Violência contra população trans tem origem em perturbação do próprio cis, diz escritora
Escritora e crítica literária e travesti Amara Moira comenta sobre sua obra de estreia, 'Neca: romance em bajubá”

O reencontro de uma travesti com um amor do passado conduz um romance que costura temas como identidade de gênero, desejo, prostituição, preconceito, violências cotidianas e com a própria literatura. Trata-se de “Neca: romance em bajubá”, obra de estreia da travesti, escritora e crítica literária Amara Moira.
No Notas de Rodapé, a jornalista Raquel Cozer recebeu Amara Moira e o ator e crítico cultural Guilherme Terreri, mais conhecido pela persona Rita von Hunty, para discutir esses temas e refletir sobre como a literatura revela e confronta pactos sociais que sustentam a norma de gênero.
“A Helena Vieira, uma amiga, diz que a travesti desestabiliza o sistema. O cara padrão, ou que acha que seu desejo é padrão, vê a travesti, sente desejo, tesão, prazer, e aquilo faz com que ele comece a questionar: ‘será que eu sou hétero?’ Ele entra em conflito com o próprio desejo a partir dessa relação com a travesti e à culpa”
Primeiro livro brasileiro a ser escrito no dialeto inspirado no iorubá e usado por travestis como forma de comunicação e resistência nas ruas, “Neca” foi o ponto de partida para uma conversa que se ampliou para a reflexão sobre a violência contra pessoas trans.
No livro, você trabalha o humor, mas também tem muita violência nas pequenas coisas. Recentemente, vimos o caso da Alice Martins Alves, mulher trans de 33 anos, espancada e morta. O que dispara na sociedade essa licença para agredir e matar?
Amara Moira: A Helena Vieira, uma amiga nossa, diz que a travesti desestabiliza o sistema. O cara padrão, ou que acha que o desejo dele é padrão, vê a travesti, sente desejo, sente tesão, sente prazer, e aquilo faz com que ele comece a questionar: “será que eu sou hétero?” Ele entra em conflito com o próprio desejo a partir dessa relação com a travesti e à culpa. Se vejo aquele corpo que tem pênis e sinto alguma coisa dentro de mim, liga logo um alerta. Ao mesmo tempo tem outro aspecto interessante que é “aquele corpo nasceu com pênis como eu e se transformou em outra coisa que não um homem”.
Às vezes a gente cresce achando que, como nascemos com pênis, temos que ser homem e precisamos continuar na narrativa que nos ensinaram. De repente, a gente vê corpos que desafiam e inventam outro jeito de existir. Se essa pessoa inventou outro jeito de existir, eu também não preciso ser aquilo que disseram que eu sou. Isso gera muito desconforto. Quando você começa a descobrir que tem outras formas de viver, você vai ter que inventar um jeito de fazer sentido pra sua vida. E aí, aquela figura está causando tudo isso. Quando aquela figura era morta o tempo inteiro, ela simplesmente não tinha espaço social, você não era confrontado com isso o tempo inteiro. Agora você vai ver travesti em todo lugar. Então esse questionamento vai começar a estar cada vez mais presente.
Guilherme: Na literatura a gente tem isso formalizado. “O que você odeia em mim é você.” O Jung fala um pouco sobre isso. Aqui no Brasil, o Andreoni Medrado brinca que existe uma quarta ferida narcísica, o Freud fala de três. A quarta é a transgeneridade que obriga toda pessoa cisgênero a pensar seu pacto com a cisgeneridade. A Amara está nos dizendo isso de forma bonita. Mas efetivamente uma pessoa trans chega e fala pra você “e aí, o que você tá fazendo?” “Você tá fazendo tanta crítica ao hetero cis patriarcado e continua pactuando?” Continua se vestindo, performando, afirmando. Você continua… Então, você vai ter que se haver com isso. Essa revolução é epistemológica emparelhada com o que o feminismo fez, com o que o movimento negro faz, porque ele revela o pacto da branquitude, ele revela o pacto machista, e ele revela o pacto da cisgeneridade. É um pacto, é ficcional. Todo dia as pessoas acordam e decidem repactuar com ele. E as pessoas trans nos informam a todo momento de que é um pacto.
Amara: A violência muitas vezes tem a ver com “eu quero acabar com o indício que causa essa perturbação em mim”, “sonho em voltar pro mundo em que essas figuras não podiam existir”. E que, portanto, o pacto não estava explícito.