Os protestos no Irã e as quatro décadas de desgaste econômico, político e social
Segundo a ONG norueguesa Iran Human Rights, ao menos 648 pessoas morreram desde o fim de dezembro até o dia 12 de janeiro, em decorrência da repressão aos protestos

Uma onda de protestos tem tomado conta do Irã nos últimos dias e voltou a chamar a atenção do noticiário internacional, sobretudo diante da resposta violenta do Estado às mobilizações.
Segundo a ONG norueguesa Iran Human Rights, ao menos 648 pessoas morreram até a última segunda-feira, dia 12 de janeiro, em decorrência da repressão aos protestos, número que pode ser ainda maior.
Os protestos tiveram início em 28 de dezembro, a partir de mobilizações de comerciantes em Teerã. Rapidamente, os atos ganharam apoio de estudantes e outros trabalhadores e se espalharam por mais de 100 cidades em diferentes estados.
Entre as principais pautas estão denúncias de violações de direitos humanos, corrupção e deterioração das condições de vida. O cenário expõe a profundidade da crise interna iraniana e suas possíveis consequências para além das fronteiras do país.
Quatro décadas sob o regime dos aiatolás
As manifestações não surgem de forma isolada. Elas se inserem em um processo prolongado de intenso desgaste político, econômico e social que dura mais de quatro décadas.
Desde 1979, o Irã é governado por um regime de aiatolás, instaurado após a Revolução Islâmica, que transformou o país em uma teocracia islâmica de orientação xiita. Esse modelo de governo impõe uma série de restrições à liberdade pessoal dos indivíduos e concentra o poder em estruturas religiosas e de segurança.
Sanções internacionais e o impacto direto na população
A instauração do regime teocrático levou a comunidade internacional a impor sanções econômicas severas ao Irã. Essas punições são alvos de críticas recorrentes de analistas, que apontam que elas não resultam em mudança de regime, mas impõem um peso adicional à população.
Na prática, o efeito recai sobre o dia a dia dos iranianos, que enfrentam dificuldades econômicas crescentes, inflação elevada e deterioração das condições de vida, somadas a um ambiente já marcado por restrições políticas e violações de direitos humanos.
As mobilizações internas começaram após a guerra entre Irã e Israel, em junho de 2025, que contou uma ação militar dos Estados Unidos. O conflito enfraqueceu ainda mais o poder dos aiatolás e teve impacto direto sobre a economia local. A população iraniana passou a conviver com o aumento de preços, a desvalorização da moeda e uma maior dificuldade de acesso a bens de consumo básicos.
Como resposta, o Estado adotou uma postura ainda mais controladora em relação à população. Mecanismos de vigilância e repressão foram ampliados na busca por possíveis traidores ou colaboracionistas com regimes e forças externas.
Mulheres no centro das mobilizações
Um elemento importante nesses protestos, e que já vimos em mobilizações anteriores, é a participação das mulheres e a centralidade da pauta dos direitos femininos.
No Irã, de acordo com as normas do regime, as mulheres são obrigadas a usar véu em espaços públicos e há relatos recorrentes de prisões e punições contra aquelas que não seguem rigidamente a conduta.
Interesses externos e disputas em torno dos protestos
Ao mesmo tempo, os protestos se desenrolam em um ambiente de forte disputa internacional. É preciso observar que, até agora, há um aproveitamento de forças externas que não necessariamente têm como prioridade a defesa da população iraniana e se valem das manifestações para pressionar o regime dos aiatolás.
Estados Unidos e Israel, por exemplo, utilizam o contexto para ameaçar novas intervenções militares ao país. Há também a comunidade iraniana exilada desde a instauração do regime, em 1979, discutem cenários de transição política.