Situação de Maria Corina na Venezuela é ‘vexatória’, diz analista
Enquanto líder da oposição venezuelana se encontra totalmente exposta, Washington afirma controlar as reservas de petróleo, e país é governado pela vice, Delcy Rodríguez, sob novas ameaças militares, avalia João Paulo Charleaux

O início de 2026 marcou uma ruptura drástica no cenário geopolítico sul-americano. Com a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos no primeiro final de semana do ano, o país entrou em um limbo institucional.
Enquanto Washington afirma controlar as reservas de petróleo, a Venezuela é governada pela vice-presidente, Delcy Rodríguez, sob a sombra de novas ameaças militares. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, sinalizou que o destino da herdeira do chavismo poderia ser o mesmo do de seu antecessor, caso não colabore com as diretrizes da nova administração.
Leia mais: EUA e Venezuela estão em guerra? Maduro terá o status de um prisioneiro de guerra?
Do outro lado, a líder da oposição, Maria Corina Machado, encontra-se “no meio da rua”, avalia o jornalista e escritor João Paulo Charleaux. “Corina não permanece no lado em que estava, nem conseguiu atravessar para o outro lado, estando completamente exposta”, explica o analista, para quem “os Estados Unidos parecem ter aprendido que não se pode forçar no poder uma liderança escolhida a dedo que não possua sustentação interna ou controle sobre o aparato militar”.
Sobre o episódio em que Corina, vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2025, ofereceu sua medalha para Trump, Charleaux classifica como “vexatória”.
“É um episódio tão inverossímil que, se estivesse em um romance literário, o leitor abandonaria a obra.”
Leia abaixo os principais trechos da entrevista do jornalista ao Matinal ou veja em vídeo ao final do texto.
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Do ponto de vista do direito internacional, faz sentido dizer que EUA e Venezuela estão em guerra?
João Paulo Charleaux: Sim. Surpreende-me que exista dúvida sobre isso, pois, no padrão de legalidade que vigorava antes do governo Trump, um país atacar o outro significava guerra. A maior potência militar do mundo mobilizou sua máquina de guerra — porta-aviões, submarinos, aviões de combate e drones —, invadiu a fronteira territorial de uma nação, bombardeou instalações militares e capturou o presidente deste país. Independentemente do grau de legitimidade desse mandatário, o cenário caracteriza, inequivocamente, um estado de guerra.

Como o governo americano tem justificado essa ação para evitar as implicações de uma guerra formal?
João Paulo Charleaux: O argumento de Marco Rubio e de Trump é que não se trata de uma guerra, mas, sim, de uma operação de captura de um cidadão acusado de narcotráfico internacional pela Justiça americana. É uma espécie de invenção jurídica, como se fosse uma “GLO” internacional, na qual a Força Armada cumpre papel de polícia em território estrangeiro. Trata-se de um Frankenstein jurídico para driblar tanto os direitos reivindicados por Maduro quanto os constrangimentos da própria lei americana, que poderia levar a um processo de impeachment contra Trump por conduzir guerra sem anuência do Congresso.
Juridicamente, a ação contra Maduro pode ser classificada como sequestro?
João Paulo Charleaux: Não considero que o termo “sequestro” seja o mais adequado tecnicamente, pois este tipo penal pressupõe a abdução de alguém mediante o pagamento de uma recompensa, o que não ocorreu neste caso. Sob a ótica do ordenamento jurídico interno dos Estados Unidos, trata-se do cumprimento de um mandato judicial. Já sob o prisma do direito internacional, o que ocorreu foi uma abdução e captura ilegal em um contexto de agressão armada. Embora seja uma ação ilegal, é importante dar o nome correto aos fatos: foi uma captura no contexto de um conflito internacional.
Qual a situação real da vice-presidente, Delcy Rodríguez, diante das declarações de Marco Rubio?
João Paulo Charleaux: Delcy Rodríguez é uma pessoa lutando pela própria sobrevivência, pois está claramente ameaçada. Marco Rubio afirmou no Congresso que nada impede os Estados Unidos de voltarem a atacar a Venezuela, o que significa um ataque contra o atual governo chefiado por ela. Ela está com uma arma apontada para a cabeça. Caso não cumpra o papel esperado por Washington e pelas empresas de petróleo que financiaram a campanha de Trump, ela perderá sua utilidade e poderá ser presa, morta ou abandonada. O recado é simples: ou ela atua conforme as ordens americanas, ou o país será atacado novamente.
Como você avalia a atual posição de Maria Corina Machado?
João Paulo Charleaux: A situação dela é vexatória. Oferecer o seu Prêmio Nobel da Paz a Trump é um episódio tão inverossímil que, se estivesse em um romance literário, o leitor abandonaria a obra. Ela ficou “no meio da rua”: não permanece no lado em que estava, nem conseguiu atravessar para o outro lado, estando completamente exposta. Os Estados Unidos parecem ter aprendido que não se pode forçar no poder uma liderança escolhida a dedo que não possua sustentação interna ou controle sobre o aparato militar.
O que muda para Maduro se a defesa conseguir classificá-lo como prisioneiro de guerra?
João Paulo Charleaux: O prisioneiro de guerra goza de garantias previstas na Terceira Convenção de Genebra. A mais relevante é que, assim que termina o conflito, o prisioneiro deve ser repatriado. Como as pessoas são capturadas porque representam uma ameaça militar, uma vez que a guerra se dissolve, elas devem ser libertadas e não podem ficar detidas eternamente no território inimigo. Maduro aposta nisso ao afirmar que é o chefe supremo das Forças Armadas em um contexto de guerra.
Assista à íntegra do comentário de João Paulo Charleaux ao Matinal: