Rui Tavares: ‘Simetria é enganadora: agressividade da direita autoritária é muito maior’
No Lisboa Connection, historiador e escritor português Rui Tavares vê erro em tratar polarização como simétrica e avalia diferenças entre direita e esquerda

Com as eleições de 2026 no horizonte e com sinais de consolidação de um segundo turno acirrado entre Lula e Flávio Bolsonaro, a corrida eleitoral tende a se concentrar menos na diferença entre propostas e mais na capacidade de transformá-las em narrativas capazes de mobilizar o eleitorado.
Para Rui Tavares, é justamente nesse terreno que a disputa contemporânea entre direita e esquerda se reorganiza. Historiador, escritor e deputado na Assembleia da República de Portugal, ele afirma, em entrevista ao Lisboa Connection, que a política hoje depende mais da construção de sentido que da implementação de políticas públicas.
Nesse cenário, Tavares avalia que a direita tem conseguido vantagem ao operar melhor na lógica das redes sociais, com estratégias de atenção e comunicação mais adaptadas às plataformas digitais. Já o campo progressista, segundo ele, enfrenta dificuldades não apenas na forma de comunicar suas políticas, mas também na relação com seus próprios apoiadores. “A direita acolhe de braços abertos. A esquerda é altamente excludente”, afirma.
Rui Tavares identifica erro recorrente
Na conversa, o historiador chamou atenção para um erro recorrente no debate público: tratar a polarização política como algo simétrico. Segundo ele, essa leitura distorce o cenário atual e minimiza os riscos à democracia. “A simetria é enganadora. A agressividade da direita autoritária é muito maior do que a da esquerda, que, se é autoritária, é residual”, defende.
Leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto.

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Tudo é político?
A política é o meio natural do ser humano.
Você cresceu em uma aldeia no Ribatejo, num contexto ainda muito marcado pelo pós-25 de Abril. Que ambiente político e cultural existia na sua casa?
Na minha infância, Portugal era um país de alta intensidade política. [Havia] um cansaço com os extremos da polarização política na minha infância. Tanto para elogiar quanto para insultar. Havia uma visão muito ilusória acerca do leste europeu. Tínhamos vivido sob o salazarismo, e tinha-se a ideia de que o salazarismo mentia; então, talvez mentisse sobre o leste europeu também. A estadia do meu irmão no leste europeu permitiu entender que o autoritarismo lá era real.
No Brasil ou em Portugal, uma ditadura de extrema direita é mais provável do que uma de esquerda. Como ajustar o discurso para que as pessoas entendam que as chances entre os extremos não são iguais?
Uma maneira de ultrapassar parte dos dilemas é através de histórias. A nossa comunicação é sustentada pelas redes sociais, que são feitas para a partilha de opiniões. A distinção identitária se faz pelo encontrar de uma pequena diferença entre uma opinião e outra. Ao contar histórias, encontramos mais semelhanças do que diferenças.
A polarização é um termo útil, mas não é simétrica. O erro das pessoas é pensar isso. Hoje, a simetria é enganadora. A agressividade da direita autoritária é muito maior do que a da esquerda, que se é autoritária é residual.
E a estratégia de frente ampla do Lula e do Alckmin em 2022, que pode vir a se repetir nas eleições deste ano?
Vemos o Lula e o Alckmin na mesma chapa, quando nos anos 1980 essa era a polarização. A leitura deles, estrategicamente, está correta. O risco de polarizar simetricamente é perder tudo. Aquilo que nos anos 1980 e 1990 eram o centro-esquerda, esquerda e centro-direita, hoje em dia estão no campo progressista e democrático em geral. Para conter a ofensiva autoritária que vem da extrema-direita, temos que ser capazes de estabelecer frentes amplas. A experiência da América Latina é especialmente instrutiva.

Um dos seus livros se chama “Esquerda e direita: um guia para o século XXI” e, muitas vezes, vemos apropriações muitas vezes errôneas dos termos pelos dois campos. O que pode ser feito?
A direita teve talento em tomar a narrativa. No contexto da democracia e da política, o exagero nas distinções faz com que, por exemplo, a gente tenha uma esquerda unicamente ativista em que a distribuição operativa é muito mais em “como vou explicar que sou mais de esquerda do que ele?”.
Enquanto se faz isso, muita gente que era da esquerda vai para a direita. Quando se perde essas pessoas, há uma tendência da esquerda de desistir delas. Desiste do tio, do avô… A direita acolhe de braços abertos. São altamente inclusivos e a esquerda altamente excludente. Esse exclusivismo prejudica em momentos de voto.
O exemplo brasileiro é um dos mais eloquentes. Muita gente entrou na faculdade, comprou casa, teve carro pela primeira vez nos governos Lula e Dilma. Quando voltei ao país em 2016, já não creditavam a ascensão social aos governos, nem à política ou à democracia. Foi a pessoa e Deus. Os “Silas Malafaias” da vida conseguiram dizer “olha, meu amigo, não foi o Lula que te deu faculdade, casa e carro. Nem o governo federal ou estadual. Não foi a política nem a democracia”. Em boa medida, é nisso que está a raiz da crise da democracia progressista no Brasil, Estados Unidos e Europa.
A extrema-direita é eficiente nas redes sociais. Onde está a esquerda nesse espaço?
A centro-esquerda e centro-direita mais tecnocráticas achavam que basta mostrar estatísticas e dados de que uma certa política pública que funcionou para que as pessoas fiquem gratas. Não é assim. [Nas redes sociais], a direita é muito boa em estratégias de atenção e de curta duração. E isso é melhor para destruir do que para construir. Os progressistas conquistaram coisas importantes, mas se esqueceram de contar a história.
Há um distanciamento entre o que os estes políticos acham que as pessoas precisam e as necessidades reais delas? Como o entrosamento pode melhorar?
Boa parte tem a ver com contar uma história, porque elas criam sentido para os objetos de desejo político e um sentido individual de esperança e construção de futuro. Isso não pode ser só teórico. Tem que ser prático. Tanto em Portugal quanto no Brasil, [por exemplo], tem se um objeto de desejo de uma certa independência profissional que se afasta do modelo de trabalho que uma esquerda mais clássica tem na cabeça – no Brasil é a CLT.
Muita gente gosta da ideia de ser empresário individual e viver com uma flexibilidade laboral diferente. Se a esquerda rejeita essas pessoas dizendo que isto não é um modelo, ela vai ficar cristalizada e não vai ganhar eleições.