Entrevista

Gerusa Falcão: ‘Quando você trabalha com o setor público, o cliente indireto é o cidadão’

Gerusa Falcão relata, ao Quem Lidera, trajetória marcada por superação e fala sobre liderança, tecnologia e os desafios da G4F no setor público brasileiro

30/06/2026 às 18:56 · Atualizado há 2 meses
Gerusa Falcão em entrevista ao Quem Lidera
Gerusa Falcão em entrevista ao Quem Lidera (Foto: Amado Mundo)

Gravidez na adolescência, câncer aos 20 anos, um acidente de carro que a deixou um ano sem andar e uma carreira construída em um ambiente historicamente dominado por homens. Para Gerusa Falcão, CEO e cofundadora da G4F, nenhum desses episódios foi suficiente para interromper uma trajetória que a levaria ao comando de uma das maiores empresas de tecnologia voltadas ao setor público no Brasil.

“Venci o câncer. Menos de um ano depois, tive um acidente de carro muito grave. Tive que reaprender a andar. Ainda assim, não desisti”, contou em entrevista ao Quem Lidera, videocast do Amado Mundo e da Talent Academy.

Fundada em 2009 por Gerusa e pelo marido, Elmo Lacerda, a G4F nasceu da combinação entre experiência em gestão pública, tecnologia e empreendedorismo. Hoje, a empresa reúne mais de 10 mil colaboradores, atua em todo o país e atende organizações como Petrobras, BNDES, Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Ministério da Educação, entre outros.

O alerta de Gerusa Falcão

Ao longo da conversa com os jornalistas Guilherme Amado e Renata Betti, a executiva falou sobre os desafios de empreender em um setor marcado por burocracia e alta complexidade regulatória, a importância da resiliência na construção de uma carreira, os obstáculos enfrentados por mulheres em posições de liderança e os cuidados necessários para garantir a sucessão e a perenidade de empresas familiares.

“Pode ser que apareça alguém bacana que te ajude, mas se não  levantar e sacudir a poeira, você não vai seguir adiante”, afirmou.

O programa Quem Lidera, do Amado Mundo em parceria com a Talent Academy, consultoria de gestão e desenvolvimento de talentos, foi criado para discutir o papel das lideranças em um cenário de transformações constantes no mercado de trabalho. A cada edição quinzenal, o videocast recebe CEOs e executivos de grandes empresas brasileiras para debater temas como tomada de decisão, cultura organizacional, inovação e os desafios de conduzir equipes em contextos de pressão e mudança acelerada.

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A seguir, os principais trechos da entrevista. Confira a íntegra em vídeo ao final do texto.

O que te levou a trabalhar com o poder público em um país desafiador como o Brasil?

É o segmento que eu mais conhecia, de onde vim e por onde estive um bom tempo da minha vida profissional. Entendi que o governo sempre precisa contratar. Por toda burocracia, questão orçamentária e tudo que passa no processo, ele não consegue contratar profissionais na mesma velocidade de que precisa. Enxerguei uma oportunidade. Outra coisa que sempre me motivou é que, quando você trabalha com tecnologia para o setor público, você entrega para o governo, mas, na verdade, você está tendo um cliente indireto muito importante, que é o cidadão brasileiro. É claro que a empresa precisa ter a questão financeira, mas esse segundo ponto pesou muito e é muito satisfatório. 

Como foi o início da sua trajetória?

Engravidei muito cedo [aos 16 anos]. O fato de eu ter sido mãe cedo não prejudicou, pelo contrário, aumentou ainda mais o sentimento de que queria ser uma mulher independente e ter o meu espaço. Queria ser diferente. Terminei o ensino médio e fui fazer uma faculdade de direito. Nunca tive a pretensão, apesar de gostar muito, de seguir uma carreira jurídica. Depois disso, cursei administração. Comecei a me identificar um pouco mais com questões relacionadas à liderança e estratégia.

Lá por 1997, nos mudamos para Brasília e passei no concurso do Banco do Brasil. Um gerente de uma agência grande de Brasília, acho que ele viu potencial, e falou: “Gerusa, você tem vontade de sentar na minha cadeira?”. Aí respondi: “Com certeza, tenho”. Fiquei um pouco desconcertada, mas ele disse: “Senta, para ver como você se sente”. Aquilo foi muito importante, porque pensei: “Vou investir em mim e vou conseguir”. 

[Antes] quando tinha começado a faculdade, achei que estava grávida e descobri que era um câncer. Tinha 20 anos e já tinha uma filha de 3. Foi um choque, tive que fazer quimioterapia, uma série de coisas. Tinha tudo para parar. Casei com uma pessoa que tinha uma condição financeira muito boa. Se quisesse não trabalhar e simplesmente cuidar dos meus filhos [poderia]. Mas eu tinha aquela inquietação [de querer] ocupar um espaço. Venci o câncer, menos de um ano depois tive um acidente de carro muito grave, fiquei toda comprometida. Mais um ano de cama. Tive que reaprender a andar. Ainda assim, não desisti. 

