‘Neymar gosta da polarização política em torno de seu nome’, diz jornalista esportivo
Jornalista esportivo, Lucas Reis afirma que narrativa construída em torno de Neymar é 'messiânica' e que é preciso saber separar o jogador da posição política

A pressão para que Neymar retornasse à Seleção Brasileira e disputasse a Copa do Mundo de 2026 representa um movimento inédito, avaliou o jornalista esportivo Lucas Reis em entrevista ao Matinal desta terça-feira (19).
Reis afirmou que a campanha em torno do camisa 10 — inclusive entre jogadores da própria Seleção — construiu uma narrativa messiânica em torno do atleta.
“Ninguém em um ciclo de quatro anos — desses quatro anos, três o Neymar não foi convocado —, ninguém ocupou o lugar dele na seleção, ninguém vestiu a camisa 10 da seleção e falou ok, a responsabilidade agora é minha, eu vou ser o artilheiro do time, se precisar eu vou ser o capitão do time. […] como ninguém assume esse lugar, ele fica vago então a gente fica esperando que o “salvador” vai voltar. É uma coisa messiânica mesmo, a gente fica esperando aquele cara que a gente já viu brilhar um dia voltar e assumir esse lugar que ninguém ocupou”.
Se, por um lado, a pressão pública por determinados jogadores costuma estar ligada ao desempenho técnico, no caso de Neymar ela parece ultrapassar essa dimensão e alcançar também a esfera política. Durante as eleições de 2022, o camisa 10 declarou apoio a Jair Bolsonaro e, nos últimos anos, se aproximou de nomes da extrema direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
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Até mesmo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ0, pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal, publicou em suas redes sociais uma foto ao lado de Neymar após a convocação do jogador, em uma demonstração de proximidade entre os dois.
Flávio, que enfrenta um momento delicado em sua pré-campanha após reportagem do portal Intercept revelar que ele mantinha relação próxima e chegou a pedir dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, busca na Copa do Mundo uma saída para amenizar as polêmicas envolvendo seu nome.

Para Reis, Neymar gosta dessa polarização política em torno de seu nome.
“Ele gosta das pessoas pegando no pé dele e de viver num clima em que ele possa dizer ‘todos me odeiam’, ‘é contra tudo e contra todos’, essa coisa de criar um cenário meio épico pra dizer ‘olha só como eu superei a adversidade’. E é lógico que esse comportamento vai gerar rejeição, é justo que gere”, disse o jornalista.
Neymar não é o primeiro do futebol a se envolver com política
Segundo o jornalista, o uso político do futebol não é um fenômeno exclusivo do Brasil, mas parte de uma estratégia recorrente em diferentes países.
“O futebol, por si só, é um fenômeno político, social e cultural. Então é óbvio que ele vai ser sempre utilizado, as autoridades, enfim, o universo político vai tentar utilizá-lo como uma ferramenta de propaganda. Ao longo do tempo, acho que como um todo, não só as Copas do Mundo, o futebol foi, sim, muito utilizado como um meio de propaganda”.
Ainda segundo o jornalista esportivo, embora seja difícil, é necessário separar a figura pública de Neymar — associada ao bolsonarismo — da atuação do jogador dentro de campo. “A análise sobre o que o Neymar entrega como jogador é contaminada pelos posicionamentos políticos e pelas besteiras que ele faz, acho que a gente tem dificuldade de separar”, afirmou ao Amado Mundo.
“A gente tem dificuldade de separar. Ele é o maior jogador brasileiro revelado neste século, mas muitas vezes é ‘tirado pra nada’ porque a gente não concorda com os posicionamentos dele.”
Assista à entrevista completa do Matinal: