Entrevista

‘Há mais livros do que leitores dispostos a lê-los’, acredita Luiz Schwarcz

Em entrevista ao Papo Amado, o editor revisita os 40 anos da Companhia das Letras e comenta os desafios do mercado editorial brasileiro

Publicado em 15/02/2026 às 06:00
Luiz Schwarcz em entrevista ao Papo Amado – Foto: Amado Mundo

O crescimento do número de editoras e de lançamentos de livros ampliou a oferta de títulos, mas não a base de leitores. Esse é o diagnóstico de Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, a maior editora do Brasil atualmente. Às vésperas dos 40 anos da editora, o editor aponta para um setor mais competitivo, que convive com a fragilidade das políticas públicas de formação e acesso à leitura, além da disputa por atenção em meio a outras mídias. 

Em entrevista ao Papo Amado, Schwarcz refletiu sobre o papel do editor como mediador entre autor e leitor, um trabalho que, segundo ele, exige entrar na “alma” do texto. Também relembrou a convivência com autores como Susan Sontag, Jô Soares, Amos Oz e Rubem Fonseca.

Autor dos livros “O primeiro leitor” (2025) e de “O ar que me falta” (2021), além de obras infantis, o editor refletiu ainda sobre o lado de quem escreve.

Criada em 1986 por Luiz Schwarcz e pela historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, com quem é casado, a Companhia das Letras é hoje o maior grupo editorial do país. A editora que começou nos fundos da gráfica da família reúne 21 selos, entre eles Zahar, Objetiva e Penguin-Companhia, e lança cerca de 300 livros por ano. 

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A seguir, leia os principais trechos da entrevista ou assista à entrevista completa ao final do texto.

Quando você decidiu fundar a sua própria casa editorial?
Entrei na editora Brasiliense como estagiário para aprender o ramo e ser um livreiro. Depois de quase nove anos, minha relação na Brasiliense estava um pouco desgastada, e não queria estragar a maravilhosa convivência que tive com o Caio Graco Prado, aí resolvi sair. Com a venda de um apartamento, criei a Companhia das Letras junto com a Lili [Lilia Moritz Schwarcz]. 

Em 1986, havia receio de que a tecnologia viesse a ameaçar o livro?
Naquela época não havia ebook nem audiobook. Hoje, o mercado é muito mais competitivo, e o número de editoras é muito maior. Uma editora hoje pode não ser rentável, pelo fato de que as outras editoras cresceram, e o mercado publica muito mais do que se lê. Temos o problema de ter muito mais livros à disposição do leitor do que a disposição dos leitores em lerem livros.

Na primeira leva de publicações da editora, vocês escolheram o “Rumo à estação Finlândia”, de Edmund Wilson, que virou um best-seller. Por que um livro de 1940?
A proposta inicial da editora era publicar ficção e não ficção literária. Eu sabia que “Rumo à estação Finlândia” era o livro de cabeceira de jornalistas muito importantes, entre eles o Paulo Francis, que fez uma página inteira na Folha Ilustrada. O projeto era fazer não ficção mais acessível e democrática. Começamos como uma marca e hoje temos mais de 20 selos [criados e comprados]. 

Dos 300 livros publicados por ano, em quantos você consegue estar envolvido diretamente?
Estou envolvido em todos os livros que chamamos de “apostas” – livros que têm uma tiragem e uma expectativa de venda maior, para o qual fazemos um trabalho diferenciado. São principalmente os livros da Companhia e alguns da Objetiva e da Zahar. A minha leitura é especialmente de texto nacional e de não ficção. 

No livro ‘O primeiro leitor’, você compara a relação editor-autor com uma relação amorosa. Quais foram os principais casos dessa sua vida amorosa paralela?
Posso mencionar Susan Sontag, Amos Oz, que foi um autor muito importante para mim, assim como David Grossman, dois autores israelenses. No Brasil, Rubem Fonseca e José Paulo Paz, grande poeta e tradutor que me ajudou a escolher o nome Companhia das Letras.

