um mesmo complexo, cada um com seus altares, seus horários e suas regras. A iconóstase separa o altar da nave principal nas igrejas ortodoxas, tornando o rito parcialmente invisível. Não há bancos. A liturgia acontece em pé. O corpo participa do tempo da celebração.

A gruta associada ao nascimento de Jesus não corresponde à iconografia disseminada nos presépios ocidentais. Trata-se de um espaço pequeno, uma caverna em uma rocha, acessado em silêncio e por pouco tempo. Não é um lugar de contemplação prolongada. As pessoas entram, rezam, tocam a pedra e saem. O fluxo é constante, controlado, contido.

Viver o Natal aqui também altera a relação entre narrativa e lugar. Belém não funciona como símbolo abstrato. É uma cidade atravessada por restrições, controles e uma vida cotidiana que segue seu curso. Isso desloca a história do nascimento de Jesus do campo da alegoria para o da materialidade. A precariedade deixa de ser uma ideia e passa a ser uma condição concreta.

As celebrações seguem datas diferentes. O Natal católico acontece em 25 de dezembro. O ortodoxo, em 7 de janeiro. Para apostólicos armênios, mais tarde ainda, no dia 19. A cada cinco anos, os três coincidem. Isso porque as diferentes denominações cristãs seguem calendários diferentes.

Talvez seja isso que mais me marcou: o Natal na Terra Santa não é um evento, mas uma sequência. Ele não se resolve rapidamente nem se encerra com facilidade. Não oferece uma conclusão clara. Apenas continua.

Assista à análise de Talita Fernandes no Matinal de terça-feira (23):

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