Entrevista

 ‘A língua portuguesa protege os escravizadores’, diz Eliane Marques 

Escritora e psicanalista reflete no Notas de Rodapé sobre o apagamento histórico de palavras e o pacto da branquitude na sociedade

07/07/2026 às 12:36 · Atualizado há 1 mês
Eliane Marques
Escritora, tradutora, psicanalista e advogada Eliane Marques

A escritora, psicanalista e advogada Eliane Marques, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2023, afirmou que a própria estrutura da língua portuguesa atua para proteger os opressores históricos do Brasil. Em entrevista ao programa Notas de Rodapé, apresentado por Raquel Cozer, do Amado Mundo, a autora revelou os fortes apagamentos e contradições percebidos durante a pesquisa para o seu romance de estreia, “Louças de família” (editora Autêntica Contemporânea, 280 páginas). 

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A língua e os navios negreiros ocultam os agressores

A escritora observa que a sociedade brasileira trata as palavras “escravo” e “escravizado” com total naturalidade, enquanto os agentes causadores diretos dessa violência são frequentemente poupados na fala cotidiana. 

“Na nossa dimensão linguística, a palavra escravizador quase nunca é utilizada”, apontou. 

Ela ressaltou que esse silêncio se reflete no que chama de “pacto da branquitude” ou “contrato racial”, um acordo velado em que a sociedade dominante decide não ver, não ouvir e não sentir as atrocidades cometidas contra a população negra para que as estruturas de poder permaneçam exatamente como estão.

De acordo com Eliane Marques, assim como a palavra “escravizador” é omitida do vocabulário, as finas louças de família, que dão título à sua obra, vinham ocultas como carga nos mesmos navios negreiros ou tumbeiros que traficavam os escravizados pelo oceano. 

Eliane diz que o apagamento negro também é visual e social 

Além da questão linguística, a escritora destacou como o apagamento da população negra também se dá de forma visual e social. A autora relatou que as únicas fotografias que existem de sua avó e de sua bisavó só foram tiradas por profissionais porque, na ocasião, elas estavam cuidando de crianças brancas. Para ela, isso é um retrato evidente da exploração no trabalho doméstico. 

A psicanalista também refletiu sobre o que chamou de “inversão” na sociedade brasileira. Ela pontua que a população negra é frequentemente colocada na posição de devedora e associada à pobreza, enquanto a branquitude é poupada de sentir vergonha por suas ofensas e opressões.

“Nós não colaboramos para essa sociedade, nós construímos essa sociedade”, declarou. 

Assista à entrevista completa no Notas de Rodapé:

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