E a entrada na tecnologia?

Sempre digo que a minha carreira não foi planejada. Ela foi movida por essa inquietação que sempre tive de fazer algo que não sabia bem o que era, mas sabia que queria fazer mais. [Vi] que estava tendo muita oportunidade na área de tecnologia. Entendi que uma porta de entrada seria aprender a programar. Sozinha, fui aprender com um livro. Me matriculei em uma pós-graduação de gestão de tecnologia. Fui terceirizada, na época, do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Passei pela Petrobras, onde fui parar na unidade de engenharia submarina, nada a ver com a minha área de conhecimento. [Novamente], não era o que queria. Um dia, o meu esposo chegou para mim e disse: “Vamos fazer uma virada de chave na nossa vida, usar o seu conhecimento em gestão, setor público e tecnologia, e a minha veia empreendedora para criar uma empresa? Olhei para ele e falei: “Você está louco?”. [Hoje], vejo que a decisão mais acertada da minha vida foi a G4F, ter uma empresa de tecnologia que prestasse serviços para o setor público. 

Foram muitas dificuldades, enquanto mulher em um segmento que era predominantemente masculino, principalmente em cargos de liderança. Precisei vencer barreiras desde o início, mostrar que não era só mais um rostinho feminino, era uma pessoa competente, uma pessoa preparada e que estava disposta a entregar os melhores resultados. Levei isso para a G4F. 

Em que medida você acha que aquele gerente lá de trás, que olhou para você e falou “quer sentar nesse lugar?”, foi importante para você ter confiança para se tornar uma líder?

Foi muito importante o que esse gerente fez, porque vi que estava sendo notada. Foi um momento de grande transformação no banco, entrando muita gente jovem. Ver que ele me notou em tão pouco tempo, de uma forma profissional, para mim foi muito importante. Ao longo da minha carreira, se você me perguntar de líderes e gestores que marcaram, eu tive alguns e todos são homens. A única gestora mulher que tive, teve um efeito exatamente contrário. Ela nunca me incentivou e nunca entendeu que, apesar de ser mulher e ter quatro filhos, eu poderia entregar muito resultado.

Que conselhos você daria para mulheres na área de tecnologia?

Estudem muito, porque com conhecimento você cria repertório e uma base consistente que ninguém tira de você, para você se diferenciar. Acredite em você, não deixe julgamento, seja da sociedade, seja de colegas de trabalho ou de pessoas, te desanimarem. As dificuldades vão vir. Pode ser que apareça alguém bacana que te ajude, mas, se não  levantar e sacudir a poeira, você não vai seguir adiante. 

O que você quer deixar de legado?

Quero criar uma empresa sólida, sustentável, que atravesse gerações. Lá na frente, talvez quando não estiver mais nesse mundo ou quando já estiver aposentada, que os meus netos olhem para trás e reconheçam o que os avós fizeram. Quero que todo mundo que trabalha na G4F, além de ter orgulho da empresa, tenha a certeza de que é parte dessa construção e que sim, enquanto CEO da G4F, me sinto responsável pelas vidas dos nossos colaboradores e das famílias. 

Quais são os desafios de liderança numa empresa familiar?

O grande desafio, eu acho, o primeiro grande desafio de uma empresa familiar, é como você preserva as relações familiares e preserva também o crescimento e a perenidade da empresa. A minha família é o meu alicerce, mas a G4F também é muito importante. Nunca vou querer ter uma empresa que desagregue a minha família, que tenha briga, que tenha divergências sérias. Quero a família unida, e sou muito agregadora.

O que eu tenho que fazer para isso? Eu tenho que investir, profissionalizar a gestão da empresa. Apesar de, hoje, ter dois filhos que ocupam cargos executivos, eles não estão lá porque são filhos dos fundadores. Eles estão lá por mérito, vieram do mercado. Essa foi minha primeira preocupação. Não basta ser filho do dono para estar aqui. Tem que se encaixar, tem que ter competência.

Qual a sua visão sobre a sucessão em uma empresa familiar?

A sucessão tem que ocorrer, mas ela tem que ser feita de forma estruturada e de forma profissional. O grande erro de muitas empresas é simplesmente querer que alguém da família sente, talvez um filho, e automaticamente a pessoa é colocada sem estar apta ou até mesmo querer isso. O planejamento sucessório tem que ser feito com profissionalismo. Com isso, consigo preservar a minha família e consigo preservar também a saúde e a perenidade da empresa.

Profissionalização da gestão, governança e manutenção da cultura e dos valores que constroem a empresa. Esses três pilares vão garantir que essa empresa atravesse gerações.

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