Guerra no Irã: China entra na última hora como negociador, e Europa evita confrontar Trump
Veto chinês na ONU ao uso da força no Estreito de Ormuz revela um novo equilíbrio de poder global e expõe a estratégia europeia de sobreviver a Trump sem enfrentá-lo

As negociações para o cessar-fogo entre EUA e Irã tiveram um ator de última hora que vem se provando um agente de equilíbrio na recente ordem global: a China.
Paralelamente ao ultimato dado por Trump a Teerã para a reabertura do Estreito de Ormuz, nesta terça-feira (7), Pequim vetou, junto a Moscou, no Conselho de Segurança da ONU uma resolução criada pelo Bahrein que buscava coordenar esforços defensivos para a reabertura do Estreito de Ormuz. Embora a medida tenha obtido 11 votos a favor, ela foi barrada pelo poder de veto de duas potências com assento permanente no órgão da ONU. O Paquistão, em posição de mediador, optou pela abstenção.
O gesto chinês carrega camadas: mesmo atuando como ator neutro na guerra, a China historicamente mostra sinergia com o Irã, de quem é o principal comprador de petróleo. Com o veto, Pequim se apresenta como força de estabilização — em contraste direto com os Estados Unidos, que ocupam o papel de força de desestabilização.
O voto confortável da Europa na ONU
A Europa segue em uma posição bastante delicada na questão da defesa, muito por conta da dependência da OTAN, basicamente suportada militarmente pelos Estados Unidos.
O veto na ONU, portanto, atendeu aos interesses dos países europeus com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (França e Reino Unido), pois não é necessário votar quando se tem a certeza de um veto. Trata-se, assim, de um voto confortável. Mas certamente houve alívio durante a decisão, visto que nenhum país europeu — nem França, nem Reino Unido — está disposto a se engajar com os EUA para uma abertura forçada do Estreito ou a entrar em uma aventura dessa natureza.
Preços, opinião pública e o desgaste do ‘soft power’ americano
Embora o desabastecimento ainda não tenha chegado à Europa, houve um aumento considerável de preços em Portugal, Espanha, França e Itália. Essa pressão torna a visão sobre os Estados Unidos e Trump ainda mais negativa no continente. Pesquisas recentes mostram uma queda de 15 a 20 pontos percentuais na visão positiva sobre os americanos nos países europeus — um dos momentos mais críticos dessa percepção.
O movimento atua contra o soft power dos EUA e a favor da China, que se torna uma opção de parceiro estratégico muito importante para exportações e investimentos.
Dar a corda para se enforcar
A estratégia da Europa tem sido apostar no desgaste político interno de Trump. O acordo comercial do verão passado, embora muito criticado, foi uma tentativa de aceitar as condições de Trump para não provocá-lo a agir contra a Europa como inimiga.
Atualmente, Trump enfrenta, dentro dos Estados Unidos, uma taxa de rejeição de 20 pontos percentuais a mais do que a taxa de aprovação. A Europa compreende que o confronto direto no curto prazo fortalece o discurso do americano contra o sistema. Por isso, a estratégia parece ser a de “dar corda para ele se enforcar”, esperando que Trump perca a maioria na Câmara e no Senado nas eleições de meio de mandato nos EUA.
O ponto de inflexão: Orbán
Há, no entanto, um ponto de inflexão caso Viktor Orbán perca a eleição na Hungria. Ele é o representante de Trump, do MAGA (‘Make America great again’) e de Putin dentro da União Europeia, utilizando seu poder de veto para barrar reações a tarifas e financiamentos para a guerra na Ucrânia.
Se ele perder, a força indireta de Trump diminuirá. A partir daí, a União Europeia entrará em um modo mais incisivo e agressivo na oposição contra os EUA, assemelhando-se ao estilo de Pedro Sánchez na Espanha. Isso complicará muito a vida de Trump.
Assista à íntegra do comentário de Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta quarta (8):