Escalada no Irã expõe vulnerabilidade de defesa europeia e vira trunfo político na Espanha
Situação do continente é de muita pressão, pois não há capacidade militar compatível com sua importância, risco, tamanho ou riqueza, à exceção da França

A eclosão de um novo e imprevisível conflito no Oriente Médio coloca a Europa diante de suas próprias vulnerabilidades históricas. A situação do continente é de muita pressão, pois não há capacidade militar compatível com sua importância, risco, tamanho ou riqueza, à exceção da França. A dependência histórica em relação aos Estados Unidos e à OTAN se mostra frágil no cenário atual. A Europa financia a guerra na Ucrânia, mas os armamentos são comprados dos Estados Unidos.
A possibilidade de o conflito atingir a Europa já é real, com o risco geopolítico se aproximando de locais como o Chipre. No entanto, uma guerra terrestre no continente é improvável devido às limitações bélicas do Irã. Já resquícios de mísseis ou mesmo ataques a interesses europeus no Oriente Médio são cenários possíveis e prováveis.
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A ausência de alternativas de resposta forçará o continente a acelerar o investimento em defesa própria. O movimento de militarização já está consolidado e ganha tração entre todas as forças políticas, à esquerda e à direita.
Governo espanhol capitaliza oposição a Trump
Já na Espanha, as ameaças dos Estados Unidos viraram capital político doméstico. O primeiro-ministro, Pedro Sánchez, se beneficia do embate com Trump para promover a união do país, ajudando a superar uma situação política delicada marcada por uma maioria parlamentar apertada e escândalos no governo. A escolha de se posicionar como o principal líder europeu de oposição a Trump foi uma manobra política inteligente e alinhada ao seu perfil progressista.
Esse distanciamento da Casa Branca é evidente em diversas frentes. Sánchez não foi convidado para reuniões restritas com Trump. A Espanha também foi o único país importante da União Europeia a rejeitar o aumento dos gastos de defesa para 5% do PIB. Além disso, o governo espanhol adota uma política imigratória diretamente oposta à americana, promovendo a regularização de quase um milhão de imigrantes em três anos. A abertura para a imigração atende à necessidade vital de repor a força de trabalho em um país com a população envelhecida.
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Essa postura de antítese aos Estados Unidos gera frutos concretos. A Espanha apresentou um dos melhores desempenhos de crescimento econômico e de aumento de renda no último ano. As bravatas de Trump, portanto, acabam funcionando como um grande trunfo favorável ao governo espanhol.
O retorno do capital imobiliário e a ameaça energética
A escalada bélica também deve redesenhar o fluxo de capitais no setor imobiliário e de turismo de luxo. Mercados como Dubai e Abu Dhabi atraíram muitos investidores europeus para a compra de segundas residências e propriedades em ilhas artificiais nos últimos anos.
O risco de mísseis atingirem a região do Oriente Médio deve diminuir drasticamente a atratividade desses locais. Esse cenário de instabilidade tende a gerar um reflexo positivo e imediato para a Europa, que pode recuperar os investimentos de alto padrão em imóveis, turismo, hotéis e restaurantes.
Somado a essa realocação de capital, o continente ainda precisará lidar com os desdobramentos econômicos e as ameaças contínuas relacionadas ao fornecimento de gás pela Rússia.
Assista à íntegra da análise de Paulo Dalla Nora Macedo ao Matinal desta quinta-feira (5):