Ações do ICE em Minneapolis: brasileiros sentem ‘medo e assombro’, relata professora
Para a brasileira Kathya Cibelle Dawe, a truculência do serviço de imigração afeta não só imigrantes, mas toda a população; nesta quarta, Trump anunciou a retirada de 700 agentes da região

Nas últimas semanas, Minneapolis — cidade do estado americano de Minnesota que ficou marcada pelo brutal assassinato de George Floyd, em 2020 — voltou ao centro do debate público, agora por causa de operações do ICE, a polícia de imigração americana, acusada de abusos e violações de direitos civis.
Dois incidentes fatais envolvendo cidadãos americanos levaram moradores às ruas em protesto: em 7 de janeiro, Renee Nicole Good foi alvejada e assassinada dentro do carro durante uma ação do ICE, e, duas semanas depois, o enfermeiro Alex Pretti também foi morto após participar de protestos contra os agentes.
As mortes e os protestos pressionaram a Casa Branca a rever a estratégia para o uso de agentes federais e, nesta quarta-feira (4), Trump anunciou a retirada de 700 agentes do ICE de Minnesota.
Professora de Direitos Humanos da University of St. Thomas, em Minneapolis, a brasileira Kathya Cibelle Dawe analisa a escalada de violência nas operações do ICE e conta que o clima geral, inclusive entre brasileiros, é de “de surpresa e medo”.
“Existe uma sensação de assombro: como isso pode estar acontecendo em um estado conhecido por ser pacífico, especialmente poucos anos depois do assassinato de George Floyd?”, detalha a professora.
“As pessoas estão muito preocupadas, cansadas, sobrecarregadas de informações e de imagens violentas”, completou.
Confira abaixo seguir os principais trechos da entrevista.
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Como está o clima em Minneapolis neste momento, diante das ações do ICE e da volta da cidade ao centro do noticiário? O que mudou desde os protestos do caso George Floyd e o que permanece?
Tenho observado em Minneapolis um clima generalizado de apreensão. As pessoas estão mais nervosas para circular pela cidade, independentemente do seu status imigratório. Isso não afeta apenas os imigrantes indocumentados, mas a população em geral. Há mais cautela para sair de casa, e isso também impacta o comércio, porque nem todo mundo trabalha remotamente. Quem atua em serviços, como restaurantes e construção civil, precisa se deslocar presencialmente, e tem ocorrido de muitas pessoas simplesmente não irem trabalhar por medo de circular, mesmo quando possuem status migratório regular.
Do Brasil, chama a atenção a mobilização da própria sociedade civil em defesa dos imigrantes e contra as ações do ICE. Isso é algo fora da curva ou já era esperado em Minneapolis? Como funciona essa organização da sociedade civil?
Para mim, não foi surpresa. Minneapolis e o estado de Minnesota têm uma reputação de acolhimento, existe até um clichê local, o “Minnesota Nice”, que remete à ideia de que as pessoas são gentis e receptivas, tanto com quem vem de outros estados quanto de outros países. Sempre há exceções, claro, mas de modo geral é um lugar que acolhe imigrantes. Por isso, não me surpreendeu ver pessoas protestando contra as ações do ICE, que têm sido bastante truculentas aqui na região. As igrejas e organizações não governamentais estão funcionando como hubs de solidariedade: arrecadam fundos, alimentos e itens de primeira necessidade para distribuir a pessoas que estão em casa, com medo de sair e sem poder trabalhar. Existem também redes para levantar dinheiro para pagar aluguel, já que muitas dessas pessoas ficaram sem renda. Isso revela uma grande resiliência do povo de Minnesota. Aqui é muito frio — hoje, por exemplo, está fazendo 20°C negativos —, e as pessoas estão acostumadas a enfrentar condições climáticas adversas. Nesse sentido, o ICE encontra uma desvantagem, porque muitos agentes não estão habituados ao inverno intenso.
É cabível comparar esse tipo de mobilização social com o Brasil? A sociedade brasileira reagiria de forma semelhante?