Em “O primeiro leitor” (2025), Luiz Schwarcz reúne reflexões sobre o mundo editorial, entre memórias e homenagens a quem marcou sua trajetória – Foto: Companhia das Letras/Reprodução

Rubem Fonseca foi muito importante.
Foi um escritor fundamental da literatura urbana brasileira, assim como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Posso citar Marçal Aquino, Tony Bellotto, Patrícia Melo, nomes que só nasceram porque leram muito Rubem Fonseca. Hoje, a literatura urbana brasileira é mais diversificada, mas parte ainda bebe na fonte do Rubem Fonseca.

Você conta que o Amos Oz e o Jô Soares eram piadistas
O Jô tirava muito sarro com o fato de eu não ser muito expansivo, enfático. Ele contava histórias do começo da carreira na televisão que eram hilárias. O Amos Oz era bom de piadas judaicas. Numa ocasião, ficamos disputando quem sabia mais piadas, na presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, fã da literatura do Oz. Perdi de longe.

E a Susan Sontag, como era a mulher, não a escritora?
A Susan era uma pessoa que se apaixonava com muita facilidade. Ficou entusiasmada com a vida intelectual de São Paulo. Era uma leitora extraordinária. A contribuição dela como leitora nos Estados Unidos é quase tão grande quanto a de escritora. Ela descobriu Roberto Bolaño, Thomas Bernhard, W. G. Sebald.

Uma das coisas mais legais de ser editor é poder conviver com algumas pessoas extraordinárias do seu tempo. 
A convivência com escritores é um dos grandes baratos da edição. O outro é a convivência com os leitores, a reação deles a um livro. Os escritores são pessoas meio fora da curva, dispostas a ficar meses, ou anos, solitariamente, apenas lidando com a sua criatividade, fantasias, instintos e sensibilidades.

A pesquisa ‘Retratos da leitura no Brasil’, de 2024, confirmou que estamos perdendo leitores. A que você atribui isso?
A concorrência com as mídias não dá para ser ignorada, embora tenha um aspecto ambíguo. Há uma fatia de jovens que está lendo mais. Há uma parcela desse público que combina a vida nas mídias sociais e a vida como leitores. A mídia social é  importante para a divulgação dos livros. A pesquisa tem um outro dado que é a diminuição de políticas públicas de distribuição de livros para bibliotecas – um número significativo de leitores foi perdido por falta de sequência nas políticas educacionais.

O que te levou a escrever sobre depressão e bipolaridade de maneira tão aberta numa época em que saúde mental não estava tão em voga?
Tinha vontade de escrever sobre meu pai, que tinha depressão. Tentei fazer romances, mas não deu certo. Um dia, tive a ideia de que, se contasse a história da minha depressão, poderia estar falando do meu pai ou de um trauma intergeracional, que vem da morte do meu avô. 

Qual o lugar da literatura brasileira no mundo?
Poucas editoras tentam exportar livros brasileiros para serem publicados. “Livro brasileiro não vende”, criou-se essa fama porque poucos estouraram. Mas tentamos criar oportunidades. A mais recente é que nos associamos a uma agência literária para vender os livros do Raphael Montes, e foram comprados por um selo grande. O mesmo ocorreu com o último livro da Aline Bei.

Leia também: Raphael Montes: mundo das aparências e pressão por ‘performar’ são vilões de qualquer ‘família feliz’

Quem é o grande escritor vivo hoje?
Acho que é uma pergunta irrespondível.

E os grandes editores brasileiros?
José Olympio, que profissionalizou o trabalho. Os meus dois mentores, Caio Graco Prado e Jorge Zahar, que me deram lições importantes, e Alfredo Machado, fundador da Record.

Quais os critérios para escolher uma obra?
Tem que entrar na alma do livro para entendê-la e, de alguma forma, defendê-la até do autor, que pode ter escapado da proposta inicial. O editor tem que ler o livro com os olhos do próprio escritor e com os olhos dos leitores.

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