Caso Marielle: poder das milícias no RJ só aumentou de 2018 pra cá, diz Tarcísio Motta
Deputado federal do PSOL, mesmo partido de Marielle Franco, comenta a condenação dos mandantes e diz que o avanço político das milícias no RJ impõe um enfrentamento que vá além das sentenças judiciais

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) alcançou um desfecho histórico nesta quarta-feira (25), ao condenar os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão foram sentenciados a 76 anos e 3 meses de prisão, cada um, por planejarem o crime, motivados pela atuação política de Marielle contra interesses de milícias no Rio de Janeiro. A decisão também atingiu o ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, e outros envolvidos em uma rede de corrupção e obstrução da Justiça.
Para o deputado federal Tarcísio Motta (PSOL-RJ), a condenação não só afasta um manto de impunidade, como também expõe a profundidade do domínio criminoso no Estado.
“Esta situação revela o poder político de uma organização criminosa que segue dominando o território do Rio de Janeiro”, afirmou o parlamentar em entrevista ao Matinal.
Ele destaca que, embora os mandantes estejam presos, a estrutura política e o controle territorial das milícias permanecem em expansão, exigindo um enfrentamento que vá além das sentenças judiciais.
”Deveria ser um marco para o Brasil de enfrentamento a esse tipo de crime político, e que possa nos dar algum alívio pela condenação e pela sensação de justiça. Nós precisamos enfrentar as milícias e o crime organizado’.’
Leia os principais trechos da entrevista do deputado ao Matinal ou veja em vídeo ao final do texto.
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Matinal: Em algum momento, você acreditou que este crime ficaria impune, dada a tradição de impunidade no Brasil?
Tarcísio Motta: Muitas vezes. Durante muito tempo, imaginamos que a investigação não chegaria aos mandantes ou, no início, nem aos próprios assassinos. Havia uma quantidade de questões envolvendo o caso que era impressionante, tanto do ponto de vista de falta de rigor na investigação quanto por interferências políticas e falta de respostas. O primeiro ano inteiro de investigação foi basicamente perdido. Recebíamos informações de que o carro onde o assassinato aconteceu estava abandonado no pátio, pegando chuva e sol, e as provas se perdendo. Sabíamos que havia pessoas muito poderosas tentando impedir que chegássemos à conclusão deste caso. Tínhamos uma certeza: um crime planejado daquele jeito só podia ter sido arquitetado pela cúpula política, ou por parte dela, no Rio de Janeiro. Sabíamos que o crime estava ligado às milícias, que nosso partido enfrentava desde a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do RJ, e que estávamos mexendo com gente poderosa que faria de tudo para o caso não chegar à solução.
Qual foi a sensação de acompanhar o desfecho no STF e ouvir os votos contundentes dos ministros sobre o que estava em jogo no assassinato de Marielle?
É um misto de sensações. Eu era muito amigo da Marielle e, na hora em que a ministra Cármen Lúcia começou o voto dela, eu desabei chorando. De um lado, há o reconhecimento daquilo que imaginávamos e que as investigações foram apontando, sobretudo quando foram federalizadas e houve compromisso político de não deixar o caso no esquecimento. Ao mesmo tempo, é importante entender que a justiça possível foi feita ao condenar assassinos e mandantes, mas o processo revela que essa situação não é uma exceção: ela expõe o poder político de uma organização criminosa que segue dominando o território fluminense. O poder das milícias de 2018 para cá aumentou, não diminuiu.
Meu receio é que o que deveria ser um marco de enfrentamento ao crime político nos dê algum alívio pela condenação, mas que sigamos em uma luta ainda muito longe de terminar. Precisamos da decisão política da sociedade e da elite brasileira de que é necessário enfrentar as milícias e o crime organizado.

Durante anos, houve teorias sobre o envolvimento da família Bolsonaro no caso. Com o resultado das investigações e a condenação dos Brazão, você está satisfeito ou ainda mantém dúvidas?
Minha insatisfação com o resultado do julgamento reside no fato de o STF não ter conseguido condenar o Rivaldo Barbosa também por homicídio; ele foi condenado por corrupção e obstrução, mas não pelo assassinato porque houve dúvida razoável. Sobre a família Bolsonaro, em todas as entrevistas que dei nestes oito anos, afirmei que não vi nenhum indício direto de participação ou articulação deles que me fizesse crer que estivessem associados a este crime. Existem elementos sobre os quais a família precisa responder, como a relação com milicianos contratados em seus gabinetes, mas as investigações provaram que o assassinato de Marielle estava ligado aos interesses econômicos e políticos da milícia.
Marielle era uma pedra no caminho das milícias, não dos Bolsonaro. As investigações não apontaram ligação direta, a não ser o vínculo de vizinhança, que alimenta teorias da conspiração. Foram os Brazão, foi a milícia do Rio de Janeiro. É preciso seguir enfrentando as milícias e, nesse enfrentamento, apontarei para a família Bolsonaro, que sempre deu guarida e nunca as combateu como diz, mas dizer que possuem ligação direta com este assassinato é algo que as investigações não apontaram.
O advogado de defesa de um dos condenados afirmou que “quem faz política no Rio e nunca pediu voto para miliciano que atire a primeira pedra”. Em ano eleitoral, as medidas do TSE podem ajudar a romper esse ciclo?
Nós do PSOL podemos atirar várias pedras nesse processo. Marielle foi assassinada justamente porque não fechava com isso. Se ela tivesse se associado ou votado a favor dos projetos deles, provavelmente não estaria morta. O domínio territorial do crime organizado se traduz em curral eleitoral e controle de voto, o que reforça o poder político e a indicação de prepostos de milicianos em cargos públicos. As medidas do TSE são positivas para proteger o cidadão e a democracia, mas nenhuma resolução sozinha resolverá o problema se não rompermos com o marco de poder no Rio de Janeiro. É necessário mudar a realidade para que a população não se sinta compelida a votar no miliciano por medo ou por acreditar que a política é inerentemente criminosa. Precisamos de enfrentamento ao crime organizado, à lavagem de dinheiro e de uma decisão política de quem disputa as eleições de que não fará parte desse processo.
Assista à íntegra da entrevista de Tarcísio Motta ao Matinal: