Reportagem

Pilar del Río, Kakay e Antônio Grassi discutem os desafios comuns de Brasil e Europa

No Lisboa Connection, Pilar del Río, Kakay e Grassi refletem sobre democracia, imigração, cultura e os desafios de Brasil e Europa

por Brenda Gusmão
16/07/2026 às 11:13 · Atualizado há 2 meses
As conexões entre Brasil e Europa em debate no Lisboa Connection
O primeiro Lisboa Connection com plateia (Foto: Amado Mundo)

A aproximação entre Brasil e Europa foi o ponto de partida para uma conversa sobre democracia, cultura e soberania em um cenário internacional marcado pela ascensão de movimentos autoritários e pelo endurecimento de políticas migratórias. No primeiro episódio do Lisboa Connection com plateia, a escritora e presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, e o ator e gestor cultural Antonio Grassi refletiram sobre os desafios comuns enfrentados pelos dois lados do Atlântico.

Gravado durante a Semana do Brasil em Portugal, no Tivoli Hotel, em Lisboa, o programa foi conduzido pelo jornalista Guilherme Amado, publisher do Amado Mundo, e pelo economista Paulo Dalla Nora Macedo, colunista e um dos apresentadores do Lisboa Connection. 

A democracia sob pressão dos dois lados do Atlântico

O crescimento de partidos de extrema direita no Brasil e na Europa serviu de pano de fundo para boa parte da conversa. Em Portugal, o Chega se consolidou como a segunda maior força política no país em 2025, enquanto outros movimentos de perfil semelhante avançam em diferentes partes do continente.

Vivendo em Lisboa há quase cinco anos, o economista brasileiro Paulo Dalla Nora Macedo afirmou que o crescimento do partido Chega reproduz mecanismos semelhantes aos observados no Brasil durante a ascensão do bolsonarismo. Para ele, a combinação entre desinformação nas redes sociais, frustração com respostas insuficientes da democracia e a busca por culpados fáceis cria um ambiente favorável ao avanço de discursos autoritários.

“Aconteceu. O Chega é a segunda maior bancada do parlamento. A base é a mesma do Brasil: desinformação e ressentimento com algumas coisas que a democracia não está entregando. Aí se tem a busca por respostas fáceis para problemas difíceis. ‘Alugar casa em Lisboa é difícil porque tem muito estrangeiro e o preço sobe’. A lógica é a mesma. Todos os outros são comunistas”, explicou.

Segundo Dalla Nora Macedo, embora a estrutura do discurso seja semelhante à brasileira, em Portugal a principal ferramenta de mobilização política não está nas chamadas pautas de costumes, mas na imigração.

“Aqui a ‘mamadeira de piroca’ vira o imigrante. Tem homofobia, mas o agravante de voto é esse. [É a história] da imigrante de Cabo Verde que, pela regularização dela, conseguiu trazer 14 filhos, 12 netos e 32 primos…”, comparou.

Na avaliação de Kakay, esse movimento não pode ser analisado apenas como um fenômeno português. Para ele, o fortalecimento da extrema direita em diferentes países ocorre em um contexto internacional de fragilização das democracias liberais e de tentativas de interferência política entre nações.

“O crescimento da extrema direita é preocupante em todos os lugares, especialmente quando se tem um fascista presidindo o país que até então era o mais forte. Os Estados Unidos estão em franquíssima decadência. Portugal hoje é uma potência, mas a extrema direita aqui cresceu de forma preocupante. As relações entre os países estão mais fragilizadas. A tentativa  [por parte dos EUA] de interferir nas eleições brasileiras merece a atenção do mundo, não só dos brasileiros”, observou.

O imigrante como motor da economia

Pilar del Río direcionou a crítica ao endurecimento recente da política migratória da União Europeia. A presidente da Fundação José Saramago lembrou que, dois dias antes do encontro realizado em 3 de junho, o bloco chegou a um acordo para ampliar as regras de deportação de imigrantes em situação irregular e abrir caminho para a criação dos chamados “centros de retorno” fora das fronteiras da UE.

