Entrevista

Ricardo Lacerda: a coragem de empreender na crise e os bastidores do mercado financeiro

No Quem Lidera, videocast do Amado Mundo, o CEO do BR Partners, Ricardo Lacerda, fala sobre fundação do banco na crise de 2008, Master e perspectivas para 2026

22/06/2026 às 14:27 · Atualizado há 2 meses
Lacerda
Ricardo Lacerda, CEO e fundador do BR Partners (reprodução/Quem Lidera)

CEO e fundador do BR Partners, o executivo Ricardo Lacerda defende um modelo de liderança baseado no alinhamento de interesses com os clientes, na paixão pelo negócio e no otimismo em relação ao país. Em entrevista ao Quem Lidera, videocast do Amado Mundo sobre liderança, o executivo abriu os bastidores de sua carreira no mercado financeiro, desde os tempos como executivo em bancos internacionais até a criação de seu próprio negócio. 

Leia também: A primeira CEO de uma mineradora no Brasil: da maternidade ao comando de equipes globais

Durante a conversa com os jornalistas Guilherme Amado, publisher do Amado Mundo, e Renata Betti, da Talent Academy, Lacerda detalhou como fundou o banco logo após a eclosão da crise global de 2008, um passo considerado “contraintuitivo”. Ele também abordou suas experiências de negociação com grandes nomes da economia brasileira, a cultura corporativa que fez do BR Partners o maior banco de investimentos independente da América Latina e o seu hobby de pilotar aviões. 

“Qualquer empreendedor no Brasil que não seja otimista está morto. Você tem que ser otimista, e muito otimista”, afirmou o executivo. 

Lacerda aprende com fraudes e desafios políticos

Questionado sobre as turbulências do mercado, Lacerda fez críticas à atuação dos órgãos reguladores no escândalo do Banco Master e classificou o caso como uma grande fraude que expôs omissões na fiscalização. O CEO da BR Partners também analisou o atual cenário de polarização política brasileiro, traçando as vantagens e os riscos institucionais nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. 

O Quem Lidera foi pensado pelo Amado Mundo em parceria com a Talent Academy, consultoria de gestão e desenvolvimento de talentos, para discutir o papel das lideranças diante das transformações do mercado contemporâneo. Quinzenalmente, o programa recebe CEOs e executivos de grandes empresas brasileiras para conversar sobre tomada de decisão, cultura corporativa, inovação e os desafios de gerir equipes em cenários de pressão constante.

Leia a seguir os principais trechos da conversa. E confira a íntegra em vídeo ao fim do texto.

*****

RENATA BETTI: Qual foi o ponto de virada na sua carreira, em que você entendeu que não queria mais seguir o mundo corporativo tradicional e queria criar o seu próprio negócio, ainda mais num momento contraintuitivo pós-crise de 2008?

Eu sempre tive o desejo de empreender, de começar um negócio novo. Em 2008, eu estava no Citi (Citibank) e a ação do banco derreteu de 58 dólares para 80 centavos. A gente viu o colapso da Lehman Brothers e da Bear Stearns. Foi quando eu achei que esse poderia ser o momento, porque estava tudo diferente. Realmente não era muito intuitivo fazer um banco naquele momento de peso regulatório, mas eu achei que passar por essa “via crucis” de conseguir a licença do Banco Central e montar um negócio regulado teria um valor no futuro se fizéssemos com seriedade. 

GUILHERME AMADO: Você negociou com figuras históricas do PIB brasileiro nas últimas décadas, como Abílio Diniz, André Esteves e os dois Júlios (da Hypera e Amil). Quem você achou o melhor negociador ou quem mais te impressionou?

É difícil apontar um único nome. O que eles têm em comum é uma paixão pelo que fazem e uma vontade de sempre estar construindo e vencendo. Cada um deles é um aprendizado. O que eu acho fascinante no Brasil é que, até o início dos anos 2000, tínhamos uma economia fechada e um ambiente totalmente inóspito, com hiperinflação e burocracia. De repente, vimos florescer empreendedores incríveis. Se o cara conseguiu sobreviver a tudo isso e transformar suas empresas, é porque realmente tem que ser muito bom.

GUILHERME AMADO: Não dá para entrevistar um banqueiro hoje no Brasil e não falar do Banco Master. O que tem de oportunidade para vocês aprenderem com essa crise?

O grande aprendizado é que quando algo parece estranho, normalmente é estranho. Está se configurando uma grande fraude, um esquema para levantar recursos no mercado sem investir corretamente, e grande parte do dinheiro sumiu. O aprendizado maior é para o regulador, que foi omisso.

Uma lição que todo regulador brasileiro tem que ter é que ele não pode existir para infernizar a vida de quem cumpre regras e não fazer nada contra quem não cumpre. Muitas vezes a CVM (Comissão de Valores Imobiliários) implica com a terceira vírgula do release de uma empresa, enquanto passa um elefante na sala e ninguém fala nada. 

GUILHERME AMADO: Como é que você está vendo esta eleição de 2026 e a polarização entre esquerda e direita no país?

Você tem duas candidaturas consolidadas: a reeleição do presidente Lula e a candidatura do Flávio Bolsonaro. Assumindo um segundo turno entre os dois, acho que o presidente Lula ainda é o favorito, porque tem a cadeira e a experiência, embora falte a ele um foco na questão fiscal, o que pode piorar a economia.

Já uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro pode ser um pouco melhor do lado econômico de curto prazo, mas pode trazer problemas institucionais incertos, como o fato de ele ter o pai na prisão querendo sair e possivelmente brigando com o Supremo. O que pode ser melhor na economia, pode ser muito pior no lado institucional.

PLAYLISTS
PUBLICIDADE
Publicidade