Pais, mães e as histórias da origem dos convidados que marcaram o Papo Amado em 2025
Djamila Ribeiro, MC Hariel, Gregório Duvivier e outros entrevistados responderam à mesma pergunta e revelaram como família, afeto, ausências e conflitos moldaram suas trajetórias

Uma pergunta simples feita ao longo de toda a primeira temporada do Papo Amado pode ser considerada o ponto de conexão entre as diferentes entrevistas: “quem são seus pais?”
Longe de buscar respostas puramente biográficas, ela abre espaço para memórias que ajudam a compreender a formação, os valores e o lugar de onde cada convidado fala.
No especial de fim de ano do programa, Fred Nicácio, Djamila Ribeiro, MC Hariel, Maeve Jinkings, Jaques Wagner, Rachel Maia, Romeu Zema e Gregório Duvivier retomam histórias familiares marcadas por trajetórias diversas. São relatos que passam pela periferia, pelo campo, pela militância, pela arte e pelo trabalho duro, mostrando como as origens moldam muitas escolhas e visões de mundo.
Falar de pai e mãe é, muitas vezes, falar de cuidado, referências e aprendizados, mas também de ausências, conflitos e rupturas. Alguns entrevistados evocam figuras presentes e decisivas; outros começam pela falta, pela distância ou pela necessidade de assumir responsabilidades cedo demais.
Confira os destaques:
Fred Nicácio, médico e apresentador
“Os meus pais são pessoas que têm um letramento racial absurdo e passaram isso para a gente. Somos três irmãos, eu sou o do meio. Meu pai sentava com a gente e falava assim: ‘vocês três são pretos, não vão ser tratados iguais ao filho do coronel fulano, que é branco, ou ao filho do pastor ciclano, que é branco. Mesmo dentro da Igreja vai ter racismo’. Eles nos muniram, argumentaram e deram ferramentas para identificar e combater o racismo desde muito cedo. Ao mesmo tempo, os meus pais são pessoas com recortes periféricos de ascensão social, de militarismo, de religião que adoece. E eu ali, um homem criativo, gay, com aspirações artísticas o tempo todo…”
Djamila Ribeiro, filósofa e escritora
“O meu pai era militante do movimento negro e também era do Partido Comunista de Santos. Tive uma infância muito politizada. Desde criança, o meu pai conversava com a gente sobre, levava a gente ao teatro, levava a gente ao cinema, comprava livros. Tenho muitas memórias de ele levar a gente ao teatro e antes de começar a peça falar: ‘Levantem, olhem em volta, quantos negros tem aqui? É por isso que tem que estudar’. Ele tinha muito dessa consciência que a gente era negro, que a gente vinha da classe trabalhadora e da importância de estar conectado com os movimentos sociais. Tanto que o nome da minha irmã é Dara e o meu é Djamila, ele tirou de uma edição do Jornegro, que era um jornal da mídia negra. Desse mesmo jornal, tirei o nome da minha filha, que é Tulane. Foi uma infância da classe trabalhadora, a gente passava perrengues, mas muito politizada e culta.”
“Sou uma mulher iniciada já há muitos anos no candomblé, e isso se deve, com certeza, à minha mãe e à minha avó. O candomblé é a minha base de entender o mundo, não só como religião. É um lugar que teve que criar tantas estratégias para sobreviver e ensina também a respeitar as diferenças. Digo que não seria o que sou se não fosse uma mulher dessa religião, filha de Oxóssi.”
MC Hariel, músico
“Eu morava na garagem de um sobrado. A gente tinha problema com droga e com diversas coisas no nosso quintal, não precisava nem ir pra rua pra encontrar esse tipo de coisa. Então minha mãe sempre colocava música, sempre manteve um cotidiano ali de volume alto, meio que pra mudar a vibração, mudar a energia daquele ambiente. Minha mãe fez sarau, fez movimentos em que todo mundo se encontrava pra falar de música, falar de poesia, tocar um instrumento. Esse sempre foi o rolê dela. Sempre foi da música, da arte. Era um ambiente meio esquisito e tudo se transformava através da música. A música sempre foi muito importante, criava uma redoma. A música salvava nós.”
“Meu pai era músico, fez muito sucesso antes de eu nascer. Quando eu nasci, ele já enfrentava problema com droga, problema alcoólico, tocava de bar em bar. A influência dele na minha vida foi muito grande: parte de como fazer, parte de como não fazer. Ele me mostrou um caminho a seguir e um caminho a não seguir. Me mostrou como a vida pode se transformar de uma coisa que parece boa pra uma coisa não tão boa. Hoje eu amo muito meu pai e agradeço a Deus por ter enviado ele daquele jeito que ele era. Não digo que foi bom, mas foi importante, foi necessário pra eu chegar até aqui.”
