Assim como afeta as boas memórias, o Alzheimer também pode retirar as ruins, diz Claudia Alves
Autora do livro 'O bom do Alzheimer', a gerontóloga e pedagoga compartilhou a jornada de 16 anos cuidando da mãe, portadora da doença

A gerontóloga e pedagoga Claudia Alves trouxe uma perspectiva sensível ao programa Notas de Rodapé, do Amado Mundo, compartilhando a jornada de 16 anos cuidando de sua mãe, Dona Francisquinha, diagnosticada com Alzheimer. Ao revisitar a dor e os traumas de sua própria criação, Claudia explicou que a doença mudou a relação das duas para melhor.
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“O subtítulo do meu livro ‘O bom do Alzheimer’ é ‘Como a doença da minha mãe foi a nossa cura’. Uma cura emocional que eu carregava a minha vida toda e não sabia que ainda doía, mas doía, e dela que foi a vida toda tadinha”, disse.
Com muita vulnerabilidade, a autora revelou como um diagnóstico devastador acabou quebrando um ciclo de distanciamento afetivo, ressignificando não apenas o fim da vida de sua mãe, mas também a sua própria história.
O diagnóstico silencioso e a decisão de ocultar a verdade
Diferente do senso comum que associa o Alzheimer imediatamente à perda de memória, Claudia demorou a perceber a doença porque os primeiros sinais de sua mãe foram comportamentais. Francisquinha passava os dias apática, o que a pedagoga, que trabalhava muito na época, interpretou como um quadro de depressão.
A descoberta ocorreu quase por acaso, quando ela decidiu aproveitar a ida da sogra a um neurologista para também consultar a mãe. No consultório, a mãe falhou em testes básicos de cognição, como desenhar um relógio e memorizar palavras, recebendo o diagnóstico de que já estava em uma fase moderada da doença, aos 76 anos.
“Eu não vou contar porque eu acho que ela vai se deprimir mais e vai piorar o quadro”, pensou na época.
Hoje, depois de cursar gerontologia, ela avalia que revelar ou não o diagnóstico “depende” da idade e da capacidade da pessoa de usar essa informação para prolongar sua autonomia, mas mantém a convicção de que, para o caso de sua mãe — que já sofria de depressão profunda —, o silêncio foi a melhor escolha.
Traumas familiares e o divã da escrita
A criação do livro e do projeto “O bom do Alzheimer” esbarrou em feridas, pois quando a pedagoga tentou escrever sobre sua infância, o processo travou: “Eu tive uma educação abusiva não só emocionalmente, mas também fisicamente”, confessou, revelando o medo de que os leitores vissem sua mãe como uma “vilã”. A saída encontrada, e sugerida por uma editora, foi produzir o livro por meio de depoimentos orais.
“Eu me sentia como se eu tivesse num divã, me senti ali abrindo meu coração, abrindo feridas, gavetas que para mim estavam trancadas e que eu tinha superado”, relatou.
O processo de resgatar o passado também a fez desvendar quebras-cabeças familiares, descobrindo, por exemplo, que a falta de afeto físico da mãe era fruto de um trauma geracional.
‘O bom do Alzheimer’ e o resgate do afeto
Apesar de lidar com o preconceito das pessoas em relação ao nome de seu projeto, Claudia defende que a demência trouxe uma transformação luminosa para a sua relação familiar. Antes da doença, Francisquinha demonstrava amor apenas por meio do cuidado, sendo “incapaz de passar a mão no meu cabelo, me beijar, me abraçar, me dizer que me amava”.
Com o avanço do Alzheimer e o esquecimento dos traumas do passado, a mãe floresceu afetivamente. “Ela começou a ser amorosa, carinhosa, ela agradecia até por um copo d’água”, relembrou.
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