Talita Fernandes

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

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Análise

Os protestos no Irã e as quatro décadas de desgaste econômico, político e social

Segundo a ONG norueguesa Iran Human Rights, ao menos 648 pessoas morreram desde o fim de dezembro até o dia 12 de janeiro, em decorrência da repressão aos protestos

14/01/2026 às 11:52 · Atualizado há 7 meses
Mobilização da população em Teerã em funeral de agentes das forças de segurança, mortos em decorrência dos protestos locais (Foto Majid Asgaripour/WANA West Asia News Agency via REUTERS)

Uma onda de protestos tem tomado conta do Irã nos últimos dias e voltou a chamar a atenção do noticiário internacional, sobretudo diante da resposta violenta do Estado às mobilizações.

Segundo a ONG norueguesa Iran Human Rights, ao menos 648 pessoas morreram até a última segunda-feira, dia 12 de janeiro, em decorrência da repressão aos protestos, número que pode ser ainda maior.

Os protestos tiveram início em 28 de dezembro, a partir de mobilizações de comerciantes em Teerã. Rapidamente, os atos ganharam apoio de estudantes e outros trabalhadores e se espalharam por mais de 100 cidades em diferentes estados.

Entre as principais pautas estão denúncias de violações de direitos humanos, corrupção e deterioração das condições de vida. O cenário expõe a profundidade da crise interna iraniana e suas possíveis consequências para além das fronteiras do país.

Quatro décadas sob o regime dos aiatolás

As manifestações não surgem de forma isolada. Elas se inserem em um processo prolongado de intenso desgaste político, econômico e social que dura mais de quatro décadas.

Desde 1979, o Irã é governado por um regime de aiatolás, instaurado após a Revolução Islâmica, que transformou o país em uma teocracia islâmica de orientação xiita. Esse modelo de governo impõe uma série de restrições à liberdade pessoal dos indivíduos e concentra o poder em estruturas religiosas e de segurança.

Sanções internacionais e o impacto direto na população

A instauração do regime teocrático levou a comunidade internacional a impor sanções econômicas severas ao Irã. Essas punições são alvos de críticas recorrentes de analistas, que apontam que elas não resultam em mudança de regime, mas impõem um peso adicional à população.

Na prática, o efeito recai sobre o dia a dia dos iranianos, que enfrentam dificuldades econômicas crescentes, inflação elevada e deterioração das condições de vida, somadas a um ambiente já marcado por restrições políticas e violações de direitos humanos.

As mobilizações internas começaram após a guerra entre Irã e Israel, em junho de 2025, que contou uma ação militar dos Estados Unidos. O conflito enfraqueceu ainda mais o poder dos aiatolás e teve impacto direto sobre a economia local. A população iraniana passou a conviver com o aumento de preços, a desvalorização da moeda e uma maior dificuldade de acesso a bens de consumo básicos.

Como resposta, o Estado adotou uma postura ainda mais controladora em relação à população. Mecanismos de vigilância e repressão foram ampliados na busca por possíveis traidores ou colaboracionistas com regimes e forças externas.

Mulheres no centro das mobilizações

Um elemento importante nesses protestos, e que já vimos em mobilizações anteriores, é a participação das mulheres e a centralidade da pauta dos direitos femininos.

No Irã, de acordo com as normas do regime, as mulheres são obrigadas a usar véu em espaços públicos e há relatos recorrentes de prisões e punições contra aquelas que não seguem rigidamente a conduta.

Interesses externos e disputas em torno dos protestos

Ao mesmo tempo, os protestos se desenrolam em um ambiente de forte disputa internacional. É preciso observar que, até agora, há um aproveitamento de forças externas que não necessariamente têm como prioridade a defesa da população iraniana e se valem das manifestações para pressionar o regime dos aiatolás.

Estados Unidos e Israel, por exemplo, utilizam o contexto para ameaçar novas intervenções militares ao país. Há também a comunidade iraniana exilada desde a instauração do regime, em 1979, discutem cenários de transição política.

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