Maeve Jinkings, atriz
“José Alberto Melo Silva. É um cara que veio do Delta do Parnaíba, no Nordeste, criado no meio rural e com 13 anos foi mandado para Brasília. Ele é dessa geração dos candangos, pioneiros ali de Brasília para trabalhar e mandar dinheiro para a família. Sempre sonhou em fazer faculdade de história, não teve chance, mas é autodidata e estuda muito, está sempre lendo. Comerciante até hoje, a nossa relação sempre foi muito mediada pela música, cinema e pela literatura. A gente lia livros juntos, tinha brincadeiras musicais, piadas internas. Um homem muito complexo, conservador por um lado, moral e super progressista e revolucionário politicamente.”
“Leila Jinkings, minha mãe, paraense, de uma família em que meu avô, Raimundo Jinkings, era jornalista, comunista e foi perseguido pela ditadura. Na manhã do dia 1º de abril de 1964, o nome dele já estava lá. A subjetividade, a memória da minha família, é o imaginário de quem passou por isso. Quando a minha mãe vai para Belém do Pará separada, vamos morar na casa dos meus avós, eles também ajudaram a me criar.”
Jaques Wagner, senador (PT-BA)
“Meus pais, como todos os judeus na época da Alemanha nazista, saíram da Europa naquela condição que foi a maior barbárie cometida pelos seres humanos no século passado. Meu pai morava em uma cidade chamada Ostrov, e minha mãe em Varsóvia. Eles saíram em tempos diferentes, fugidos do nazismo na Polônia. Minha mãe saiu quando tinha mais ou menos 15 anos, e meu pai quando tinha 18. Ele fugiu dentro de um navio de carvão e acabou atracando em Trinidade e Tobago, onde viveu um período, depois veio embora para o Rio de Janeiro, onde já havia alguns membros da família. A minha mãe fugiu com o pai, a mãe e um irmão gêmeo direto para o Rio.”
Rachel Maia, empresária
“Dona Pretinha, dona de casa, e seu Antônio, empregado da Vasp por mais de 33 anos. Começou como faxineiro, autodidata, foi estudando, galgando novas posições e saiu aposentado como supervisor de aviação. Meu pai viajava o mundo porque, depois de se tornar técnico, ia com a equipe buscar aviões para trazer ao Brasil. Minha mãe era do lar. Sempre fez faxina para complementar a renda e comprar brinquedos para nós no Dia das Crianças. Isto, para mim, foi emblemático. Era revendedora, liderava parte da catequese na Igreja, era do Conselho de Pais e Mestres da Escola Municipal João de Deus Cardoso de Melo, onde nós todos lá de casa estudamos. É empreender o tempo todo, sendo do lar, autônomo ou estando em uma empresa galgando novas posições e entendendo quais são as oportunidades. Como diz a Oprah Winfrey: “Sorte é estar preparado para quando a oportunidade chegar”.”
Romeu Zema, governador de Minas Gerais
“O meu pai ficou órfão aos 14 anos de idade. A empresa passou a ser dirigida por alguns tios dele, que tinham conhecimento mecânico, mas não conhecimento do negócio. Na hora em que a situação estava muito ruim, o meu pai, com 20 anos, assumiu a empresa. Ele sempre teve um dom para ser comerciante. é uma pessoa que trata muito bem os outros, agrada muito, e conseguiu resgatar a empresa. Cresceu e diversificou. Acho que até por esse motivo, ele acabou também casando com a minha mãe, que teve um histórico semelhante. A minha avó, que eu não conheci, da mesma maneira que meu avô, faleceu com 33 anos de câncer, deixando a minha mãe órfã com 9 anos de idade. Sempre fui muito próximo, tanto do meu pai quanto da minha mãe, que foram muito dedicados, tanto a mim quanto ao meu irmão e irmã.”
Gregório Duvivier, ator e escritor
“Via meus pais e idolatrava eles no palco, eles se apresentavam juntos. Meu pai [tocava] saxofone e minha mãe cantava, tinham uma banda. Eles viajavam, e a gente ia, eu e minha irmã, via todos os shows. Achava aquilo ali o lugar mais especial do mundo, o palco. Mas não ousava pensar que um dia eu estaria lá, porque tinha muito medo e era muito tímido. Sonhava em estar nos bastidores, em escrever histórias e tal.”
“Hoje em dia tem o termo ‘nepo baby’, que acho engraçado e faz sentido mesmo. Eu e o João Vicente, a gente se zoa de ‘nepo quarentões’. Mas isso não é novo, vem da origem do teatro. Os circos todos eram famílias. Todo circo é formado por ‘nepo palhaços’, ‘nepo trapezistas’. Está no início da carreira teatral a ideia de que a família divide a profissão. Existe uma facilidade maior, sim, mas sempre foi assim em todas as profissões. Tem algo que faz parte da natureza artística, você amar aquilo desde a mais tenra infância. Não porque seu pai tem que ter sido artista, mas o sonho da arte, acho que nasce na infância.”
Assista ao episódio especial de Papo Amado: