Entrevista

‘Neymar gosta da polarização política em torno de seu nome’, diz jornalista esportivo

Jornalista esportivo, Lucas Reis afirma que narrativa construída em torno de Neymar é 'messiânica' e que é preciso saber separar o jogador da posição política

19/05/2026 às 16:51 · Atualizado há 2 meses
Flávio Bolsonaro publica foto ao lado de Neymar, após jogador ser convocado para jogar na seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026. (Reprodução/Redes sociais)

A pressão para que Neymar retornasse à Seleção Brasileira e disputasse a Copa do Mundo de 2026 representa um movimento inédito, avaliou o jornalista esportivo Lucas Reis em entrevista ao Matinal desta terça-feira (19).

Reis afirmou que a campanha em torno do camisa 10 — inclusive entre jogadores da própria Seleção — construiu uma narrativa messiânica em torno do atleta.

“Ninguém em um ciclo de quatro anos — desses quatro anos, três o Neymar não foi convocado —, ninguém ocupou o lugar dele na seleção, ninguém vestiu a camisa 10 da seleção e falou ok, a responsabilidade agora é minha, eu vou ser o artilheiro do time, se precisar eu vou ser o capitão do time. […] como ninguém assume esse lugar, ele fica vago então a gente fica esperando que o “salvador” vai voltar. É uma coisa messiânica mesmo, a gente fica esperando aquele cara que a gente já viu brilhar um dia voltar e assumir esse lugar que ninguém ocupou”.

Se, por um lado, a pressão pública por determinados jogadores costuma estar ligada ao desempenho técnico, no caso de Neymar ela parece ultrapassar essa dimensão e alcançar também a esfera política. Durante as eleições de 2022, o camisa 10 declarou apoio a Jair Bolsonaro e, nos últimos anos, se aproximou de nomes da extrema direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

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Até mesmo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ0, pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal, publicou em suas redes sociais uma foto ao lado de Neymar após a convocação do jogador, em uma demonstração de proximidade entre os dois.

Flávio, que enfrenta um momento delicado em sua pré-campanha após reportagem do portal Intercept revelar que ele mantinha relação próxima e chegou a pedir dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, busca na Copa do Mundo uma saída para amenizar as polêmicas envolvendo seu nome.

Neymar é convocado para jogar na seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026. (Lucas Figueiredo/CBF)

Para Reis, Neymar gosta dessa polarização política em torno de seu nome.

“Ele gosta das pessoas pegando no pé dele e de viver num clima em que ele possa dizer ‘todos me odeiam’, ‘é contra tudo e contra todos’, essa coisa de criar um cenário meio épico pra dizer ‘olha só como eu superei a adversidade’. E é lógico que esse comportamento vai gerar rejeição, é justo que gere”, disse o jornalista.

Neymar não é o primeiro do futebol a se envolver com política

Segundo o jornalista, o uso político do futebol não é um fenômeno exclusivo do Brasil, mas parte de uma estratégia recorrente em diferentes países.

“O futebol, por si só, é um fenômeno político, social e cultural. Então é óbvio que ele vai ser sempre utilizado, as autoridades, enfim, o universo político vai tentar utilizá-lo como uma ferramenta de propaganda. Ao longo do tempo, acho que como um todo, não só as Copas do Mundo, o futebol foi, sim, muito utilizado como um meio de propaganda”.

Ainda segundo o jornalista esportivo, embora seja difícil, é necessário separar a figura pública de Neymar — associada ao bolsonarismo — da atuação do jogador dentro de campo. “A análise sobre o que o Neymar entrega como jogador é contaminada pelos posicionamentos políticos e pelas besteiras que ele faz, acho que a gente tem dificuldade de separar”, afirmou ao Amado Mundo.

“A gente tem dificuldade de separar. Ele é o maior jogador brasileiro revelado neste século, mas muitas vezes é ‘tirado pra nada’ porque a gente não concorda com os posicionamentos dele.”

Assista à entrevista completa do Matinal:

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