Redução de danos no Carnaval: o que beber e comer para terminar a festa ‘inteiro’

De misturas perigosas de álcool com energético ao impacto da bebida no fígado, o médico Uno Vulpo explica o que pode salvar o sua folia

Luiza Barufi

16/02/2026 às 06:00 · Atualizado há 6 meses

A maratona do carnaval representa um dos maiores desafios anuais para o organismo. Virar noites e dormir menos no carnaval é quase parte do roteiro da folia, além da combinação de exposição prolongada ao sol, atividade física intensa, consumo elevado de álcool e privação de sono.

Tudo isso cria um cenário de alto estresse metabólico que, se não for manejado com estratégia, pode resultar em internações e quadros graves de desidratação.

Em entrevista ao Tech Tech Tech Saúde, o médico Uno Vulpo explica que a manutenção do corpo deve ser tratada como prioridade técnica, e não apenas como um cuidado secundário. Criador do projeto Senta, plataforma focada em educação em saúde e redução de danos, Vulpo detalha que o segredo de quem chega inteiro à Quarta-feira de Cinzas reside no entendimento do próprio metabolismo.

O fígado sob pressão

Diferentemente do que muitos imaginam, o álcool não é apenas uma substância recreativa, mas uma fonte energética densa que exige um esforço monumental do sistema hepático.

“Uma lata de cerveja contém cerca de 150 calorias. O excesso de energia não utilizada pelo corpo é absorvido em forma de gordura”, explica o médico.

O fígado é responsável por processar cerca de 90% de todo o álcool ingerido. Em um cenário de consumo contínuo, as células hepáticas trabalham sem interrupção, o que pode desencadear processos inflamatórios graves.

“O aumento de gordura nas células do fígado gera a esteatose hepática. Quando essas células inflamam, entramos no quadro de hepatite alcoólica, que pode evoluir para cicatrizes permanentes, a cirrose”, adverte Vulpo.

O perigo das misturas e o “falso fôlego”

Outro ponto crítico destacado pelo especialista é o uso de estimulantes, como energéticos e cafeína, para mascarar o cansaço e a embriaguez. Segundo Vulpo, essa prática é uma das principais causas de incidentes graves nos blocos.

“O cansaço é um aviso do cérebro para você parar. O energético silencia esse alerta, fazendo com que o folião continue bebendo além do seu limite”, afirma. O risco se estende ao sistema cardiovascular: a cafeína acelera os batimentos enquanto o corpo luta para processar o álcool, podendo resultar em arritmias e palpitações severas. O médico alerta ainda que a mistura com substâncias como a cocaína potencializa a toxicidade, criando o etileno de álcool, um composto extremamente agressivo ao fígado.

Veja também: Seis dicas de saúde para o carnaval

Quando o “passar do ponto” vira emergência

Existe um limite entre o mal-estar comum e a necessidade de socorro imediato? Segundo Vulpo, a atenção deve ser redobrada e a ajuda médica (UPA) deve ser buscada se o folião apresentar:

  • Incapacidade de manter uma conversa lógica ou apresentar confusão mental;
  • Pele fria ao toque, palidez e queda brusca de pressão;
  • Vômitos persistentes que impedem a ingestão de água.

“Se a pessoa não consegue reter líquidos, ela precisa de hidratação venosa. E um detalhe vital: soro de reidratação não é o mesmo que bebidas esportivas coloridas. É preciso buscar aquele soro de farmácia”, reforça.

Desmistificando curas e o treino pós-festa

No mercado de promessas milagrosas, Vulpo é categórico: medicamentos tomados “antes da bebedeira” são, em geral, associações de analgésicos e cafeína que apenas mascaram sintomas, sem proteger o órgão.

Da mesma forma, o médico desaprova a tentativa de “suar o álcool” na academia no dia seguinte.

“O fígado está ocupado processando toxinas e não consegue manter a produção de glicose para o exercício. O resultado pode ser um desmaio por hipoglicemia e um estresse ainda maior em um corpo já desidratado”.

Dicas para uma folia segura:

Base alimentar: Nunca beba com o estômago vazio; a comida serve como barreira física para a absorção do álcool.

Ritmo de metabolização: O corpo leva, em média, uma hora para processar uma dose. Beber água nos intervalos é essencial para dar tempo ao fígado.

Planejamento de danos: Escolha um dia para o “extravaso” e outros para o repouso ativo. Carnaval de sucesso é aquele que termina na Quarta-feira de Cinzas com o corpo inteiro.

Confira a entrevista no vídeo do Tech Tech Tech Saúde

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