Entrevista

Polarização política corresponde a apenas 11% dos brasileiros, mostra estudo

Apesar da perceção de um país dividido, a maioria da população se afastou do debate por 'cansaço e medo de julgamento', explica pesquisador Pablo Ortellado

13/01/2026 às 15:00 · Atualizado há 7 meses
Ato golpista na Praça dos Três Poderes, em Brasília (Foto: Agência Brasil)

“A maioria do Brasil não é polarizada, mas se afastou do debate por cansaço e medo de julgamento.” A análise do diretor-executivo da More in Common Brasil, Pablo Ortellado, resume o diagnóstico de um estudo que ouviu mais de 10 mil brasileiros e identificou um amplo grupo que não se reconhece nos extremos políticos.

O levantamento “O Brasil invisível” mostra que apenas 11% da população está nos polos mais engajados e vocalizados da política, tanto à esquerda como à direita. Ainda assim, esses grupos dominam as redes sociais, os protestos e a conversa pública, criando a percepção de um país profundamente dividido.

Leia ainda: Mesmo cansada da política, população se engaja ao se sentir parte

Segundo Ortellado, a maioria dos brasileiros (54%) ocupa posições intermediárias, com visões políticas mais cruzadas, pragmáticas e menos ideológicas. São pessoas preocupadas com temas como serviços públicos, segurança e qualidade de vida, mas que evitam se expor politicamente para não serem empurradas a rótulos ou atacadas.

A jornalista Letícia Sorg, que também participou da elaboração do relatório, explica que o estudo identificou seis grupos ideológicos no país, incluindo segmentos mais progressistas e conservadores, além de dois grandes blocos centrais, os “cautelosos” e os “desengajados”. Esses grupos, embora majoritários, têm baixa presença no debate público.

Para os pesquisadores, a polarização não reflete valores fundamentais da sociedade, que rejeita racismo, machismo e desigualdades, mas, sim, disputas em torno das soluções propostas por movimentos políticos e identitários, além de uma “economia da atenção” que recompensa discursos mais agressivos. 

O desafio, segundo eles, é tornar visível esse Brasil silencioso e criar formas de diálogo que escapem da lógica binária entre Lula e Bolsonaro.

Pablo Ortellado e Letícia Sorg em entrevista no Matinal

Leia trechos da entrevista no Matinal desta terça-feira (13):

O estudo mostra que só 11% dos brasileiros estão nos dois polos mais engajados. Por que esses grupos, mesmo minoritários, dominam tanto o debate público?

Pablo Ortellado: Primeiro, vale esclarecer que não se trata de autoidentificação. Fizemos um estudo de segmentação com um questionário extenso, aplicado a 10 mil brasileiros, e identificamos padrões de resposta que organizam a sociedade em seis grupos ideologicamente coerentes. O que descobrimos é que os dois grupos mais coerentes e politicamente engajados, um à esquerda e outro à direita, somam cerca de 11%. Eles falam mais de política, participam mais de manifestações e postam mais nas redes. Por isso, passam a impressão de que o Brasil é extremamente polarizado, quando, na verdade, são minoritários.

Letícia, você pode explicar melhor como esses grupos foram definidos no relatório?

Letícia Sorg: O estudo aplicou 168 perguntas a brasileiros de todas as regiões, buscando captar discursos que circulam tanto à esquerda quanto à direita. As respostas foram organizadas a partir da adesão a esses discursos. A partir disso, surgiram seis grupos: os patriotas indignados, os progressistas militantes, a esquerda tradicional, os conservadores tradicionais e, no centro, dois grandes grupos: os cautelosos e os desengajados. Esses últimos têm respostas cruzadas e não se encaixam facilmente em rótulos ideológicos.

Esse diagnóstico traz mais alertas ou oportunidades para a democracia?

Pablo Ortellado: Ele revela algo que sempre esteve ali, mas não aparecia. As pesquisas tradicionais tendem a separar o país entre eleitores de Lula e de Bolsonaro, o que dissolve essa maioria intermediária. Quando olhamos com essa lente, vemos que existe uma maioria cansada da polarização, que evita discutir política no trabalho ou em público por medo de julgamento. Não é um grupo apolítico, pelo contrário, tem visões elaboradas, mas se sente expulso do debate público.

O relatório fala muito das chamadas “guerras culturais”. O que elas revelam?

Letícia Sorg: Há um consenso amplo sobre valores básicos: a maioria reconhece o racismo como problema, defende igualdade entre homens e mulheres e rejeita discriminação. A divisão aparece quando se discute as soluções como cotas raciais, feminismo ou políticas identitárias. Muitas pessoas concordam com o diagnóstico do problema, mas divergem sobre como enfrentá-lo.

Pablo Ortellado: Exatamente. O Brasil não se divide sobre princípios fundamentais, mas sobre as propostas dos movimentos organizados. Isso vale também para meio ambiente, armas e outros temas. As identidades políticas acabam sendo mais divisivas do que os valores em si.

Existe hoje uma “economia da polarização”?

Pablo Ortellado: Sem dúvida. A polarização gera mercados, de mídia, cultura, política, e esses mercados, por sua vez, reforçam a polarização. É um ciclo que se retroalimenta.

Como os grupos moderados se afastam do debate, há menos engajamento e menos monetização fora dos extremos, o que fortalece ainda mais os polos, mesmo sendo minoritários.

Letícia, o que isso tudo muda para o jornalismo?

Letícia Sorg: O relatório mostra como o consumo de mídia também se polarizou. Muitos grupos abandonaram a imprensa tradicional e migraram para redes sociais, YouTube e WhatsApp. O desafio é enorme: os algoritmos premiam títulos alarmistas e polarizados, mas isso não ajuda a construir diálogo. Talvez o caminho seja investir em jornalismo que vá além do conflito, que proponha soluções e dialogue com esse Brasil que existe, mas não aparece.

Assista à entrevista no Matinal desta terça-feira (13):

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