A proposta, defendida por governos conservadores e criticada por organizações de direitos humanos, prevê o envio de estrangeiros com pedidos de asilo negados para instalações em países terceiros enquanto aguardam deportação. Segundo a escritora, o continente passou a transformar os imigrantes em um problema, quando, na prática, depende da mão de obra estrangeira para manter diferentes setores da economia.

“Um grande problema seria para a Europa e para os Estados Unidos não ter imigrantes. Eles querem chamar de ‘centros de retorno’. São campos de concentração. Em outros países. Na Europa, não. ‘Na Europa, somos muito limpos. Pagamos a outros países para que recebam os imigrantes.’ Campos de concentração, neste momento, aprovados pela União Europeia. Pode-se pedir algo pior? Há algo mais nojento? Sim. O silêncio. O silêncio das pessoas que não saem para protestar, o silêncio dos governos e o silêncio dos meios de comunicação”, ressaltou.

Cultura também é soberania

Para Kakay, a defesa da democracia também passa pela capacidade da arte de preservar o pensamento crítico e criar espaços de encontro em um ambiente cada vez mais polarizado. O advogado afirmou que literatura, poesia e cultura funcionam como formas de resistência diante do avanço do autoritarismo.

“Temos que derrotar o fascismo. Não tem outra saída. E isso passa muito pela arte, pela literatura, pela poesia. Ninguém consegue viver num mundo tão desigual sem esses espaços de reflexão.”

Antonio Grassi defendeu que a cultura deixou de ser um tema periférico para ocupar um lugar central na preservação da democracia e da soberania dos países. Ao recordar sua relação com Cuba, iniciada em 1986 durante o Festival Internacional de Cinema de Havana, o ator e gestor cultural afirmou que o debate sobre política cultural não pode ser separado das disputas geopolíticas e do direito de cada país decidir seus próprios rumos.

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Para Grassi, a experiência passou a ganhar outro significado diante do atual cenário internacional, marcado pelo recrudescimento de sanções econômicas, disputas geopolíticas e ameaças à autodeterminação dos países.

“[É preciso] pautar a soberania como sendo o eixo da conversa sobre diplomacia cultural. Falar de Cuba hoje é fundamental porque, diante dessas ameaças todas, independentemente de gostar ou não de um governo X ou Y, é uma questão de soberania”, defendeu.

Pilar relembrou viagens à Cuba ao lado de José Saramago, com quem foi casada, e destacou que o escritor sempre defendeu o direito de Cuba decidir seu próprio destino sem interferências externas. Para ela, a forma como os Estados Unidos trataram a ilha ao longo das últimas décadas antecipou práticas que hoje se expandem para outras partes do mundo.

“Saramago defendia a autonomia e o direito de Cuba escolher seu futuro. Os Estados Unidos ensaiaram um sistema com Cuba e agora fazem o mesmo em outros países. Sabem que podem impor uma norma [porque] o mundo olhou para o outro lado”, pontuou.

O que Brasil e Europa ainda podem aprender um com o outro?

Ao final da conversa, os convidados voltaram à pergunta guia do encontro: afinal, o que Brasil e Europa ainda podem aprender um com o outro? Para Pilar del Río, esse diálogo passa necessariamente pela formação de cidadãos mais preparados para enfrentar os desafios democráticos.

“Temos que revisar a educação que estamos dando. Se não há cidadãos conscientes que saibam pensar, saibam ler o mundo, seremos vítimas e escravos. Não queremos salvadores. Queremos cidadãos que tomem conta de si mesmos”, afirmou.

Já Kakay defendeu que o Brasil também tem experiências capazes de inspirar outros países.

“O Brasil tem muito o que mostrar para o mundo. Acho que o jeito brasileiro ajuda a enfrentar as dificuldades. E a arte ajuda muito nisso”, disse.

Grassi, por sua vez, acrescentou que esse intercâmbio passa, antes de tudo, pelo reencontro entre as pessoas.

“O olho no olho é a nossa arma mais poderosa. A inteligência artificial é um avanço, mas não substitui o talento e a energia do contato presencial. [Podemos] aproveitar o que há de positivo nesses avanços, mas sem perder a nossa humanidade”, concluiu.

Assista ao Lisboa Connection com Pilar Del Río, Kakay e Antonio Grassi:

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