Comparações entre países são sempre difíceis. No Brasil, vimos ao longo dos anos diversas manifestações populares, assim como aqui, que expressam posicionamentos políticos e sociais. O que se vê nas ruas são manifestações pacíficas, com pessoas de diferentes classes sociais. Elas ocorrem como resposta a ações violentas, inclusive contra cidadãos americanos. Houve, por exemplo, o caso de Chong Li Tao, cidadão americano nascido no Laos, que foi retirado de casa à força algemado, de samba-canção e sandálias, e só depois verificaram que ele era cidadão dos Estados Unidos. Outro caso foi o de Mubashir Hussein, de 20 anos, detido brutalmente durante o intervalo do almoço, jogado na neve e levado para um centro de detenção, mesmo afirmando que era cidadão americano. Ele só foi liberado após conferirem sua identidade — e ainda assim mandado voltar para casa a pé, em meio ao frio extremo. Esses erros têm se acumulado, e há uma preocupação crescente entre professores, acadêmicos e juristas com a proteção dos direitos civis e das garantias legais.
Como a comunidade brasileira tem reagido a esse cenário?
Entre os brasileiros, o sentimento predominante é de surpresa e medo. Existe uma sensação de assombro: como isso pode estar acontecendo em um estado conhecido por ser pacífico, especialmente poucos anos depois do assassinato de George Floyd? As pessoas estão muito preocupadas, cansadas, sobrecarregadas de informações e de imagens violentas. Algumas evitam conversar e até de se informar mais, porque isso gera esgotamento emocional. Há quem esteja pensando em deixar o país temporariamente ou de forma definitiva.
Esse desgaste é real e afeta o engajamento das pessoas.

Qual é a posição do governo local diante dessas operações?
Existe um conflito entre os governos federal, estadual e municipal. O federal pressiona para que a polícia local colabore com as ações migratórias. Mas, por lei, a polícia não tem obrigação de atuar em imigração. A função constitucional da polícia é investigar e prevenir crimes. A imigração é uma atribuição exclusiva do ICE. Esse é o argumento tanto do governador quanto do prefeito de Minneapolis. Eles afirmam que não vão parar cidadãos no trânsito para checar status migratório. Além disso, Minneapolis tem apenas cerca de 600 policiais para uma cidade de 430 mil habitantes — um número já insuficiente. Desde os protestos de 2020, o efetivo diminuiu e nunca foi recomposto. O governo federal também solicita acesso a bases de dados, como listas de eleitores, usuários do Medicaid e beneficiários do programa de assistência alimentar. Minneapolis é uma cidade-santuário, ou seja, a polícia local não colabora com o ICE. O estado de Minnesota, como um todo, não é oficialmente um estado-santuário, mas a justificativa do prefeito é clara: não há pessoal nem obrigação legal para assumir funções migratórias. Do ponto de vista jurídico, considero as posições do prefeito e do governador bastante razoáveis e fundamentadas. Enquanto isso, o ICE recebeu um orçamento de cerca de US$ 170 bilhões para quatro anos — mais de 40 bilhões por ano —, o que mostra que recursos não são o problema. O FBI, por exemplo, recebe cerca de US$ 11 bilhões. Ou seja, capacidade financeira eles têm. O que está em disputa é a forma como esse poder está sendo exercido.
Do ponto de vista jurídico, há diferenças em relação a governos anteriores que também promoveram deportações?
Governos anteriores deportaram, mas respeitavam mais estritamente as regras jurídicas. O devido processo legal era observado: a pessoa tinha direito a se defender, a ter seu caso analisado por um juiz de imigração ou pela agência administrativa responsável, que decidia se havia mérito para permanência ou não. Hoje, temos relatos frequentes de pessoas detidas sem acesso a advogado. Muitas são transferidas imediatamente para outros estados, como Texas, Louisiana ou Nova Jersey, o que dificulta o contato com familiares e defensores. Outro ponto é a forma de atuação dos agentes. Antes, eles eram identificados, com crachá e rosto descoberto. Hoje, muitos atuam mascarados, com vestimentas militares e sem identificação. Há inclusive relatos de crimes cometidos por pessoas se passando por agentes federais, o que gera ainda mais insegurança. Fica muito difícil saber se quem está te abordando é realmente um agente do governo ou alguém se aproveitando da situação. Sem mencionar o fato de direito a integridade física, uso excessivo da força e separação familiar, práticas que já aconteciam, mas que agora me parecem mais intensas. O ICE tem autoridade legal para aplicar a lei migratória, mas a grande discussão hoje é a forma como isso está sendo feito. A repercussão e os protestos se devem justamente à percepção de que essas ações não estão sendo conduzidas de acordo com os princípios jurídicos e constitucionais dos Estados Unidos.
Assista à íntegra da entrevista da professora para o Matinal: