Influência de Trump na Colômbia foi pequena, e tende a ser igual no Brasil, diz especialista
Clifford Young, do Instituto Ipsos, afirma que fatores estruturais, e não a influência de Donald Trump, explicam o avanço de candidatos de direita na América Latina

A vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia reacendeu uma discussão em toda a América Latina: qual é o tamanho da influência de Donald Trump fora dos Estados Unidos? Em entrevista ao Matinal desta terça-feira (23/6), Clifford Young, presidente de pesquisas e tendências sociais da Ipsos nos Estados Unidos e professor na Johns Hopkins University, avalia que o apoio declarado do republicano ao candidato colombiano teve peso secundário no resultado.
Segundo Young, o que decidiu a eleição colombiana foi a centralidade do tema segurança pública — historicamente favorável à direita —, somada ao desgaste de um governo de esquerda sem candidato à reeleição direta. Para ele, o que se vê na região não é propriamente uma onda conservadora, mas um sentimento antissistema que atravessa o espectro ideológico e que, no caso brasileiro, tende a pesar pouco na disputa entre Lula e a candidatura de Flávio Bolsonaro.
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O especialista também comentou a queda na popularidade do próprio Trump dentro dos Estados Unidos, hoje abaixo dos 40% de aprovação, e como o tarifaço e episódios como a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas têm repercutido — ou não — entre o eleitor brasileiro comum.

Confira os principais trechos da entrevista:
Quando você participou do programa em janeiro, Trump enfrentava índices de aprovação muito baixos. Agora, o vemos comemorando o resultado da eleição na Colômbia como se fosse uma vitória de sua influência na região. Ele está com mais força fora de casa do que dentro?
Vamos focar primeiro no Trump nos Estados Unidos. Ele vem caindo desde então: quando conversamos da última vez, ele estava na faixa dos 45 pontos de aprovação; agora está abaixo de 40. Eu chamo isso de ponto de inflexão, o momento em que o governo começa a ter mais dificuldade para empurrar sua agenda. Se ele fosse candidato — o que obviamente não é — teria menos de 50% de chance de vencer a próxima eleição. Ou seja, ele está enfraquecendo nos Estados Unidos, e isso vale também para a percepção global: a favorabilidade do país está de 20 a 30 pontos abaixo dos tempos do governo Biden.
Eu concordo que há uma tendência política global, só que essa tendência não é exatamente para a direita ou para a esquerda, é um sentimento anti-sistema. No Brasil, na América Latina, no mundo, há uma maioria de pessoas que acredita que o sistema está quebrado, que não funciona para a pessoa comum, que a elite tira vantagem disso. Esse sentimento vem sendo observado há mais de uma década. É o que o Trump surfa, é o que se viu na Colômbia, é o que Bolsonaro surfou no Brasil.
O que pesou mais: o apoio declarado de Trump ao candidato, o desgaste do governo de Gustavo Petro, ou temas como segurança pública e narcotráfico?
Foram todos menos Trump. No fundo, o que pesou mais foi a questão da segurança pública. A gente sabe, com base em um estudo que fizemos na Ipsos com mais de mil eleições no mundo, que o candidato percebido como mais forte em relação ao principal problema do país ganha, em média, 85% das vezes. Nessa eleição, a direita, que normalmente é vista como mais forte em segurança pública, levou a melhor.
Além disso, há uma questão estrutural: não havia um candidato à reeleição concorrendo de novo. Quando você tem um sucessor de um governo com aprovação em torno de 40%, esse sucessor tem, em média, algo como 30% de chance de vencer. Ou seja, os fatores decisivos foram estruturais, e não o Trump. Se você fizer um grupo focal na Colômbia, no México ou no Brasil sobre o dia a dia das pessoas, elas quase nunca mencionam o Trump. Mencionam crime, a dificuldade de comprar as coisas. Os Estados Unidos ficam bem longe da cabeça das pessoas.
Nos últimos meses, vimos as ações de Trump entrarem direto na discussão política do Brasil. No ano passado, o tarifaço gerou uma resposta de soberania do governo Lula, que recuperou força nas pesquisas; agora, com a ida de Flávio Bolsonaro aos EUA e a ameaça de um novo tarifaço, é a direita que sai mal na fita. Existe alguma peculiaridade brasileira nisso?
Eu acho que não. A reação do ano passado fazia todo sentido. Havia outro país tentando interferir diretamente no seu próprio país, e qualquer pessoa, rica ou pobre, tende a apoiar no curto prazo o seu próprio governo, o seu próprio presidente nesse cenário. A gente viu isso com Lula: a aprovação dele melhorou uns dois ou três pontos. É difícil isolar exatamente o efeito, mas foi por aí.
O mesmo vale para casos como a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Isso pesa para a elite, para a imprensa, mas pesa muito pouco na cabeça do eleitor comum. Pode aparecer pontualmente em um grupo focal, mas no fundo o brasileiro está pensando em colocar comida na mesa, em se sentir seguro nas ruas. Isso afeta a narrativa entre as elites, mas tem pouco peso no nível do eleitor. Ainda que a direita, seja Flávio, seja outro candidato, vá tentar usar esse discurso para reforçar sua própria mensagem.
Há um sentimento anti-Trump forte no Brasil desde o tarifaço do ano passado. O apoio reforçado de Trump ao nome Bolsonaro pode estar prejudicando a oposição?
Eu também acho que não. De novo, é uma conversa que fica mais entre as elites do que no nível do eleitor comum, que está preocupado com o dia a dia. E vale lembrar que a campanha nem começou de fato. Esse tipo de ida e vinda dos candidatos é normal nesse momento, e o que a gente chama de “spots”, a propaganda partidária, normalmente tem efeitos positivos ao longo do tempo, fazendo as pesquisas oscilarem.
Por isso eu diria para não dar peso excessivo ao que está acontecendo agora. O caso do Banco Master, sim, teve um efeito negativo claro sobre Flávio Bolsonaro nas pesquisas — isso é fato. A grande questão para nós, analistas de opinião pública, é até que ponto esse efeito vai durar. É muito difícil dizer nesse momento: ainda falta a Copa do Mundo, depois a corrida eleitoral começa de verdade. Até agora, eu diria que pesa, mas pesa pouco.
O quanto pautas como a isenção do Imposto de Renda e o fim da escala 6×1 pesam de fato na eleição?
Sem comunicação, essa atribuição fica mais difusa. Mas durante a campanha, o time do Lula vai martelar muito essa questão. É preciso lembrar que, no início do ano, os dois principais problemas apontados eram corrupção e segurança pública, temas que tendem a favorecer a direita. A grande pergunta era o que a campanha de Lula faria a respeito.
Eu acho que a leitura deles é a seguinte: essa vai ser uma eleição apertadíssima, como em 2022, quando a diferença entre Bolsonaro e Lula foi mínima. E, nesse cenário, a campanha em si vai importar muito. Então, mesmo políticas que não estão diretamente ligadas a corrupção e segurança, mas que afetam o dia a dia do brasileiro, podem fazer diferença: ganhar um ponto aqui, outro ali, pode ser suficiente para decidir a eleição. Se eu fosse estrategista da campanha deles, essa seria minha aposta: reforçar a ligação entre as políticas públicas do governo Lula e a melhoria das condições de vida no dia a dia da população.
Assista à entrevista completa no Matinal: