‘A língua portuguesa protege os escravizadores’, diz Eliane Marques
Escritora e psicanalista reflete no Notas de Rodapé sobre o apagamento histórico de palavras e o pacto da branquitude na sociedade

A escritora, psicanalista e advogada Eliane Marques, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2023, afirmou que a própria estrutura da língua portuguesa atua para proteger os opressores históricos do Brasil. Em entrevista ao programa Notas de Rodapé, apresentado por Raquel Cozer, do Amado Mundo, a autora revelou os fortes apagamentos e contradições percebidos durante a pesquisa para o seu romance de estreia, “Louças de família” (editora Autêntica Contemporânea, 280 páginas).
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A língua e os navios negreiros ocultam os agressores
A escritora observa que a sociedade brasileira trata as palavras “escravo” e “escravizado” com total naturalidade, enquanto os agentes causadores diretos dessa violência são frequentemente poupados na fala cotidiana.
“Na nossa dimensão linguística, a palavra escravizador quase nunca é utilizada”, apontou.
Ela ressaltou que esse silêncio se reflete no que chama de “pacto da branquitude” ou “contrato racial”, um acordo velado em que a sociedade dominante decide não ver, não ouvir e não sentir as atrocidades cometidas contra a população negra para que as estruturas de poder permaneçam exatamente como estão.
De acordo com Eliane Marques, assim como a palavra “escravizador” é omitida do vocabulário, as finas louças de família, que dão título à sua obra, vinham ocultas como carga nos mesmos navios negreiros ou tumbeiros que traficavam os escravizados pelo oceano.
Eliane diz que o apagamento negro também é visual e social
Além da questão linguística, a escritora destacou como o apagamento da população negra também se dá de forma visual e social. A autora relatou que as únicas fotografias que existem de sua avó e de sua bisavó só foram tiradas por profissionais porque, na ocasião, elas estavam cuidando de crianças brancas. Para ela, isso é um retrato evidente da exploração no trabalho doméstico.
A psicanalista também refletiu sobre o que chamou de “inversão” na sociedade brasileira. Ela pontua que a população negra é frequentemente colocada na posição de devedora e associada à pobreza, enquanto a branquitude é poupada de sentir vergonha por suas ofensas e opressões.
“Nós não colaboramos para essa sociedade, nós construímos essa sociedade”, declarou.
Assista à entrevista completa no Notas de Rodapé: