Grammy vira palco contra o ICE, com artistas do lado certo da história
Estudos já projetam uma perda de até US$ 110 bilhões à economia americana neste ano em função da perseguição aos imigrantes feita por agentes de Trump

A manifestação dos artistas no Grammy é bastante simbólica e importante nesse momento que estamos está vivendo por muitas razões. Como disse o colunista de música Chris Richards, do Washington Post, o mundo aqui fora parece que ficou barulhento demais para ser ignorado. Os músicos parecem ter entendido que o que está em jogo não é só a defesa de um partido político, é sobre estar do lado certo da história.
O fenômeno Bad Bunny e a resistência latina
A vitória de Bad Bunny é o maior expoente desse movimento. O artista porto-riquenho venceu os prêmios de Álbum do Ano, Melhor Álbum de Música Urbana e Melhor Performance de Música Global por “Debí tirar más fotos”. É um episódio muito simbólico o fato da conquista, pois é o primeiro álbum inteiramente em espanhol a receber o melhor prêmio. Trata-se de um reconhecimento ao talento latino e um contraponto direto à imagem que a administração Trump tem vendido, como se todos os imigrantes fossem criminosos.
Ao subir ao palco, sob aplausos por sua postura contra a truculência do ICE, o artista deixou um recado claro: “Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos. O ódio se torna mais poderoso com mais ódio. A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. Então, por favor, precisamos ser diferentes”.
Ali na premiação, os artistas estavam lembrando o quanto a criatividade e a cultura americana também devem a essa diversidade e a essa soma de influências dos imigrantes. Bad Bunny não esteve sozinho. Nomes como Billie Eilish e Olivia Dean — que lembrou ser neta de imigrante e fruto da bravura — reforçaram o coro. Até artistas menos ligados à política, como Justin Bieber, usaram broches com a inscrição “ICE OUT” (“fora ICE”) .
O custo da repressão: imigração negativa e impactos na economia
O que o mundo está assistindo não é uma operação normal de combate à imigração do ICE, mas, sim, uma caçada truculenta a imigrantes que está atropelando a lei. Um estudo recente do Brookings Institution mostrou que a imigração já é negativa. É a primeira vez em meio século que a imigração mostra um decréscimo em 2025, como resultado da repressão de Trump.
Ao contrário do que o presidente vem falando, de que este movimento vai ajudar a economia e que os migrantes são a “praga” dos Estados Unidos, os estudos mostram que essa queda acentuada de imigrantes faz com que certos setores da economia experimentem uma atividade econômica inesperadamente fraca.
É uma desaceleração que tende a continuar em 2026, já que eles estimam que até o final deste ano, a queda em termos de ganhos e em gastos do consumidor vá cair entre US$ 60 bilhões e US$ 110 bilhões. Segundo a revista The Economist, há possibilidade de os Estados Unidos ficarem mais pobre, menor e menos inovador por causa da fuga de cérebros também das universidades americanas.
Por isso, neste momento, celebrar Bad Bunny e o álbum que tem feito tanto sucesso entre os americanos, além de reconhecer Porto Rico – território americano esquecido e muito desprezado explicitamente por Trump – é também uma resposta.
Assista à íntegra da análise de Leticia Duarte no Matinal desta terça-feira (3):