Máquina digital do bolsonarismo hoje é frágil e sem coesão, diz pesquisador
Professor da PUC-Rio, Marcelo Alves detalha mecanismos da extrema-direita nas redes sociais por meio de projeto de memória 'Acervo 8 de Janeiro'.

A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, decretada no último sábado e confirmada nesta segunda (24) pelo STF, reacendeu o debate sobre a forma como a extrema-direita tem usado o ambiente digital como arma de pressão, mobilização e construção de narrativa.
A detenção de Bolsonaro ocorre quase três anos depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando a invasão aos Três Poderes, em Brasília, por parte de apoiadores do ex-presidente materializou o ápice de uma articulação que começou na derrota nas eleições de 2022 e se intensificou nas semanas seguintes.
No “Matinal” desta terça-feira (25), o professor Marcelo Alves, da Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio, explica como esse ecossistema digital foi estruturado, cresceu e operou de forma coordenada para convocar, organizar e transmitir os atos antidemocráticos. Alves é coordenador do “Acervo Digital 8 de janeiro”, um projeto multimídia que preservou milhares de publicações, 500 mil imagens e 100 mil vídeos, coletados entre outubro de 2022 e fevereiro de 2023.
O acervo revela uma máquina de comunicação política, com lideranças digitais influentes, mudança de táticas para evitar responsabilização e uma reorganização rápida do movimento após a contestação eleitoral.
Segundo o pesquisador, o discurso público de espontaneidade e organicidade contrasta com a lógica observada nos rastros deixados nas redes, que era bem verticalizada, “de cima para baixo”.
Hoje o cenário é outro. Mesmo com uma enorme capacidade de comunicação, a extrema-direita enfrenta dificuldades crescentes de coordenação. Sem Bolsonaro como opção viável para 2026, o campo político que antes funcionava de forma coesa agora vive um período de racha, revelando uma nova fase dessa máquina que dominou a comunicação digital nos últimos anos.
Quais foram as motivações do projeto do Acervo?
Começamos a desenvolver o projeto preocupados com o que aconteceu nos Estados Unidos, no Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2021. Após o ataque, que tentava impedir a certificação do resultado da eleição de Joe Biden e foi convocado pelas mídias digitais, os vídeos rapidamente começaram a ser apagados. Nós, acompanhando o risco democrático no Brasil, lançamos a hipótese que poderia acontecer uma contestação eleitoral e uma estratégia de apagamento das imagens. Por isso, acompanhamos o processo eleitoral com um mecanismo de preservação e arquivamento de conteúdos.
Como filtrar o mundo digital em meio a tanta fake news?
Tínhamos o primeiro desafio de ter um volume muito grande de mídias. Só no dia 8 de janeiro foram mais de cem lives. Para obter o material, utilizamos técnicas computacionais para retirar da internet e evitar um apagamento – que se dá, sobretudo, porque as próprias pessoas identificam que é um conteúdo de risco jurídico para elas mesmas. A segunda dificuldade era fazer a curadoria do material. Com inteligência artificial, conseguimos transcrever e encontrar aspectos semânticos, objetos e imagens, por exemplo, de cartazes de convocação para as mobilizações, que começaram a ser apagados para se criar a narrativa de que não havia a intenção de provocar um golpe ou de intervenção militar.
O que os dados revelam sobre a organização do 8 de janeiro nas redes?
Os dados revelam uma coordenação muito clara de discursos e de datas, quase sempre articulada a partir da estrutura ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Quando começa a contestação eleitoral, por exemplo, o movimento rapidamente se reorganiza em direção aos quartéis em todo o país. A extrema-direita historicamente se mobilizava em outros espaços,então essa mudança só poderia ocorrer de forma organizada, de cima para baixo, apesar do discurso público de espontaneidade. Outra estratégia foi a orientação para evitar o uso do nome de Bolsonaro, reduzindo riscos de responsabilização futura, um claro aprendizado do episódio do Capitólio. Os dados também mostram lideranças digitais como intermediárias, usando sua proximidade com o Planalto para difundir desinformação, impulsionar pedidos de golpe e mobilizar pessoas de maneira ativa.

Como foi pensada a linha do tempo do 8 de janeiro e qual a importância dela?
Identificamos um mundo paralelo, uma lógica política, ideológica, cultural muito específica desses nichos. Organizamos cronologicamente como foi feito o movimento, desde a noite do segundo turno até os ataques no 8 de janeiro. Há um crescimento na organização de quadros, nos processos de ativismo e nas palavras-chave. Tudo se radicaliza lentamente e se torna cada vez mais violento. Vai adotando de forma aberta o discurso de fechamento de regime, de ataques e da lógica de guerra. Recentemente, vimos [o senador] Flávio Bolsonaro usando essa terminologia misturada com uma divina, de uma guerra sagrada. Tudo isso já estava presente lá.
O que dessa análise do 8 de janeiro você traz para o debate atual sobre o discurso da direita nas redes?
A direita segue organizada em torno de Jair Bolsonaro, mas vive um momento de fortes divisões internas, críticas públicas e um clima cada vez mais fratricida. Esse processo se intensifica após a prisão e a retirada de Bolsonaro como opção para 2026, abrindo a corrida por um sucessor. Quando parte do grupo passa a afirmar que vivemos sob uma ditadura, cria-se uma ruptura total com a lógica eleitoral. A rejeição ao sistema gera subgrupos que tornam a coordenação difícil. A extrema-direita, que, por muito tempo foi hegemônica, vive agora uma transformação acelerada. Suas lideranças disputam visibilidade e controle, e a escolha de um novo nome será pública, conflituosa e marcada por “lavagem de roupa suja”. O acervo já mostrava, antes, diferentes correntes debatendo qual estratégia seguir para tomar o poder.
Na decisão de manter a prisão preventiva de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes diz que os bolsonaristas “criam caos nas redes” para tentar formar uma narrativa. Como você vê essa lógica?
Existe um modus operandi consolidado. São dez anos de produção e disseminação de campanhas nas redes, em que esses atores se comunicam de forma direta com seus públicos, muitas vezes ignorando a grande imprensa e os meios tradicionais. O cenário atual, porém, revela outro problema: falta coesão. Não existe consenso sobre a pauta, quem lidera, o que reivindicar e qual narrativa unificar. Parte da extrema-direita já não aceita que alguém indicado por Bolsonaro seja o líder do campo, o que aprofunda o racha interno. Aquilo que antes era uma força do bolsonarismo, muitas vozes influentes e com grande alcance, hoje se transforma em fragilidade, porque esses mesmos comunicadores discordam publicamente entre si, fragmentando o discurso e a capacidade de mobilização.