Trump desafia Suprema Corte e distorce dados econômicos, em ‘prévia’ de campanha eleitoral
Presidente proferiu o tradicional discurso do Estado da União em meio a impasse bilionário sobre reembolsos de tarifas consideradas ilegais, ações judiciais de empresas e crescente instabilidade econômica e geopolítica

Em uma prévia do que será a campanha para as eleições de meio de mandato, o presidente Donald Trump fez nesta terça-feira (25) o tradicional discurso do Estado da União — espécie de prestação de contas com o Congresso americano — e usou sua fala para vender uma narrativa sobre suas conquistas e, apresentando, como bem definiu o New York Times, uma “imagem cor-de-rosa” do país, dizendo que os Estados Unidos voltaram a vencer e que estão melhores do que nunca.
Durante a fala, repetiu acusações infundadas de fraude eleitoral, acusando os democratas de estarem por trás desses delitos, e voltou a atacar os imigrantes e a própria Suprema Corte pela decisão de considerar as tarifas ilegais.
Clima de campanha é maior que críticas internas de republicanos
Mesmo com quatro juízes da Suprema Corte presentes na plateia durante seu discurso, Trump criticou a Corte e sinalizou que as tarifas vão continuar. Ele também tentou mostrar que a economia vai bem, distorcendo dados e exagerando a inflação herdada do governo Biden para pintar uma imagem favorável de si mesmo.
Essas táticas são conhecidas: o uso de dados distorcidos e mentiras descaradas para antecipar seu discurso de campanha.
Apesar de vários membros do Partido Republicano terem criticado o Trump nos últimos meses, ele foi aclamado e muito aplaudido durante o discurso, com muitos gritos de “USA”. O clima de campanha hoje, portanto, é maior do que eventuais críticas internas.
No momento, o Partido Republicano tenta se unir para evitar a perda do controle do Congresso, já que hoje dominam em ambas as casas. No entanto, já existem prévias sugerindo que eles devem perder o controle de pelo menos uma delas, a Câmara, para os democratas.
Reembolsos bilionários e calote a pequenos empresários
Existe agora um novo questionamento sobre o uso das novas justificativas de Trump, que passou a invocar a Lei do Comércio de 1974 para sustentar as tarifas. Especialistas questionam se as condições atuais seriam adequadas para invocar essa legislação.
Além disso, há o gravíssimo problema dos reembolsos. O governo Trump havia se comprometido com o ressarcimento de empresas caso as tarifas fossem consideradas ilegais, o que ajudou a manter as taxas vigentes até a decisão do Supremo. No entanto, agora o governo sinaliza que não tem o desejo de ir adiante com os pagamentos, o que gerou uma onda litigiosa judicial. São mais de mil empresas, incluindo gigantes como a Fedex, que já entraram na Justiça. Como a Suprema Corte não detalhou como o governo deveria devolver os valores, essa decisão ficará a cargo de um tribunal inferior.
Especialistas estimam que o ressarcimento possa chegar a US$ 175 bilhões.
Essa instabilidade é tudo que os empresários não querem, visto que um fator importante para a economia internacional é justamente a previsibilidade nas negociações. Alguns analistas consideram que os danos são irreversíveis, porque, principalmente para os pequenos produtores e empresários, é capaz de eles nunca verem esse dinheiro de volta. Na prática, observa-se os americanos estão pagando o preço dessas tarifas, porque são as empresas aqui que têm que comprar os produtos mais caros e repassar isso ao consumidor. No mercado externo, há países buscando outras rotas e caminhos para fazer essa negociação sem os Estados Unidos. E quem acaba se fortalecendo é a China.
A narrativa política que o partido Republicano está usando é que essas tarifas existem para beneficiar os americanos, enquanto os democratas reforçam que quem paga o preço, no fim do dia, são os americanos. No longo prazo, no entanto, isso deve modificar a geopolítica internacional e enfraquecer os Estados Unidos.
Assista à íntegra da análise de Leticia Duarte no Matinal desta terça-feira (25/2):