Paulo Dalla Nora Macedo

De Lisboa, a conexão entre Brasil e Europa na política, na economia e na cultura

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Análise

Acordo UE-Mercosul: por que tarifas poderão levar alguns anos para cair?

Tratado também deixa importante legado político ao mostrar que negociar ainda é possível em tempos de força bruta

13/01/2026 às 06:00 · Atualizado há 8 meses
Protestos de agricultores na França contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul são constantes (Foto: Frederick Florin/AFP)

Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo entre União Europeia e Mercosul finalmente entrou na sua fase decisiva. A aprovação política no Conselho Europeu, na sexta-feira passada (9), abriu caminho para a assinatura formal prevista para sábado (17), no Paraguai, transformando o tratado no maior acordo comercial do mundo, reunindo os 27 países europeus e os quatro do Mercosul.

Aqui na Europa, a recepção foi majoritariamente positiva, embora parte da imprensa tenha tratado o tema com cautela. O caso mais citado foi o do “Financial Times”, que publicou apenas uma nota curta chamando o acordo de “controverso”. Isso tem muito mais a ver com o funcionamento do jornal impresso e com o timing da votação do que com oposição real ao tratado. 

A decisão saiu na sexta à tarde, e ninguém queria correr o risco de estampar uma manchete que pudesse ser desmentida horas depois, caso algum país pedisse adiamento. O “Financial Times”, inclusive, sempre apoiou esse acordo de forma bastante clara.

A ideia de polêmica está concentrada basicamente na França. Ali, o problema não é econômico, mas político. 

A questão agrícola virou combustível para a extrema-direita, num momento de grande instabilidade interna. O acordo tem benefícios amplos e espalhados por toda a economia europeia, algo que a população não percebe de forma imediata. Ao mesmo tempo, ele cria perdedores muito fáceis de identificar, como produtores específicos do interior francês. Esse desequilíbrio narrativo é perfeito para o discurso populista, que ignora os ganhos gerais e transforma um caso localizado em verdade absoluta.

Fora desse eixo, a expectativa é grande. A indústria alemã, especialmente a automotiva, vê o acordo como estratégico. Parte da agricultura europeia também, porque agricultura não é apenas carne e grãos. A Europa tem enorme vantagem competitiva em vinhos, queijos e produtos de alto valor agregado, que passam a ter acesso facilitado ao mercado latino-americano.

Próximas etapas

Agora começa uma fase menos visível, mas igualmente importante: a ratificação nos parlamentos nacionais. 

Esse processo deve ocupar boa parte do ano, sem grandes surpresas, porque os países que aprovaram no Conselho Europeu tendem a repetir essa posição internamente. Superada essa fase, entra-se na de implementação, que é longa e gradual. Não existe choque imediato. As tarifas vão caindo aos poucos, ao longo de seis, oito ou até dez anos, para permitir que empresas e produtores se adaptem.

No fim do processo, cerca de 91% do comércio entre os blocos terá tarifa zero. Mesmo assim, alguns produtos sensíveis continuam protegidos por cotas. A carne é o melhor exemplo. A América Latina poderá exportar até 99 mil toneladas com tarifa zero. Acima disso, volta a pagar imposto. Essa cota representa apenas 1,6% do consumo europeu de carne. Ou seja, o impacto real tende a ser muito menor do que o discurso alarmista sugere.

Mas talvez o aspecto mais relevante desse acordo não seja comercial, e sim político. Em um mundo cada vez mais marcado pela erosão das regras internacionais, pelo uso da força e pela lógica do mais forte, o tratado entre União Europeia e Mercosul é uma reafirmação clara do multilateralismo. Ele mostra que ainda é possível organizar as relações internacionais a partir do diálogo, da negociação e de concessões mútuas.

O que está em jogo é exatamente o oposto da visão defendida por Trump, que aposta num mundo sem regras, em que o mais forte impõe sua vontade, seja pressionando aliados históricos, seja tratando territórios como mercadoria negociável. O acordo UE-Mercosul sinaliza outra direção: a de que um bom acordo é aquele em que todos cedem um pouco. A Europa cedeu, a América Latina cedeu, e justamente por isso o resultado é equilibrado.

Essa é a lógica do multilateralismo e do mundo regulado. Um mundo imperfeito, mas racional. E, diante do cenário internacional atual, essa talvez seja a mensagem mais importante que esse acordo deixa.

Assista ao comentário completo de Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta segunda-feira (12):

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