Entrevista

Em ‘Esquema’, Jessé Andarilho reflete sobre corrupção, oportunismo e sobrevivência

O escritor reflete no Notas de Rodapé sobre como o "jeitinho" de Daniel Piloto, seu personagem, é, na verdade, uma tática de sobrevivência urbana

09/07/2026 às 14:11 · Atualizado há 3 meses
Rio de Janeiro
Escritor Jessé Andarilho

A realidade do Rio de Janeiro em julho de 2026, com a escalada da guerra entre milícias e o Comando Vermelho, parece saída das páginas de “Esquema”, livro de Jessé Andarilho. Em entrevista ao Notas de Rodapé, do Amado Mundo, o escritor falou sobre como 90% das histórias de seu protagonista, Daniel Piloto, são reais e costuradas a partir de andanças pela cidade. 

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De motorista de van a vereador: Daniel Piloto é o retrato do Rio

Daniel é um motorista de Kombi que vive de pequenos golpes, até viralizar como um “exemplo de honestidade” e acabar eleito vereador. Para Jessé, o personagem é um espelho da “corrupção do dia a dia”, onde a linha entre a sobrevivência e o oportunismo é quase invisível. 

“As pessoas nem percebem que é esquema, já faz parte da rotina”, afirmou o autor. Ele também citou exemplos que hoje ecoam nas notícias de jornais, como o controle territorial que milícias e tráfico exercem sobre serviços básicos e transporte. 

A ambiguidade na sobrevivência 

Ele, que viveu de “bicos” antes de se tornar escritor, traz para o debate a precarização do trabalhador, que precisa de dinheiro para sobreviver, mas não consegue encontrar empregos com condições dignas considerados “honestos”.

 Questionado sobre a influência das milícias no transporte, Jessé lembrou que o território muitas vezes dita a regra: se o governo falha em prover linhas de ônibus, a milícia ocupa o espaço e cobra taxas. “Ele [Daniel, que era piloto de transportes clandestinos] fez um esquema, porque viu uma oportunidade de trabalhar honestamente. Honestamente até onde, se isso é proibido?”, indagou. 

Ele comentou sobre como não poderia ser jornalista, pois mora e participa do contexto onde as situações ocorrem , o que faria ele ser considerado um “dedo-duro” caso relatasse em material jornalístico o que vive e conhece. Com medo de ser apontado como delator, o escritor usa das vivências para criar um livro ficcional.  

“Eu moro lá. Se eu contar as histórias que eu vejo lá igual vocês contam, eu não vou ser jornalista, vou ser X9. Então invento histórias e escrevo em livros”, concluiu. 

Confira a entrevista completa do Notas de Rodapé:

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